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Noah Kahan: Out of Body na Netflix pergunta se a música que cura o público cura quem a criou

Alice Lange

Noah Kahan construiu uma carreira inteira — e depois um fenômeno global inesperado — sobre uma premissa: ser honesto sobre a própria dor é, em si mesmo, uma forma de superá-la. Você dá nome ao que te oprime. Transforma isso em canção. A canção vai ao mundo, chega em quem precisa dela — e nessa troca algo se solta. Out of Body, dirigido por Nick Sweeney e disponível agora na Netflix, questiona o que acontece quando essa premissa se revela muito mais complicada do que as músicas sugeriam.

Do Vermont para o mundo

O documentário começa depois do sucesso arrasador do álbum Stick Season, de 2022 — uma coleção de músicas sobre a melancolia do Vermont rural, sobre ficar quando todos os outros vão embora, sobre ver um shopping crescer onde antes havia um cruzamento familiar. Músicas com uma geografia específica que tocaram milhões de pessoas ao redor do mundo, especialmente no período pós-pandemia, quando muita gente entendia por dentro o que significa ser deixado para trás. Quando as filmagens começaram, Kahan ainda se apresentava em casas de shows médias. Depois, pisou no palco do Fenway Park.

Sweeney trabalhou com uma equipe pequena que incluía dois amigos de colégio de Kahan que se tornaram cineastas. Ele escolheu construir o filme quase inteiramente com material do presente: sem arquivo histórico, sem entrevistas retrospectivas, sem mitologia em torno da manhã em que tudo mudou. No lugar disso, uma família sentada junta assistindo a antigos vídeos caseiros. Uma cena que parece simples e é pesada de suportar: o passado convocado de volta ao presente, de forma desconfortável, enquanto a câmera acompanha o próprio ato de olhar.

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O que a música nunca disse por completo

O filme mostra o que a música de Kahan nunca alcançou completamente: ele fala diretamente — sem a proteção do processo criativo — sobre dismorfofobia e transtorno alimentar, algo que carrega há quinze anos. Pede desculpas aos pais por ter colocado a história da família nas suas letras. Senta com os pais divorciados e os irmãos para assistir aos vídeos de família — e a câmera não desvia o olhar.

Sweeney contou que esperou repetidas vezes que Kahan estabelecesse limites para o que poderia ser filmado — e que isso nunca aconteceu. O resultado é um material que opera em um registro completamente diferente da maioria dos documentários musicais. Tem uma cena nos bastidores em que Kahan canta para uma adolescente que faz tratamento contra leucemia. O nome dela — Zuza Beine — aparece mais tarde nos créditos finais sob a frase “In Loving Memory Of.” O filme não comenta esse momento. Simplesmente o deixa existir. É o gesto mais honesto do documentário — e o mais desestabilizador.

A indústria pela sua ausência

A indústria musical está presente no filme exatamente pela sua ausência. Nenhum diretor de gravadora, nenhum empresário diante da câmera, nenhuma infraestrutura de negócios tornada visível. No lugar deles, aparece Kahan checando as redes sociais depois de cada show, monitorando as reações do público em tempo real. O mecanismo de avaliação externa está tão profundamente internalizado que o próprio aparato quase não precisa mais aparecer.

É o retrato do que a era do streaming produziu: um artista para quem o loop de feedback nunca se fecha, cujo ciclo de álbum nunca termina de verdade, que vive em exposição contínua sem nenhuma pausa estrutural. A ansiedade de Kahan diante do sucessor de Stick Season não é o clássico medo do segundo álbum. É a confusão de alguém que tenta encontrar novo material íntimo enquanto o material íntimo antigo ainda é consumido por milhões de pessoas que sentem, com toda razão, que ele pertence a elas.

A distância entre dois álbuns

O momento escolhido para Out of Body carrega um argumento que o próprio filme nunca formula diretamente. O documentário foi gravado em 2024, durante a turnê We’ll All Be Here Forever, e estreia em abril de 2026 — o mesmo mês do novo álbum de Kahan, The Great Divide. O capítulo aberto por Stick Season está agora formalmente encerrado. Mas o que essa distância revela, em retrospecto, é que a música que ajudou pessoas a atravessar uma desorientação coletiva foi criada por um homem que ao mesmo tempo navegava por uma desorientação privada — e que nunca parou completamente de fazer isso. O mundo seguiu em frente. As músicas ficaram dentro dele.

Noah Kahan: Out of Body
Noah Kahan: Out of Body. Noah Kahan in [Noah Kahan: Out of Body. Cr. Courtesy of Netflix © 2026

A pergunta sem resposta

Essa é a pergunta que Out of Body faz e se recusa a responder: quando você passou a vida criativa inteira transformando dor privada em arte pública, e essa arte funcionou — chegou de verdade nas pessoas, ajudou elas — o que você faz com a dor que sobra?

O filme mostra Kahan tendo as conversas de família que suas músicas haviam substituído durante anos. Ele pede perdão. Assiste a vídeos caseiros e chama isso de catártico. O documentário termina no estúdio de gravação, com Kahan registrando a voz de The Great Divide — a faixa que se tornaria o seu primeiro número um no Billboard. É uma imagem voltada para o futuro, que sugere renovação e continuidade.

Mas a verdadeira pergunta final que o filme deixa em aberto não é se ele fez um grande álbum. É se o próprio processo de fazer Out of Body — acrescentar mais uma camada de exposição documental ao peso já pesado da autodivulgação lírica, transformar até o ato de confrontar a dor em novo material — fechou alguma coisa, ou apenas abriu uma versão mais consciente do mesmo ciclo.

É isso que a música não consegue curar. E o filme deixa essa pergunta em aberto — como deve ser. Porque não é uma pergunta que imagens conseguem responder.

Noah Kahan: Out of Body está disponível na Netflix a partir do dia 13 de abril. O álbum The Great Divide chega às plataformas no dia 24 de abril.

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