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Desligue!: três mulheres tailandesas caçam o líder da quadrilha que lhes roubou tudo numa ligação

Quando o dinheiro sumiu e o Estado disse que não podia fazer nada, sobrou só a raiva
Martha O'Hara

Da equipe criativa por trás de Hunger, Desligue! (The Red Line, no original) chega à Netflix como um dos thrillers sociais mais politicamente certeiros vindos do Sudeste Asiático nos últimos anos — um filme que usa a mecânica do crime para dissecar o que acontece quando as instituições abandonam as pessoas que deveriam proteger.

Orn era uma mulher de carreira brilhante. Deixou o marketing para construir uma vida em família, economizou por anos com a disciplina de quem sabe exatamente quanto cada coisa custa. Então o telefone tocou. Uma voz calma do outro lado da linha conhecia seu nome, seu banco, o saldo exato da conta. Sabia o que dizer e a hora certa de pedir a transferência. Quando a ligação acabou, as economias da família tinham desaparecido. O que veio depois foi a segunda humilhação: ir até a polícia e receber, no lugar de uma resposta, a explicação fria de que não havia nada a fazer.

No Brasil, essa história tem nome e endereço. Entre os golpes que mais têm feito vítimas está o da falsa central telefônica, que dobrou em 2025. Um levantamento identificou mais de 129 mil decisões judiciais relacionadas a golpes digitais no Brasil entre 2010 e agosto de 2025, das quais quase um terço foram sentenças sobre estelionatos envolvendo diretamente meios digitais, como o golpe da central telefônica. O mecanismo é idêntico ao que o filme retrata: uma voz que imita autoridade, um roteiro construído para induzir pânico, uma estrutura transfronteiriça que opera exatamente porque existe nos espaços onde as jurisdições se anulam. A primeira ação da vítima é entrar em contato com a instituição financeira e relatar o problema — e, na grande maioria das vezes, as respostas são padronizadas, sem uma solução prática. Orn poderia muito bem ser brasileira.

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O sistema que tornou esse crime possível não surgiu do nada. Os complexos de call center que operam nas zonas de fronteira entre a Tailândia e Mianmar são infraestrutura deliberada: prédios vigiados em territórios contestados, protegidos por milícias armadas e redes criminosas transnacionais que prosperam exatamente onde a lei não chega. Aood, o operador de nível médio que as mulheres decidem caçar, não é um criminoso solitário — é um nó numa estrutura tão lucrativa e tão bem protegida politicamente que desmantelá-la exigiria uma vontade que os Estados da região não demonstraram ter. A omissão das autoridades no filme não é burocracia — é a face visível de um cálculo político consciente.

Existe uma tradição do cinema brasileiro que entende muito bem essa equação. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, não era sobre tráfico — era sobre o que acontece quando o Estado decide que certas vidas e certos territórios não merecem proteção. A brutalidade que o filme documentava era inseparável da ausência institucional que a tornava possível. Desligue! opera com a mesma lógica, mas recusa o espetáculo da violência física em favor de um horror mais silencioso e mais contemporâneo: o golpe que chega pela linha telefônica, que usa a confiança como arma, e que, quando consumado, não deixa rastros visíveis. Orn, Fai e Wawwow não foram assaltadas — foram manipuladas. E quando foram pedir ajuda, descobriram que o Estado tampouco estava lá.

O filme encontra sua maior profundidade moral no personagem de Yui, membro da quadrilha que engana vítimas para sobreviver. Sua presença destrói o conforto da divisão entre culpados e inocentes. Yui e Orn são produzidas pelo mesmo fracasso institucional: uma presa dentro do sistema criminoso, a outra excluída do sistema legal. O diretor Sitisiri Mongkolsiri — cujo Hunger transformara uma cozinha de alta gastronomia num campo de batalha de classe — aplica a mesma lógica aqui: o crime como sintoma social, não como espetáculo. A equipe de produção passou anos em pesquisa de campo, visitando centros reais de golpes além da fronteira, ouvindo organizações de apoio a vítimas, e conversando diretamente com ex-golpistas que demonstraram suas técnicas em tempo real, ligando de fora do país para que os atores pudessem sentir o ritmo e a pressão psicológica de uma fraude de verdade.

A direção foge da grandiosidade do thriller de ação para ficar perto dos corpos, dos interiores, dos momentos em que humilhação e determinação convivem no mesmo gesto imperceptível. A fotografia evita o efeito espetacular e se aproxima dos rostos, das mãos, dos espaços fechados onde se tomam as decisões sem volta. A montagem não dá respiro entre uma derrota e a decisão seguinte. Nittha Jirayungyurn constrói Orn com uma contenção que pesa mais do que qualquer gesto melodramático — é a atuação de quem aprendeu a não mostrar o que sente, porque mostrar nunca serviu para nada.

Desligue! (título original: The Red Line), escrito por Kongdej Jaturanrasmee e Tinnapat Banyatpiyaphoj, com Nittha Jirayungyurn, Esther Supreeleela e Chutima Maholakul nos papéis principais, é um original Netflix com duas horas e quinze minutos de duração, primeira produção tailandesa da plataforma em 2026, disponível a partir de 26 de março. Chega num momento em que as Nações Unidas declararam a crise das fraudes transfronteiriças no Sudeste Asiático uma emergência humanitária.

O que este filme diz sobre o mundo é simples e implacável: existem estruturas criminosas tão lucrativas e tão bem protegidas politicamente que os Estados optam por conviver com elas. E quando isso acontece, as pessoas que esses Estados prometeram defender precisam decidir sozinhas — com os recursos que conseguirem reunir — se aceitam a perda ou cruzam a linha. Desligue! conta como essa linha se parece. E o que sobra de três mulheres depois de tê-la atravessado.

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