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A Greve da Seleção da França — o documentário Netflix sobre o que ninguém explicou em 2010

Veronica Loop

Há imagens mais fáceis de lembrar do que de explicar. O ônibus fechado em um campo de treinos de Knysna, uma geração de jogadores da seleção se recusando a descer, um técnico lendo em voz alta o comunicado de seus jogadores pela janela, é uma delas. Quinze anos depois, as pessoas que estavam dentro, ao redor e acima daquele ônibus tomam a palavra, e a versão que descrevem não é a versão que a França julgou na época.

O documentário de Christophe Astruc dedica pouco tempo de tela ao ônibus em si. Volta, em vez disso, aos meses e às reuniões que antecederam aquela manhã: uma federação que havia parado de ouvir o vestiário, uma comissão técnica trabalhando sem cobertura política, uma faixa de capitão redistribuída três vezes em dois anos, um discurso público sobre os jogadores recrutados nas banlieues francesas formulado em termos racializados por autoridades eleitas e por parte da imprensa, e uma concentração cuja vida interna havia se separado da imagem pública semanas antes de o grupo chegar à África do Sul. A greve é o instante em que todas essas falhas se tornaram simultaneamente visíveis de fora. A tese do filme, quinze anos depois, é que cada elo da cadeia de comando tinha informação para impedir aquela manhã e nenhum a usou.

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Astruc constrói o filme em torno das contradições dos próprios protagonistas, não em torno das imagens de arquivo da Copa. Raymond Domenech narra sua versão do confronto em Polokwane com Nicolas Anelka, no intervalo da partida contra o México, sem suavizar o que disse na época. Patrice Evra, que como capitão leu o comunicado dos jogadores à imprensa, descreve o gesto como o ato de um homem encurralado entre duas recusas: a da comissão a recuar da decisão sobre Anelka depois que ela vazou nos jornais, e a do público a ler a disputa do vestiário como qualquer coisa diferente de um motim. William Gallas e Bacary Sagna, o bloco defensivo veterano cujo silêncio em 2010 foi lido como cumplicidade, nomeiam o que sabiam do clima político em torno do grupo e o que escolheram não dizer. Sylvain Wiltord, aluno da geração 1998, sustenta o arco temporal mais longo do filme: a lenta corrosão do pacto entre seleção e país selado naquele verão. Astruc não intervém com repergunta; a montagem confia nos vácuos entre as falas, e os vácuos são largos.

O filme inscreve a greve em uma discussão francesa mais ampla, aberta com a vitória na Copa de 1998 e com o quadro Black-Blanc-Beur em que o país celebrou aquele título. Em 2010, esse quadro havia se esvaziado. A relação da França com seus astros recrutados nas periferias urbanas havia endurecido em uma suspeita pública que atravessava discursos políticos e editoriais da imprensa, e a cultura interna da federação não havia feito nenhum ajuste que respondesse à maneira como aqueles jogadores eram nomeados fora do campo. A resposta política a Knysna correu da audiência parlamentar de agosto de 2010 à intervenção do Comitê Nacional de Ética e ao próprio tribunal federativo de novembro de 2010, que suspendeu cinco jogadores — Evra, Anelka, Ribéry, Toulalan, Diaby — e consolidou o veredito público de motim.

O que o documentário não diz, e não precisa dizer diante de um público de 2026, é que a greve de Knysna foi a primeira de uma série de crises que a mesma federação não conseguiu resolver. O exílio de Karim Benzema da seleção entre 2015 e 2022 reproduziu a postura institucional de 2010. O caso de extorsão contra a família Pogba em 2022 obrigou um debate sobre a proteção dos jogadores que o pacto de 1998 tratava como automática. A presidência de Noël Le Graët desabou em 2023 sobre comportamentos que a federação conhecia havia anos. Cada um desses episódios fez, em vocabulário diferente, a mesma pergunta da greve: quem está na sala quando os jogadores falam.

A decisão de filmar tudo isso como um único longa-metragem em vez de série episódica já é o argumento estrutural do filme. O formato seriado ao qual o público se acostumou com Drive to Survive e com a própria produção anterior da Netflix sobre futebol francês reparte a leitura institucional entre capítulos e concede a cada testemunho seu intervalo de suspense. Astruc, trabalhando dentro da plataforma mas recusando essa forma, comprime quinze anos de depoimento em uma sessão contínua. A federação não recebe seu episódio. A comissão não recebe seu episódio. O elenco não recebe seu episódio. A greve, diz o filme, não foi uma sucessão de falhas separáveis encadeadas; foi uma falha simultânea de uma cultura institucional, e a forma é o que sustenta essa afirmação.

The Bus: A French Football Mutiny - Netflix
The Bus: A French Football Mutiny – Netflix

O que a audiência parlamentar de agosto de 2010, o tribunal federativo de novembro, a suspensão de Domenech, as lágrimas de Roselyne Bachelot no vestiário e quinze anos de comentário editorial nunca conseguiram resolver é se as instituições do futebol francês foram, em algum momento, capazes de falar com franqueza à geração que recrutaram, treinaram e enviaram para representar o país. O ônibus está estacionado sobre essa pergunta há quinze anos. O filme o deixa estacionado ali. A convocação para a Copa de 2026 será fechada dentro da mesma cultura institucional que o documentário pede ao país para olhar.

A Greve da Seleção da França chega à Netflix em 13 de maio de 2026, três semanas antes da abertura da Copa do Mundo da FIFA 2026. Dirigido por Christophe Astruc, o documentário de uma hora e dezenove minutos reúne Raymond Domenech, Patrice Evra, William Gallas, Bacary Sagna e Sylvain Wiltord entre os depoentes em câmera, ao lado de dirigentes da federação e figuras políticas do ciclo de investigação pós-Knysna. Título de mercado francês: Le Bus : Les Bleus en grève.

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