Música

Tanxugueiras apostam no galego como língua do pop em ‘O Cuarto’

Quarto disco do trio galego, gravado inteiramente em galego: o pop como ferramenta de normalização linguística, não como exceção folclórica.
Alice Lange

Tanxugueiras lançaram ‘O Cuarto’, um álbum de onze faixas que afina a aposta do trio em fazer pop contemporâneo em galego sem tratar a língua como adorno regional. O título é literal — em galego, ‘o cuarto’ significa ‘o quarto’ — e marca de forma direta o lugar que o disco ocupa na carreira de Aida Tarrío, Sabela Maneiro e Olaia Maneiro.

A importância do álbum não está na novidade estilística, mas na persistência. Cada novo trabalho do grupo empurra um pouco mais a ideia de que cantar em galego com pandeireta é um projeto patrimonial, separado do circuito comercial. A premissa vai perdendo força: Tanxugueiras tocam em festivais grandes e em programas de TV aberta, e a decisão de seguir gravando inteiramente em galego virou, quase sem querer, uma declaração política discreta.

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Para o ouvinte brasileiro, a aposta tem uma camada extra. O galego e o português são línguas irmãs com origem comum no galego-português medieval, e o disco soa, em vários momentos, mais próximo do português falado no Norte do que de qualquer estereótipo do espanhol peninsular. Ouvir ‘O Cuarto’ não exige tradução: exige só prestar atenção à fronteira porosa entre as duas línguas.

Musicalmente, o trio nasceu numa tradição específica da cultura rural galega — o canto feminino a várias vozes acompanhado de pandeireta — e essa base segue audível. Mas há anos a sonoridade do grupo vem se hibridizando com produção eletrônica, percussão programada e arranjos mais próximos do synth-pop nórdico do que do folk etnográfico. O equilíbrio entre o ancestral e o sequenciado é a assinatura do grupo e o que impede que sejam encaixadas numa única gaveta: nem ‘música folk’ nem ‘pop com raiz’.

Vale dimensionar o alcance. Tanxugueiras lotam teatros, ocupam capas e entram em line-ups de festivais grandes na Espanha, mas seguem sendo um grupo de nicho diante do pop em espanhol ou inglês. Os números de streaming internacionais são modestos comparados aos de artistas espanhóis que cruzaram para o pop global, e o alcance fora dos mercados ibéricos depende muito do público de world music. ‘O Cuarto’ não resolve esse teto — empilha mais material contra ele.

Também não há leitura única sobre o giro estilístico. Parte do público que descobriu o grupo em formato tradicional reclamou, nos discos anteriores, de que os arranjos eletrônicos diluem a força da pandeireta e dos coros a cappella. A crítica não é boba: produzir o folk com texturas de sintetizador e compressão radiofônica aproxima o trabalho do pop, sim, mas também aplaina os relevos mais bruscos do repertório original. A pergunta em aberto é se essa fronteira entre tradição e mercado é um custo editorial razoável ou uma perda que o catálogo vai acabar pagando.

O contexto, ainda assim, joga a favor. A música cantada em línguas cooficiais da Espanha vive um momento incomum de visibilidade — do catalão de Rosalía à retomada do euskera nas cenas independentes — e o galego, historicamente menos exposto na mídia, encontra em Tanxugueiras seu porta-voz mais eficaz fora do próprio território. O álbum é a quarta confirmação consecutiva dessa função.

‘O Cuarto’ está disponível desde meados de maio nas principais plataformas de streaming e em formatos físicos. Onze faixas, todas em galego, sem colaborações em espanhol anunciadas. As datas da turnê associada ao disco devem sair nas próximas semanas e serão o primeiro indicador real de se o trabalho do trio finalmente sai do nicho regional para circuitos maiores — incluindo, em algum momento, palcos fora da Espanha que tradicionalmente recebem música ibérica.

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