Análise

A geração criada no palco agora caça quem finge e não consegue parar

Molly Se-kyung

Um rapaz entra no pátio do campus com um matcha na mão, uma tote de lona, um livro surrado de bell hooks debaixo do braço e Clairo vazando de um único fone com fio. Uma plateia se juntou para dar nota a ele. É um concurso de homem performático, e no último ano rolaram versões de San Francisco a Londres, com apresentadores e regras, inclusive uma organizada pela Cambridge Union que transformou a piada em instituição. A premissa é limpa e, é preciso dizer, engraçada. Os homens estão fingindo. Nós viemos pegá-los.

O riso é merecido, e quero concedê-lo antes de discuti-lo. Alguns desses rapazes estão encenando: pegam emprestado o mobiliário visível do feminismo para parecer inofensivos. Mas o concurso deixou de ser sobre eles faz tempo. O que ele ensaia, repetidas vezes, é a habilidade que esta cultura premia acima de quase todas: detectar uma falsificação. Visto por tempo suficiente, parece menos um veredito sobre homens ruins do que um plebiscito sobre a própria sinceridade, um acordo público de que todo gesto rumo a uma masculinidade mais suave deve ser tratado, por padrão, como golpe.

Isso importa muito além dos rapazes que recebem nota, porque o hábito viaja. Uma vez que você se treinou para ler a vida interior de alguém pelos seus objetos, e o livro é objeto, a bebida é objeto, a banda é objeto, você não desliga isso ao sair do pátio. Você aponta para os amigos, para os encontros, para os colegas, para si mesmo. Começa a diagramar a própria estante contra a desconfiança de uma plateia que não dá para ver. O concurso é coisa pequena. O reflexo que ele treina não é.

Vale ver o quanto a piada foi construída. “Performático” foi uma das palavras mais gastas de 2025; o Merriam-Webster chegou a registrar “performative male” como gíria. Os marcadores também não são inventados. São dados de consumo precisos: os bonecos Labubu da Pop Mart faturaram mais de 677 milhões de dólares só no primeiro semestre de 2025. O verdadeiro truque do formato é tornar o íntimo legível. Ele converte uma pessoa numa lista de conferência. bell hooks presente, matcha presente, Clairo presente, veredito dado.

A piada mais funda é que o mercado chegou primeiro. Cada sinal da lista está à venda, e vende muito. A tote de cara usada é produzida em série para parecer usada; o matcha é um ritual com etiqueta de preço; a cantora indie chega por um motor de recomendação ajustado para soar como uma descoberta pessoal. A mesma cultura que se reúne para zombar do homem performático é a que montou o kit inicial dele e fixou na página principal. Ele não é um defeito do sistema. É o cliente dele, fazendo exatamente o que foi projetado para fazer, e depois vaiado pela semelhança.

Uma lista não lê intenção, e a intenção é a questão inteira. O cínico e o sincero de dezenove anos carregam a mesma tote. Pedem a mesma bebida, põem a mesma cantora, seguram o mesmo livro no mesmo ângulo. O concurso trata os objetos como prova e o homem como réu, quando os objetos são a única coisa que todos na fila de fato compartilham. Não estamos pegando mentirosos. Estamos pegando uma tendência, e depois distribuindo culpa por estética.

E a palavra não ficou parada. “Performático” se descolou do homem e virou uma espécie de solvente, despejado sobre o ativismo, o luto, a consciência social, o patriotismo, até o preparo fotogênico do chá verde. Tudo que se faz sob o olhar alheio agora pode ser dissolvido pelo sufixo. É esse o movimento a notar. Assim que a sinceridade precisa provar que não está atuando, a sinceridade perde de saída, porque a prova é, ela mesma, uma atuação. A acusação não tem como ser refutada, o que é justamente o que a torna tão satisfatória e tão barata.

A versão mais forte do outro lado não é fraca, e merece a palavra. As mulheres que descrevem o homem performático costumam descrever uma manipulação que sobreviveram: o homem que cita o texto feminista que nunca abriu, que usa a sensibilidade como chave e não como valor, que aprendeu que a fantasia abre portas. No HuffPost, Syeda Khaula Saad percorreu exatamente isso e parou num lugar surpreendente. Entre um homem que folheia a contragosto as grandes obras feministas para a plateia e outro que nem se dá ao trabalho, ela ficaria, escreveu, “com o impostor toda vez”. A zombaria, lida assim, é uma defesa montada com experiência, e a mágoa por baixo é real.

Ela tem razão na mágoa, e tem razão, acho, no impostor. Fique com o impostor toda vez. Mas a detecção de falsificação em escala populacional não fica na defesa; endurece em pose, e a pose não distingue o manipulador do moleque que de fato experimenta um jeito mais gentil de viver. Você não pode passar uma década pedindo aos homens que leiam mais, escutem mais, carreguem menos da velha armadura, e depois receber a primeira tentativa desajeitada com uma ficha de notas. Uma cultura que faz isso não pede que os homens mudem. Pede que eles já tenham mudado, em silêncio, e que nunca sejam flagrados no ato de mudar.

Há aqui uma camada própria de quem organiza o concurso. É a primeira geração criada inteiramente diante de uma plateia permanente, fluente desde a infância na gramática do post, do ângulo, do eu editado. São os leitores de encenação mais sofisticados que o mundo já produziu, e é exatamente por isso que são os mais presos a ela. Quando você enxerga a direção de cena em tudo, a sinceridade passa a parecer a jogada mais suspeita do tabuleiro. O concurso é essa suspeita virada programa de auditório.

Repare em quem paga de verdade. O manipulador que o concurso diz desmascarar é a única pessoa em que ele não consegue tocar; ser desmascarado não lhe custa nada, porque ele só queria a reação. A conta cai sobre o outro, o rapaz que pegou o livro porque alguma parte dele queria ser diferente, e que agora precisa pesar esse desejo contra uma sala que já decidiu o que as mãos dele seguram. O cínico dá de ombros e pede outro. O sincero se cala. Todo regime de suspeita protege quem finge melhor e pune quem finge pior.

Um ensaio no The Conversation trazia um título que argumenta sozinho, “Deixem os homens performáticos em paz”, e sustentava que o gênero sempre foi atuação, e que a fome por um eu autêntico e sem palco é o defeito de fundo. Isso está quase certo, com uma correção. O perigo nunca foi atuar. Todos atuamos. O perigo é a convicção de que podemos auditar a atuação, de que o matcha é prova, de que a estante é confissão, de que a sinceridade deixa digitais que estaríamos habilitados a colher.

Então repare no que o concurso de fato treina. Não homens melhores. Vigilância melhor, vestida de bom gosto. A tote não é a confissão. A revista é. E a vítima mais silenciosa é o rapaz que talvez falasse sério, que pega o livro, ouve a plateia já rindo e conclui que a atuação mais segura, a única em que nunca vão pegá-lo, é não atuar em nada.

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