Arte

Parthenis em Paris e o custo de construir um cânone grego

A venda da Bonhams explora a tensão entre o espírito bizantino e as vanguardas europeias através da modernidade helénica.
Lisbeth Thalberg

O mercado internacional de arte prepara-se para uma reavaliação histórica da modernidade helénica na Bonhams Cornette de Saint Cyr. Através de obras-primas que transitam do simbolismo à abstração geométrica, a coleção desafia a periferia cultural da Grécia para reivindicar um lugar central no relato europeu. Trata-se de um exercício de cartografia crítica que une as tradições mediterrânicas à inovação formal dos grandes centros artísticos.

A superfície da tela converte-se num limiar onde o mundo material se dissolve numa espiritualidade ténue. Na obra-prima de Constantinos Parthenis, Poésie (Annonciation), as figuras não habitam o espaço, mas emergem dele através de cores translúcidas e linhas onduladas. A figura central encarna simultaneamente a Virgem Maria e o espírito da Poesia, num gesto que une a graça antiga à radicalidade vanguardista. É uma tentativa deliberada de elevar a consciência humana através da síntese da fé e da harmonia, onde a tela aberta sugere uma abertura para o infinito.

Esta busca por uma identidade visual própria recorda a trajetória de Amadeo de Souza-Cardoso em Portugal. Tal como o mestre de Amarante, Parthenis absorveu as lições das vanguardas em Paris para depois as processar através de um prisma local. Onde Amadeo fundiu o cubismo com o dinamismo das cores portuguesas, Parthenis integrou o simbolismo com a herança bizantina. Ambos provaram que a modernidade não é uma importação, mas uma síntese que exige o reconhecimento das próprias raízes.

Poésie (Annonciation) by Constantinos Parthenis (1878-1967) (estimate: €300,000-500,000)
Poésie (Annonciation) by Constantinos Parthenis (1878-1967) (estimate: €300,000-500,000)

O leilão intitulado The Greek Sale apresenta-se como uma proposta com tese própria: o modernismo grego não é uma adaptação provincial dos movimentos europeus, mas um participante de pleno direito com uma lógica interna. Esta narrativa apoia-se em evidências como a obra Full Moon H de Yiannis Moralis, uma peça de abstração geométrica que equilibra a paixão física com uma disciplina formal impecável. A estrutura sólida e a pureza das formas em Moralis dialogam diretamente com a tradição geométrica continental.

Por sua vez, Nikolaos Lytras traz uma energia táctil e visceral através da sua obra Sur le toit-terrasse, ile de Tinos, onde as camadas espessas de tinta capturam a luz brilhante das Cíclades. Esta peça, que representou a Grécia na Bienal de Veneza de 1936, mostra como o paisagismo se transforma numa experiência expressionista, afastando-se da mera representação para abraçar a materialidade do óleo. É o testemunho de uma cultura que começava a olhar para o seu entorno natural com olhos renovados.

O lote historicamente mais carregado é talvez o fresco de Theofilos Hadjimichael, Erotokritos et Aretoussa, uma obra de grande formato transferida para tela que originalmente decorava um solar em Lesbos. A cena, extraída da épica cretense do século XVII, sobrepõe harmonias cromáticas bizantinas a convenções narrativas ocidentais e à vitalidade da arte popular. Este tipo de peças sublinha a importância de preservar os fragmentos de uma tradição vibrante no mercado global.

A figura de Nikolaos Gysis complica a narrativa da canonização com Le Zeybek, um retrato pintado durante uma viagem à Ásia Menor em 1873 que provocou a detenção do artista por suspeita de espionagem. O personagem em traje tradicional converte-se num símbolo de identidade regional e resistência. Formado na Academia de Munique, Gysis utilizou o seu rigor académico para retratar uma realidade vivida e não uma fantasia exótica, marcando um marco na pintura de género da época.

Nikos Hadjikyriakos-Ghika também está presente com obras que exploram a fragmentação pós-cubista, como Pont à Santorin, onde a arquitetura complexa da ilha se transforma numa composição de formas geométricas. Estes trabalhos evocam tanto a poesia como a arquitetura, aludindo por vezes à memória de desastres naturais como o terramoto de 1956. A obra Femme avec miroir dans un intérieur, influenciada por Picasso, demonstra como Ghika reinterpretou o vocabulário modernista parisiense para explorar a dualidade e a beleza.

O mercado atual põe à prova se o momento da canonização definitiva chegou para estes autores. A obra de Parthenis, executada cerca de 1950, é a maior pintura do artista jamais oferecida em leilão, com uma estimativa entre 300.000 e 500.000 euros. Este preço surge após a sua posição de destaque na retrospetiva de 2022 na Galeria Nacional de Atenas. Outros valores significativos incluem a obra de Moralis entre 250.000 e 350.000 euros e a paisagem de Lytras entre 70.000 e 100.000 euros.

Sur le toit-terrasse, ile de Tinos by NIKOLAOS LYTRAS (1883-1927), oil on canvas painted circa 1923-1926, (estimate: €70,000 - 100,000)
Sur le toit-terrasse, ile de Tinos by NIKOLAOS LYTRAS (1883-1927), oil on canvas painted circa 1923-1926, (estimate: €70,000 – 100,000)

O fresco de Theofilos espera alcançar entre 100.000 e 150.000 euros, enquanto o retrato de Gysis situa-se entre os 50.000 e 70.000 euros. As obras de Ghika oscilam entre os 40.000 e 80.000 euros dependendo do período. Estas cifras refletem um interesse crescente por parte de colecionadores internacionais que reconhecem no modernismo grego um elo fundamental para entender a evolução da arte europeia do século XX.

Uma seleção destas obras poderá ser visitada em Atenas na Amalias 36, Amalias Avenue, de 4 a 6 de maio, no horário das 11:00 às 20:00. Posteriormente, a coleção completa será exibida em Paris na Bonhams Cornette de Saint Cyr, no número 6 da Avenue Hoche, a 16 de maio das 11:00 às 18:00, e nos dias 18 e 19 de maio das 10:00 às 18:00. O leilão final de The Greek Sale terá lugar na quarta-feira, 20 de maio.

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