Filmes

Socorro! no Disney+: ser preterida no trabalho vira premissa de horror

Liv Altman

Linda Liddle é estrategista financeira em uma grande gestora de ativos. Há anos faz o trabalho, mantém as planilhas em ordem e espera uma promoção que o presidente da empresa lhe prometeu pessoalmente, antes de se aposentar. O filho dele assume o cargo, dá a vaga a um ex-colega de fraternidade universitária que joga golfe — e o avião cai.

O escritório que sobreviveu ao acidente

A premissa de sobrevivência em ilha deserta é um dos gêneros mais antigos do cinema, e as comparações que a maior parte da crítica anglo-saxônica usou eram previsíveis: Náufrago, O Senhor das Moscas, até A Guerra dos Roses. Mas a filiação real do novo filme de Sam Raimi corre por outra linha — a do horror corporativo que se firmou como gênero nos últimos cinco anos: Ruptura, O Menu, Triângulo da Tristeza, Industry. Socorro! entra nessa conversa com um argumento mais afiado do que o de qualquer um deles.

A ilha deserta não é o assunto do filme. O escritório é. O acidente aéreo não é um começo: é um apagamento. Ele tira as regras que mantinham a hierarquia civilizada — e o que sobra não é em quem Linda e Bradley se transformam, mas quem eles já eram dentro da sala de reunião.

YouTube video

A escolha estrutural que sustenta o argumento é que Socorro! nunca deixa seus personagens trocarem de registro. Depois da queda, Linda e Bradley continuam falando no dialeto do escritório aberto: Bradley dá ordens na linguagem de um CEO se dirigindo a uma subordinada com problema de desempenho, e Linda responde com os condicionais cuidadosos de uma estrategista que tenta não soar insubordinada enquanto deixa claro que está certa.

A direção de fotografia de Bill Pope rima os planos fechados de escritório com os planos fechados de praia pela mesma proximidade agressiva, e nega ao espectador o plano amplo de respiro que filmes de sobrevivência costumam oferecer. O argumento escondido do filme é montado como uma decisão de roteiro que o público não registra conscientemente: o escritório não parou de existir quando o avião caiu. A selva só tirou a etiqueta que mantinha a hierarquia tolerável.

A volta de Raimi

Sam Raimi não dirigia um filme de terror havia dezessete anos. A assinatura volta na hora. A trilha sonora de Danny Elfman, na oitava colaboração com Raimi, se apoia num registro de seriado de aventura dos anos 1940 — quase clássico — antes de empurrar o público sem aviso para algo mais desagradável. Vários ouvintes identificaram nos temas associados a Linda ecos audíveis dos motivos giallo à la Morricone, autocitação transgenérica que a posiciona musicalmente entre heroína e final girl já no primeiro plano.

Rachel McAdams modula dentro do mesmo plano entre desajeitamento social, vulnerabilidade, charme e uma lucidez quase predatória. Dylan O’Brien interpreta Bradley com a presunção controlada de um homem que não só leu o manual de RH, como o escreveu. O javali que persegue Linda pela selva, enquadrado em ponto de vista deliberado, é uma citação direta dos Deadites da franquia Evil Dead — e funciona ao mesmo tempo como ameaça real, não como brincadeira decorativa. No escritório de Bradley está pendurado um retrato pintado de Bruce Campbell no papel mudo do pai morto, ex-CEO da empresa.

Um novo gênero: o horror corporativo

O filme chega num momento em que o pacto implícito entre lealdade corporativa e reconhecimento corporativo se rompeu em silêncio na maioria dos setores. A queixa de Linda — ter sido preterida por um colega de fraternidade menos qualificado, na frente do filho do homem que lhe prometera o cargo — é reconhecível de um jeito que a polidez profissional foi construída exatamente para silenciar. O medo que Socorro! nomeia é o da visibilidade: o mérito sobrescrito pelo capital social diante de todo mundo, e a erosão lenta da suposição de que trabalhar direito acaba sendo recompensado.

O trailer prometia survival horror de Raimi com dois protagonistas numa ilha, comédia ácida, atuações grandes. O filme entrega uma sátira corporativa com execução em modo terror. Os 93% no Rotten Tomatoes são o indicador de que público e crítica perceberam esse contrato invertido — e o premiaram.

E agora?

O que Socorro! se recusa a responder é o que acontece depois do resgate. Linda e Bradley se viram um ao outro sem organograma. Sabem o que cada um vira quando não há nada a perder e ninguém para representar — e o filme deixa em aberto se alguém consegue voltar à reunião depois de ver o que a reunião sempre escondeu.

O sistema que produziu o filme também se expõe. A 20th Century Studios, sob a Disney, ainda pode apostar num thriller adulto de Raimi para um lançamento de cinema em janeiro — e a aposta deu certo: quase cem milhões de dólares de bilheteria mundial contra um orçamento de quarenta. O reencontro entre Raimi e Elfman, depois da ruptura pública durante Homem-Aranha 2, é o detalhe mais discreto e mais notável da produção.

Send Help

Rachel McAdams and Dylan O’Brien in Send Help (2026)

Socorro! é dirigido por Sam Raimi a partir de roteiro de Damian Shannon e Mark Swift, com trilha de Danny Elfman e fotografia de Bill Pope. Elenco: Rachel McAdams como Linda Liddle, Dylan O’Brien como Bradley Preston, Dennis Haysbert, Xavier Samuel, Chris Pang, Edyll Ismail, Thaneth Warakulnukroh e Emma Raimi. Duração: 1h54. Distribuição: 20th Century Studios.

O filme estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 30 de janeiro de 2026. A partir de 7 de maio de 2026, Socorro! está disponível com exclusividade no Disney+ no Brasil e nos demais mercados internacionais, incluindo Reino Unido, Canadá, União Europeia, América Latina, Ásia e Austrália.

Discussão

Há 0 comentários.