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Comer, Rezar, Ladrar na Netflix já sabe por que você tem um cachorro

Cinco alemães vão para os Alpes corrigir os seus animais. Os animais estão ótimos.
Veronica Loop

Existe uma comédia que o público brasileiro reconhece sem precisar de explicação: a do personagem convicto de que o problema vem de fora. A tradição que vai de O Auto da Compadecida até Minha Mãe é uma Peça, passando pela chanchada clássica e pelas grandes comédias de personagem do cinema nacional, trabalhou por décadas esse mecanismo preciso — o tipo humano que não vê o que o espectador vê desde a primeira cena. Comer, Rezar, Ladrar, a comédia alemã disponível na Netflix a partir de 1º de abril, opera no mesmo território. Cinco tutores de cães viajam para os Alpes tiroleses para que um treinador de renome corrija o comportamento dos seus animais. Os animais não têm nenhum problema.

O dispositivo cômico não é o cachorro. É a distância entre o que cada personagem acredita ter vindo resolver e o que o espectador entende desde o início que aquele personagem não consegue nem quer enxergar em si mesmo. Urschi é uma política que adotou sua cadela Brenda como estratégia de imagem pública; o animal não lhe agrada, nunca lhe agradou, mas a gestão das aparências exige sua presença. Helmut e Ziggy são um casal que briga há anos através de um Yorkshire terrier mimado chamado Gaga, como se o cachorro pudesse absorver tudo aquilo que o casamento não está disposto a nomear. Hakan é descrito como reservado, seu pastor belga Roxy como ansioso: a simetria desses dois adjetivos atravessando a fronteira entre as espécies é a escrita mais precisa de todo o material disponível. Babs chega com um Rottweiler que reproduz com exatidão uma energia nela própria que também transborda de qualquer recipiente.

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Para o espectador brasileiro, o enquadramento mais revelador não é com a comédia europeia contemporânea, mas com o que o próprio cinema nacional já fez com estruturas semelhantes. A comédia popular brasileira de maior alcance — das franquias de Se Eu Fosse Você a Minha Mãe é uma Peça, passando pelos clássicos da chanchada — apostou historicamente no reconhecimento afetivo: o espectador ri do personagem porque se reconhece nele, não porque o condena. Nesse registro, a graça está em identificar no outro os mesmos defeitos que não conseguimos ver em nós mesmos. É exatamente o que Comer, Rezar, Ladrar propõe — com a diferença de que a produção é alemã, os Alpes tiroleses substituem o interior do Brasil, e o treinador de cães islandês ocupa o papel do catalisador excêntrico que, sem querer, acelera o processo de autoconhecimento dos outros.

Alexandra Maria Lara, atriz conhecida internacionalmente pelo Bunker, The Reader e Rush, carrega o peso central do filme como a política Urschi. Seu instrumento é a precisão, não o excesso: ela gera comédia mantendo o controle do personagem até o momento em que esse controle se torna impossível de sustentar. É exatamente o que uma política que transformou um cachorro em ferramenta de relações públicas exige: alguém que profissionalizou a distância entre o que sente e o que demonstra, colocada num retiro alpino onde essa profissionalização tem cada vez menos espaço para operar. Devid Striesow, ator alemão formado no teatro clássico berlinês, traz ao marido brigão Helmut uma técnica de microajuste — o rosto que discorda antes que a voz o faça — que a melhor comédia de conjunto conhece bem. Rúrik Gíslason, futebolista islandês que ganhou o programa de dança televisivo Let’s Dance na Alemanha sem ter carreira como ator, interpreta o treinador na sua terceira língua. A comédia secundária que o casting dele introduz é completamente independente do roteiro: alguém fisicamente improvável demais para ser um guru confiável, navegando o alemão com a deliberação visível de quem sabe que cada frase é também uma conquista técnica. Alexandra Maria Lara disse publicamente que não precisou protegê-lo no set. Esse detalhe diz mais sobre a atuação do que qualquer clipe promocional.

O momento em que Comer, Rezar, Ladrar chega tem uma precisão particular, também para o mercado brasileiro. A indústria dos retiros de bem-estar, dos cursos de mindfulness e dos fins de semana de autoconhecimento cresceu de forma consistente no Brasil nos últimos anos, alimentada por uma cultura de autoajuda que encontra no país um solo especialmente fértil. O Brasil é um dos maiores mercados do mundo para livros de autoajuda, e a ideia de que o ambiente certo, o método certo, o instrutor certo podem resolver o que é essencialmente uma questão interna é familiar o suficiente para dispensar explicação. O campo de treinamento de cães que é na verdade uma terapia de grupo é uma premissa com arestas afiadas se o roteiro quiser usá-las. A primeira crítica em inglês disponível descreveu o filme como generoso de coração mas raso em profundidade — o que no contexto brasileiro se traduz como: funciona como entretenimento leve de plataforma, não exige nada do espectador, e resolve tudo antes que o peso de suas próprias observações se faça sentir.

A presença de Jane Ainscough como corroteirista é reveladora para entender a lógica do projeto. Ainscough escreveu Faraway (2023), outra comédia alemã Netflix produzida pela mesma equipe — Olga Film, as produtoras Viola Jäger e Marina Schiller — em que uma mulher insatisfeita fugia para a Croácia para que a mudança de cenário precipitasse o autoconhecimento. A estrutura narrativa é idêntica. Comer, Rezar, Ladrar aplica a mesma lógica a cinco personagens simultaneamente e acrescenta cachorros. A fórmula tem resultados comprovados na plataforma. Ela não aspira a ser mais do que é, e essa honestidade tem seu próprio valor.

Eat Pray Bark
Eat Pray Bark. Netflix

Comer, Rezar, Ladrar está disponível na Netflix desde 1º de abril de 2026. Direção de Marco Petry, roteiro de Petry, Ainscough e Hortense Ullrich, produção da Olga Film — empresa da Constantin Film — filmado em Seefeld no Tirol austríaco, fotografia de Marc Achenbach.

O que o filme não consegue dizer a si mesmo — e que também não consegue dizer diretamente ao espectador — está exatamente abaixo de sua cordialidade. O cachorro em Comer, Rezar, Ladrar absorve o trabalho emocional que seu dono não consegue fazer: a distância entre a imagem pública da política e sua real indiferença pelo animal, o conflito conjugal terceirizado para um terrier, a desconfiança do homem reservado comunicada sem palavras ao animal que vive mais perto dele. O filme mostra tudo isso. O que não consegue dizer é que a revelação ao final do retiro também é uma performance. Que o grupo de desconhecidos que volta para casa tendo compreendido seus problemas está agora encenando a compreensão. Que essa encenação é também uma forma de desviar. Que esses cachorros — o pastor ansioso, o Rottweiler transbordante, o terrier mimado — não são apenas espelhos. São testemunhas. E testemunhas não consertam o que refletem.

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