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O Abismo na Netflix: filme-catástrofe sueco mostra uma mina engolindo Kiruna

Alice Lange
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O filme-catástrofe de Richard Holm transforma Kiruna, a cidade do Ártico que está de fato sendo transferida porque sua mina de ferro corrói o solo, no palco de um desmoronamento, com Tuva Novotny como chefe de segurança da mina, dividida entre a emergência e a família.

O Abismo (Avgrunden, no original sueco) é um filme-catástrofe construído sobre uma premissa que parece inventada, mas não é: uma cidade no extremo norte da Suécia que precisa ser transferida porque a mina embaixo dela está corroendo o solo. Richard Holm assina a direção, Tuva Novotny lidera o elenco como chefe de segurança da mina de ferro de Kiruna, e a história pergunta o que acontece quando o colapso lento e controlado, com o qual todo mundo na cidade aprendeu a conviver, de repente deixa de ser lento.

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A SF Studios lançou o filme nos cinemas suecos em 15 de setembro de 2023, e a Netflix o estreou no mundo todo em 16 de fevereiro de 2024. Os produtores o apresentaram como o primeiro filme-catástrofe sueco de grande escala. São 103 minutos de duração, falados em sueco, e a produção custou cerca de 90 milhões de coroas, um orçamento alto para uma produção nórdica e modesto para os padrões do gênero hollywoodiano em que ele se inspira.

Uma cidade mineira com uma falha de verdade

Kiruna não é um cenário. A cidade fica ao lado de Kiirunavaara, a montanha onde a estatal LKAB extrai minério de ferro desde o início do século 20, e a operação é descrita como a maior mina subterrânea de minério de ferro do mundo. O que começou como uma mina a céu aberto passou para o subsolo em meados do século passado; o principal nível de transporte, concluído em 2017, fica 1.365 metros abaixo do cume original da montanha, e as galerias mais profundas vão ainda mais longe.

Essa profundidade cobra seu preço na superfície. O corpo de minério desce em declive por baixo da cidade e, à medida que a mineração avança atrás dele, o terreno acima racha e afunda. Em 2004 ficou claro que as fraturas avançavam em direção à cidade, e foi tomada a decisão de transferi-la: casas, prédios públicos e boa parte do antigo centro foram realocados alguns quilômetros a leste, num processo que já dura duas décadas. A mina também registrou acidentes reais, entre eles desmoronamentos de rocha fatais em 2006 e 2008.

O Abismo pega essa realidade em câmera lenta e acelera tudo. A própria frase promocional do filme resume a premissa: todo mundo em Kiruna sabe que algo vai acontecer; a única dúvida é quando. O roteiro responde com um colapso dentro da mina que deixa pessoas presas no subsolo enquanto a cidade, lá em cima, começa a ceder.

Sobre o que é a história

Frigga Vibenius, interpretada por Tuva Novotny, é a chefe de segurança da mina, um cargo que faz dela a pessoa paga para imaginar o pior. A sinopse oficial apresenta a vida dela como um número de equilibrismo: o trabalho arriscado no subsolo, a família, um novo relacionamento e um ex-companheiro que não consegue deixá-la ir. Quando o chão começa a tremer, esse malabarismo pessoal deixa de importar e a luta se torna física, uma briga para não ser arrastada para o abismo do título.

Em torno dela, o filme constrói uma família e um ambiente de trabalho. Peter Franzén interpreta Tage Vibenius, Felicia Truedsson (também creditada como Felicia Maxime) vive Mika Vibenius e Edvin Ryding faz Simon Vibenius. Kardo Razzazi interpreta Dabir Ayobi, Angela Kovács faz Erika Svalin e Tintin Poggats Sarri vive Aila. A estrutura descrita na sinopse coloca a casa de Frigga e o trabalho dela dentro da mesma emergência, e é aí que o filme aposta seu drama.

O cinema-catástrofe sempre funcionou com dois motores: o espetáculo do evento e as histórias particulares das pessoas pegas no meio dele. Destruição Final: O Último Refúgio (Greenland, 2020), de Hollywood, construído em torno da fuga de uma família diante do impacto de um cometa, é um exemplo recente da fórmula. O Abismo, pela própria descrição, coloca o segundo motor no comando. O colapso é o evento, mas a história que o filme conta é a de uma mulher tentando manter a família unida enquanto exerce uma função cujo único propósito é impedir que desastres aconteçam. Essa escolha é o eixo em que as opiniões sobre o filme costumam se dividir.

Richard Holm, de Johan Falk à mina

Richard Holm, nascido em Estocolmo em 1967, chegou a O Abismo vindo do cinema policial e de ação sueco. Ele dirigiu vários filmes da série Johan Falk, entre eles Johan Falk: Leo Gaut, em 2009, e a trinca de 2015 formada por Ur askan i elden, Lockdown e Slutet, além de um dos longas da série policial ambientada em Fjällbacka (Fjällbackamorden). Na televisão, trabalhou em Gåsmamman, Heder e Maskineriet. Antes de assumir a direção, passou anos como assistente de direção em produções suecas, entre elas vários filmes de Beck.

Ele escreveu o roteiro com o filho, Robin Sherlock Holm, e com Nicola Sinclair. O produtor é Joakim Hansson, que criou o personagem Johan Falk com Anders Nilsson em 1998 e produziu filmes como Jägarna e Livvakterna. Anders Nilsson também aparece entre os montadores de O Abismo, ao lado do próprio Holm e de Thomas Lagerman. Em outras palavras, a equipe vem do núcleo de uma das franquias de ação mais duradouras da Suécia, aqui testando outro gênero numa tela maior.

Um elenco da Suécia e da Finlândia

Tuva Novotny é uma das atrizes suecas de sua geração com mais trânsito internacional. Ela despontou na novela Skilda världar no fim dos anos 1990, trabalhou na Dinamarca, na Noruega, no Reino Unido e em outros países, e tem carreira própria atrás das câmeras: dirigiu episódios das séries norueguesas Dag e Lilyhammer, estreou como diretora de longa-metragem com Blind Spot em 2018 e, em 2019, emendou Britt-Marie var här, adaptação do romance de Fredrik Backman.

Peter Franzén traz uma presença finlandesa que combina com a coprodução do filme. Nascido em 1971 e criado em Keminmaa, no norte da Finlândia, ele é mais conhecido internacionalmente como o rei Harald Finehair em Vikings e também participou de A Roda do Tempo (The Wheel of Time). Em seu país, ganhou um prêmio Jussi de melhor ator por Dog Nail Clipper e escreveu o romance semiautobiográfico Above Dark Waters.

Kardo Razzazi, nascido em Uppsala em 1985, é um rosto conhecido do cinema e da televisão suecos, de Border, de Ali Abbasi, às séries Heder, Alex e Top Dog, além de Rheingold, de Fatih Akin. Edvin Ryding ficou conhecido no mundo todo em 2021 como o príncipe Wilhelm em Young Royals, da Netflix, série da qual Felicia Truedsson também participou. A presença deles dá a O Abismo uma geração mais jovem de atores que já chega com uma audiência internacional de streaming.

Filmado em Kiruna e em Tampere

As filmagens aconteceram em 2022, na própria Kiruna e na Finlândia, onde as cenas subterrâneas foram rodadas na mina de testes da Sandvik em Tampere; outras cenas foram gravadas em Estocolmo, Bruxelas e Gran Canaria. Só a etapa finlandesa custou cerca de 1,5 milhão de euros. A SF Studios produziu o filme com Filmpool Nord, Film Tampere, Mjölk Movies, Business Finland e Seven Islands Film, com apoio adicional ligado à Gran Canaria Film Commission e ao incentivo fiscal espanhol.

Os créditos técnicos são nórdicos do começo ao fim. Anssi Leino é o diretor de fotografia, Lasse Enersen compôs a trilha sonora e Hilda Junker criou os figurinos. O reconhecimento mais visível ficou com os efeitos: na premiação Guldbagge de janeiro de 2024, os prêmios nacionais do cinema sueco, Nora Berecoechea e Stefan Rycken levaram o troféu de melhores efeitos visuais por O Abismo, à frente das equipes de Hammarskjöld e Konferensen.

Dos cinemas suecos para a Netflix

Na Finlândia, onde estreou uma semana depois da Suécia com o título Kiiruna, o filme vendeu pouco mais de 8 mil ingressos. A segunda vida veio na Netflix. Depois da estreia na plataforma em 16 de fevereiro de 2024, O Abismo alcançou um público muito maior do que nos cinemas, com cerca de 30 milhões de visualizações registradas nas duas primeiras semanas, um padrão que o cinema de gênero nórdico conhece bem: modesto na bilheteria, muito maior quando chega ao streaming.

Esse alcance também coloca o filme dentro de uma pequena tradição escandinava de linhagem bem clara. Os noruegueses The Wave (2015) e The Quake (2018) mostraram que uma produção nórdica podia encenar uma catástrofe nacional com efeitos convincentes sem tirar o foco de uma única família. O Abismo segue esse modelo, trocando o fiorde e o terremoto por uma mina e por uma cidade que, na vida real, já está sendo tirada do caminho.

Nossa opinião

No papel, O Abismo tem duas coisas que poucos filmes-catástrofe podem reivindicar: um cenário em que o perigo não é hipotético e uma produção que levou seus efeitos a sério o bastante para ganhar o prêmio nacional por eles. Seus limites estão escritos na mesma premissa. Ao escolher uma história familiar como moldura, o filme pede ao público que se importe com as tensões de uma casa justamente no momento em que o chão se abre, e se isso compensa ou não depende de quanta paciência o espectador tem para o drama entre as grandes sequências de ação.

Para quem tem curiosidade pelo cinema de gênero nórdico, pela história real de Kiruna ou por ver Tuva Novotny e Peter Franzén dividindo um filme, é um título curioso, com seus pontos fortes documentados exatamente onde um experimento sueco de grande orçamento gostaria de tê-los. Para quem procura filmes-catástrofe só pela escala, a própria sinopse já deixa claro de que lado da balança ele ficou.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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