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Na Palma da Mão tem ideia afiada, mas entrega um thriller previsível

A estreia de Kim Tae-joon (2023) refilma um sucesso japonês, com Yim Si-wan em destaque.
Martha O'Hara
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Tudo começa com um gesto banal: Na-mi (Chun Woo-hee) esquece o celular no ônibus, e quem o recolhe é Oh Jun-yeong (Yim Si-wan). A partir daí, “Na Palma da Mão” faz do aparelho perdido uma arma. Kim Tae-joon, em sua estreia na direção, parte de uma premissa que qualquer espectador reconhece na hora: um homem perigoso que usa o telefone de uma mulher para acompanhar cada passo dela. O filme chegou à Netflix em 17 de fevereiro de 2023 e é um thriller psicológico bem armado, que quase nunca sai dos trilhos do gênero.

O trecho mais eficaz é o da loja de conserto. Jun-yeong combina a devolução do telefone por meio de um aplicativo que disfarça a voz e, no balcão, mascarado, troca a tela quebrada, pede a senha a Na-mi e instala um programa espião que clona o aparelho. Nada ali é espetacular. O que incomoda é a calma do sujeito, e o filme deixa claro que ele já fez isso antes, com outras vítimas. Com o que extrai do telefone, passa a armar encontros “ao acaso” com Na-mi e vira amigo dela. Ela não imagina que o rapaz simpático já sabia tudo a seu respeito antes de se apresentar.

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É o que o filme tem de mais atual: quase todo mundo já entregou a senha do celular a um desconhecido por pressa ou por educação.

O roteiro então vai fechando o cerco em etapas bem visíveis. Seung-woo (Park Ho-san), o pai de Na-mi, desconfia de Jun-yeong, e por isso é mantido prisioneiro, sem poder proteger a filha. Jun-yeong usa as redes sociais dela para vazar informações do trabalho e falar mal da empresa, e ela acaba demitida. Quando Na-mi e a melhor amiga, Eun-joo (Kim Ye-won), tentam pedir ajuda a um amigo especialista em segurança digital, Jun-yeong intercepta a mensagem e se apresenta no lugar dele. Depois convence Na-mi de que Eun-joo está por trás de tudo, e as duas brigam. O isolamento é o ponto mais cruel do filme e funciona justamente porque é construído com coisas pequenas e plausíveis. Mesmo assim, a facilidade com que Na-mi engole cada mentira cobra seu preço: em alguns momentos, a tensão cede à impaciência do espectador.

Chun Woo-hee carrega o filme nas costas. Sua Na-mi é vulnerável sem ser frágil, e o cansaço de quem perde o emprego, a amiga e a própria imagem pública aparece no rosto dela mais do que nos diálogos. Yim Si-wan tem a tarefa mais ingrata. Jun-yeong precisa ser simpático o bastante para conquistar a confiança dela e ameaçador o bastante para sustentar a trama, e o ator ora acerta o tom, ora escorrega para o caricato. Falta uma zona de ambiguidade que tornaria o personagem mais perturbador.

O outro núcleo da história acompanha o detetive Woo Ji-man (Kim Hie-won), que investiga um assassinato numa montanha isolada e segue pistas que levam a Jun-yeong, ao lado do parceiro Kim Jeong-ho (Jeon Jin-oh). Os atores são sólidos, e Ryu Sung-hyun, como o chefe de detetives, completa o quadro, mas o filme lhes dá pouco espaço. A investigação corre em paralelo e só se encontra com a história de Na-mi quando o roteiro precisa. O momento em que os dois policiais veem Jun-yeong se aproximar do prédio dela, não o reconhecem e o deixam ir embora é conveniente demais para um filme que se vende como jogo de gato e rato. Também pesa o fato de Ji-man não contar a Na-mi com quem ela está lidando quando a armadilha é montada.

O clímax, na casa do pai de Na-mi, é a parte mais tensa. Jun-yeong a encurrala e a obriga a um ato terrível contra Seung-woo, e a sequência funciona porque o filme sustenta o desconforto até o fim. A revelação sobre a verdadeira identidade de Jun-yeong, porém, parece acrescentada para dar uma última volta no parafuso: ele roubou a identidade do filho de Ji-man, que foi sua primeira vítima. O desfecho arruma tudo depressa demais: Na-mi volta à rotina, faz as pazes com Eun-joo e recupera a reputação nas redes em pouquíssimas cenas. Depois de tanta perda, pedia-se mais peso.

Kim Tae-joon dirige com mão firme e mantém o ritmo sem tropeços. Falta-lhe originalidade. “Na Palma da Mão” é um remake do filme japonês “Stolen Identity” (2018), e a estrutura de vítima ingênua, vilão metódico e cerco que se aperta mostra essa herança. Não há nada errado com a fórmula, mas ela deixa pouca margem para surpresa.

Vê-se sem tédio e esquece-se logo. Um vilão mais difícil de decifrar e um final que cobrasse algum preço de Na-mi teriam dado ao filme o que falta depois dos créditos.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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