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Rami Malek, o ator que desaparece nos personagens e volta com o Oscar

Penelope H. Fritz

Quando The Man I Love foi exibido em Cannes, o público aplaudiu de pé por oito minutos. O diretor Ira Sachs estava em lágrimas. Rami Malek também — não pela ovação, mas pelo custo do papel: interpretar Jimmy George, um artista de performance do downtown nova-iorquino morrendo de uma doença associada à AIDS nos anos 1980, significava fazer o que ele sempre faz, construir um personagem de dentro para fora até que o exterior se torne o último detalhe que alguém percebe.

Rami Malek
Rami Malek Depositphotos

Seu pai Said e sua mãe Nelly deixaram o Cairo em 1978 e se instalaram em Torrance, Califórnia, onde Malek nasceu em 12 de maio de 1981, filho do meio dos três irmãos — uma irmã mais velha e um irmão gêmeo idêntico chamado Sami. Em casa falava-se árabe até ele ter quatro anos. Seus pais eram cristãos coptas, e o peso de uma família imigrante — a expectativa de algo conquistado, a ambivalência de uma identidade que não pertence completamente nem ao Egito nem aos Estados Unidos — acabou encontrando seu caminho em cada personagem que interpretou.

Ele descobriu a atuação no Notre Dame High School em Sherman Oaks, onde dividia uma turma de teatro musical com Kirsten Dunst. Estudou teatro na Universidade de Evansville, em Indiana, formou-se em 2003 e se mudou para Nova York para atuar em companhias emergentes. Seu primeiro crédito televisivo foi um pequeno papel em Gilmore Girls. Pela década seguinte trabalhou sem parar sem conseguir o salto definitivo — um papel recorrente na sitcom The War at Home, uma participação em 24, um papel coadjuvante na minissérie da HBO The Pacific, o papel recorrente do Faraó Ahkmenrah na franquia Uma Noite no Museu.

O salto não veio de um set de cinema mas de uma série a cabo iniciada em 2015. Em Sociedade Hacker, Malek interpretava Elliot Alderson, um engenheiro de cibersegurança com transtorno dissociativo de identidade envolvido num plano para destruir o sistema financeiro global. O papel exigia algo além da técnica: interpretar um personagem que não sabe quem é, transitando entre identidades sem que o público entenda sempre qual delas está falando. Ganhou o Emmy de melhor ator em série dramática em 2016.

O capítulo mais complicado veio em 2018. Bohemian Rhapsody, o filme biográfico sobre o Queen no qual Malek interpretou Freddie Mercury, tornou-se um fenômeno de bilheteria e ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor ator para Malek — tornando-o o primeiro intérprete de ascendência egípcia a receber o prêmio. Mas o filme foi amplamente criticado por seu retrato seguro e suavizado da vida de Mercury, e a produção havia sido turbulenta: o diretor Bryan Singer foi substituído no meio das filmagens por Dexter Fletcher. Os críticos que achavam o filme formulaico apontavam invariavelmente a mesma coisa: a atuação de Malek operava num registro diferente do filme que a continha. Ele havia estudado Mercury por meses, incorporando a gramática física de um homem que transformava vulnerabilidade em espetáculo, e entregou algo que ultrapassava o que o roteiro pedia. O Oscar premiou a atuação — sem considerar completamente que essa atuação tinha sobrevivido ao filme.

Após o Oscar, Malek escolheu papéis que não se explicam uns pelos outros. Interpretou o vilão Lyutsifer Safin em Sem Tempo para Morrer, o último filme de Daniel Craig como Bond — um personagem que fala baixo, mal se explica e usa bioarmas projetadas para matar alvos específicos pelo DNA. Apareceu em Os Pequenos Vestígios ao lado de Denzel Washington e Jared Leto. Em Oppenheimer, de Christopher Nolan, interpretou David Hill, um físico presente na audiência que revogou a autorização de segurança de Oppenheimer.

Seus dois projetos de 2025 ampliaram esse espectro. Em The Amateur, interpretou um criptógrafo da CIA que age fora do sistema para vingar o assassinato de sua esposa. Em Nuremberg, interpretou Douglas Kelley, o psiquiatra do Exército americano encarregado de entrevistar os acusados nazistas antes do julgamento. Então veio The Man I Love em Cannes, em maio de 2026 — oito minutos de ovação, 96% no Rotten Tomatoes.

A data de estreia comercial de The Man I Love ainda não foi anunciada. Mas o que Cannes deixou claro é que, mais de duas décadas após seu debut teatral em Nova York, Rami Malek construiu um espaço específico na atuação cinematográfica que ninguém mais ocupa: a performance que diz tudo ao se recusar a explicar nada.

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