Análise

Medicalização: o DSM parou de crescer há décadas, os diagnósticos não

Molly Se-kyung
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Medicalização é o processo pelo qual partes comuns da vida, como o luto, a inquietação, a timidez ou o envelhecimento, passam a ser definidas e tratadas como problemas médicos. A palavra soa como acusação, e foi usada assim durante meio século. Quase sempre a história é contada pelo manual de diagnósticos da psiquiatria, o DSM, que saiu de um livreto fino e virou um calhamaço do tamanho de uma lista telefônica.

Essa história é verdadeira, mas para cedo demais. A lista de transtornos do manual parou de crescer faz muito tempo. O que continuou se expandindo foram os limites de corte, as definições e a disposição das pessoas de buscar um rótulo. A briga sobre o que é normal saiu do sumário e foi parar nos pontos de corte, e é ali que hoje se decide quem está doente.

Quem nunca abriu um manual de diagnósticos também tem algo em jogo. Um diagnóstico faz mais do que descrever: decide quem recebe tratamento, quem ganha apoio na escola ou cobertura do plano de saúde, e como cada um explica a própria vida para si mesmo. Errar a linha custa caro. Apertada demais, deixa sofrimento sem tratamento; frouxa demais, transforma o mal-estar do dia a dia numa condição para administrar pelo resto da vida.

A palavra nasceu na sociologia, não no consultório

O termo pertencia à sociologia antes de a medicina adotá-lo. Em 1972, o sociólogo médico Irving Zola descreveu a medicalização como “tornar a medicina e os rótulos ‘saudável’ e ‘doente’ relevantes para uma parte cada vez maior da existência humana”. Para ele, a medicina funcionava como instituição de controle social, um corpo que decide o que conta como desvio.

O sociólogo Peter Conrad, que virou o principal nome do conceito, deixou a definição usada até hoje: “um processo pelo qual problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos, geralmente em termos de doenças e transtornos”. Seu primeiro estudo de caso, publicado em 1973, foi a hipercinesia infantil. Mais tarde, a mesma condição ganhou outro nome: TDAH.

O auge da polêmica veio em 1975, com Medical Nemesis, do pensador Ivan Illich. O livro abre com uma frase seca: “O establishment médico tornou-se uma grande ameaça à saúde”. Illich chamou esse dano de iatrogenia e o levou da clínica para a cultura. Uma sociedade que entrega a dor, a velhice e a morte aos profissionais, escreveu, perde os próprios meios de suportá-las.

O DSM cresceu até o fim dos anos 1980 e travou

Os números vêm do próprio manual. Segundo uma história da classificação psiquiátrica publicada pelos pesquisadores Alina Surís, Ryan Holliday e Carol North na revista Behavioral Sciences, o primeiro DSM, de 1952, trazia 106 diagnósticos em 130 páginas. A terceira edição, de 1980, que reorganizou a psiquiatria em torno de listas de sintomas, saltou para 265.

Depois disso, a curva achatou. Foram 292 diagnósticos na terceira edição revisada, de 1987, 297 no DSM-IV, de 1994, e 298 no DSM-5, de 2013. Esse último, mesmo com praticamente a mesma lista, chegou a 992 páginas.

O caminho também teve marcha a ré. A homossexualidade saiu das reimpressões da segunda edição a partir de 1973, trocada primeiro por “perturbação da orientação sexual” e eliminada de vez em 1987. Isso é desmedicalização, e faz parte da mesma história. O manual sempre registrou julgamento social tanto quanto biologia.

A imagem popular de um manual que engole um pedaço novo da vida normal a cada edição está uns trinta anos atrasada. Desde o fim dos anos 1980, a contagem quase não mexeu. As taxas de diagnóstico continuaram subindo mesmo assim. A expansão achou outras portas.

Três portas que levam do normal ao diagnóstico

A primeira porta é o ponto de corte. A condição continua na lista, mas a linha que a define se desloca. A cardiologia dá o exemplo mais limpo, porque pressão arterial é número. Em 2017, o American College of Cardiology e a American Heart Association baixaram o limite da hipertensão para 130 por 80.

Uma equipe liderada por Paul Muntner calculou no Journal of the American College of Cardiology que a fatia de adultos americanos com hipertensão subiria de cerca de 32% pela definição antiga para cerca de 46%. Ninguém inventou doença nova. Milhões de pessoas cruzaram uma linha que andou na direção delas.

A segunda porta é a definição que se alarga, e o luto é o exemplo mais disputado da psiquiatria. O DSM-5 derrubou a chamada exclusão por luto, que impedia o diagnóstico de depressão maior em quem tinha acabado de perder alguém. O psiquiatra Allen Frances, que presidiu a força-tarefa do DSM-IV, colocou a mudança entre as piores da nova edição.

Frances fez do luto uma peça central de Saving Normal, seu ataque de dentro contra o DSM-5, a indústria farmacêutica e o que o subtítulo chama de “a medicalização da vida comum”. Em 2022, a revisão do texto, o DSM-5-TR, incluiu o transtorno de luto prolongado. Veio com uma trava, escrita em resposta às críticas do público: em adultos, é preciso esperar pelo menos doze meses após a morte para fazer o diagnóstico.

A terceira porta é a conscientização. Num artigo de 2023 na New Ideas in Psychology, os psicólogos Lucy Foulkes e Jack Andrews apresentaram o que chamam de hipótese da inflação da prevalência. Campanhas de conscientização, argumentam, podem elevar as taxas relatadas por dois caminhos ao mesmo tempo: ajudam a reconhecer problemas reais que passavam batido e levam algumas pessoas a ler o sofrimento comum como doença. Depois disso, o rótulo pode moldar a experiência que nomeia.

Os autores deixam claro que é uma ideia a ser testada, não uma prova. Por baixo das três portas corre um interesse comercial. Em Selling Sickness, de 2005, o jornalista Ray Moynihan e o pesquisador Alan Cassels examinaram dez condições comuns cujas definições foram ampliadas de um jeito que aumentou o mercado de tratamentos, e popularizaram para essa prática o termo “disease mongering”, a fabricação de doenças.

O outro lado: mais diagnóstico é menos gente invisível

O argumento contrário merece espaço próprio, porque não é só da indústria farmacêutica: clínicos sérios o defendem. Segundo essa visão, a alta nos diagnósticos reflete sobretudo condições que sempre existiram e não tinham nome. Autismo em meninas, TDAH em adultos e depressão em homens passaram despercebidos por décadas porque os critérios foram montados sobre estereótipos estreitos.

Muitas vezes, o rótulo é a única porta para conseguir apoio na escola, no trabalho ou no sistema de saúde. Chamar isso de medicalização pode soar como dizer a alguém que o próprio sofrimento não é real.

Alguns psiquiatras vão além e dizem que o manual é tímido demais. Na Psychiatric Times, em março de 2026, o psiquiatra Awais Aftab, da Case Western Reserve University, chamou os critérios do DSM de “bastante conservadores” e escreveu que “vastas áreas da psicopatologia simplesmente não têm nome”.

Os críticos da tese do excesso de diagnóstico também miram nos exemplos mais frágeis dela. Na BJGP Life, a médica de família Elke Hausmann criticou a neurologista Suzanne O’Sullivan por tratar a Covid longa como algo em grande parte psicossomático no livro The Age of Diagnosis e, na leitura de Hausmann, por escolher a dedo os estudos que confirmavam sua tese. Numa resenha do mesmo livro para a Women in Neuroscience UK, Ciara Lee escreveu que “O’Sullivan apresenta o sobrediagnóstico do autismo como fato, apesar de ser um tema contestado e amplamente debatido”.

Os dois lados descrevem a mesma máquina

A leitura da MCM é que cada campo enxerga uma ponta da mesma engrenagem. Subdiagnóstico e sobrediagnóstico podem crescer juntos, porque atingem pessoas diferentes. A menina cujo autismo ninguém viu e o viúvo que sai do consultório com um antidepressivo poucas semanas depois do enterro não são histórias que competem entre si. São o que um sistema de diagnóstico produz quando fixa seus pontos de corte sem dizer para quê.

Essa é a parte útil da crítica de Aftab, e ela vale para os dois lados. “Os limiares do DSM não parecem otimizar claramente nada”, escreveu. “Alguns limiares parecem semiarbitrários por concepção.” Um ponto de corte que nunca foi escolhido para alcançar algum resultado não tem como se defender de nenhuma das duas acusações: a de deixar gente de fora ou a de puxar gente demais para dentro.

O’Sullivan, neurologista britânica, afia a outra metade do problema. O livro dela separa a sobredetecção, que encontra a doença antes de qualquer tratamento poder ajudar, da ampliação das definições de doença, que ela culpa por boa parte da alta recente nos diagnósticos de TDAH e autismo. Na resenha que escreveu para a Undark, a jornalista Lola Butcher resumiu a acusação central: pacientes que recebem diagnósticos “tecnicamente corretos, mas que não necessariamente os beneficiam”.

Os números citados impressionam. Os diagnósticos de TDAH entre crianças americanas passaram de menos de 6% para quase 10% em duas décadas, e as estimativas de autismo nos Estados Unidos foram de uma em cada 150 crianças em 2000 para uma em cada 31 em 2022. Nenhum desses números, sozinho, responde se os casos novos são reconhecimento ou inflação. O sistema do jeito que está nunca foi desenhado para responder isso.

O próximo DSM quer apagar a própria fronteira

O debate agora tem um marco concreto. Em janeiro de 2026, a American Psychiatric Association (APA) publicou um roteiro para o futuro do manual, preparado por um comitê estratégico presidido por Maria Oquendo, chefe de psiquiatria da Universidade da Pensilvânia. A proposta muda até o nome do livro, que passaria a se chamar Diagnostic and Scientific Manual, ou manual diagnóstico e científico.

A avaliação seria organizada em quatro partes: fatores de contexto, como as condições sociais e econômicas; marcadores biológicos, da genética aos dispositivos vestíveis; diagnósticos com graus variados de especificidade e gravidade; e características transdiagnósticas, que atravessam várias condições. O objetivo declarado é “avançar o rigor científico, a inclusão cultural e a adaptabilidade, e ao mesmo tempo assegurar que o DSM continue útil para os clínicos”.

Medir o sofrimento em dimensões muda os termos da discussão sobre medicalização. Se os sintomas ficam num contínuo, e não em caixinhas de sim ou não, deixa de existir uma fronteira única entre o normal e o patológico. Sobra uma escala e uma decisão sobre onde começa o tratamento. Isso pode encerrar a guerra das categorias. Também pode deixar os pontos de corte ainda mais escondidos do que hoje, e é justamente neles que a expansão aconteceu desde que a lista parou de crescer.

O que está comprovado e o que ainda divide especialistas

A parte documentada é sólida. O número de diagnósticos do DSM foi multiplicado por dois e meio entre a primeira e a terceira edição e quase não mudou desde o fim dos anos 1980. A homossexualidade saiu do manual. A exclusão por luto caiu no DSM-5, e o transtorno de luto prolongado entrou no DSM-5-TR.

A diretriz americana de pressão arterial de 2017 colocou, no papel, cerca de um em cada sete adultos do país na categoria de hipertensos. E a APA já desenha um manual construído em parte sobre dimensões.

A parte em disputa é igualmente clara. Ninguém resolveu se o aumento dos casos de autismo, TDAH, ansiedade e depressão é principalmente reconhecimento ou inflação. Se as campanhas de conscientização ajudam ou alimentam o problema continua sendo, nos próprios termos de Foulkes e Andrews, uma hipótese a testar. E se um manual por dimensões vai deixar os pontos de corte mais honestos ou mais difíceis de enxergar depende de escolhas que a APA ainda não fez.

O veredito da MCM: a pergunta útil já não é se a medicina colonizou a vida normal, uma acusação que combinava com um manual que dobrava de tamanho e combina bem menos com um que está parado há décadas. A pergunta é quem define cada ponto de corte, para que ele serve e se alguém confere se as pessoas capturadas por ele terminam melhor. Enquanto o próximo manual não responder isso por escrito, o normal vai continuar sendo definido nas letras miúdas.

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