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‘Minha Querida Senhorita’ (Netflix): aos 25, descobriu o que esconderam

Veronica Loop

Adela tem 25 anos, é filha única e dá aulas de catequese em uma paróquia de Pamplona. Passa as semanas no pequeno antiquário da família e, todo sábado de manhã, repete para crianças sentadas nos bancos da paróquia que o corpo é um presente de Deus, com um propósito ordenado. O que ela não sabe — enquanto repete a doutrina diante dos alunos — é que sua mãe e os médicos que assistiram seu parto decidiram em uma sala de hospital, em 1976, o que o próprio corpo dela teria permissão de ser. Minha Querida Senhorita, adaptação livre dirigida por Fernando González Molina e roteirizada por Alana S. Portero a partir do clássico de Jaime de Armiñán que concorreu ao Oscar em 1972, transforma essa cena de abertura não em uma reviravolta narrativa, mas em uma tese moral: a catequese que Adela ensina foi escrita para corpos que ela não possui.

A premissa que sustenta o filme não é a descoberta. É o acordo que a antecedeu. Adela é uma pessoa intersexo, e a família que a criou sabia disso desde o primeiro dia de vida. Educaram-na como menina, encaminharam-na para o trabalho de catequista, observaram-na crescer até virar uma jovem cujo único vocabulário moral foi entregue por uma Igreja com cláusula para o pecado, cláusula para a graça e nenhuma cláusula para o que ela descobriria sobre si mesma aos 25. O filme chama esse gesto pelo nome correto: um contrato assinado por uma família, sobre o corpo de uma criança, antes de a criança aprender a ler. Ambientar a história em 1999 trabalha mais do que a divulgação sugere — não há internet em que uma jovem do interior espanhol procure sobre o próprio corpo, não existe conversa pública sobre intersexualidade como categoria distinta do clínico-religioso hermafroditismo que ainda figura nos manuais hospitalares espanhóis no fim do século XX, e a paróquia segue como o quadro moral padrão de Pamplona.

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O que a censura franquista de 1972 não podia dizer

O elenco é a decisão que o original não podia tomar. Mi querida señorita, de Jaime de Armiñán, indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi rodada sob a censura do final do franquismo. José Luis López Vázquez, ator consagrado e homem cisgênero, fez o papel principal, e o álibi médico permitiu que se dissesse, sob o regime, o que o regime não toleraria em linguagem clara. Armiñán e o corroteirista José Luis Borau usaram aquela cobertura com habilidade extraordinária, e o resultado segue como uma das obras mais discretamente subversivas do cinema espanhol do início dos anos 1970. Alana S. Portero — autora do romance La mala costumbre, um dos textos a que a Espanha contemporânea recorre quando se fala em corpo e silêncio — retira do filme essa cobertura. Elisabeth Martínez, mulher intersexo e estreante na tela, interpreta Adela. O risco do filme mora exatamente nessa decisão. Não havia uma atriz intersexo espanhola com carreira consolidada para ser convocada; essa carreira não existia porque a Espanha não havia permitido que existisse. As críticas vindas de Málaga sobre certo didatismo do roteiro e algumas oscilações na atuação de Martínez precisam ser pesadas contra a alternativa que o filme recusou. O que falta de acabamento é o preço da decisão — e a decisão é o filme.

A história se passa em 1999 e chega ao público em 2026, em meio a um debate legislativo espanhol que ainda não foi fechado sobre cirurgias não consentidas em recém-nascidos intersexo. A ampliação dos direitos trans aprovada em 2023 deixou a questão médica fora do perímetro da lei. Em vários hospitais espanhóis — assim como no Brasil, onde a Resolução CFM 1.664/2003 do Conselho Federal de Medicina recomenda critérios éticos para a definição do sexo de pacientes com anomalias da diferenciação sexual, mas onde nenhuma lei específica proíbe intervenções cirúrgicas não consentidas em bebês intersexo — continuam sendo realizadas, nos primeiros meses de vida, intervenções para “normalizar” corpos que não cabem na lógica binária, apenas com o consentimento dos pais. Ao recuar a câmera 27 anos, Portero faz uma manobra que o quadro contemporâneo não permitiria: deixa o público assistir uma geração de pais tomando exatamente a decisão que outra geração de pais segue tomando hoje, e deixa a consequência entrar em cena na figura de uma mulher adulta de 25 anos que passou a vida ensinando doutrina dentro de um corpo que não lhe deixaram conhecer.

Madri não cura a ferida

O que o filme herda de Pedro Almodóvar é a gramática — família de província, mãe católica, identidade queer como fato e não como enredo. O que ele rompe com Almodóvar é o desfecho. Almodóvar oferecia transcendência: a protagonista chega a Madri, se reinventa, escapa do espartilho provinciano para a família escolhida. Adela também chega a Madri na segunda metade da história. Anna Castillo dá vida a Isabel, a fisioterapeuta lésbica cuja chegada abre a porta da cidade e de um vocabulário que a paróquia jamais ofereceu. Paco León, contra o tipo que costuma viver, encarna o padre José María, um sacerdote gay que trata a pergunta de Adela como uma pergunta real, e não como um perigo. Manu Ríos, Eneko Sagardoy, Lola Rodríguez e Nagore Aranburu povoam o mundo que se abre. María Galiana, a avó mais reconhecível da televisão espanhola por causa da novela Cuéntame, é Adelina, a matriarca cuja relação com o segredo é a nota mais dolorosa do filme. Mas Madri não cura a ferida. O filme recusa a saída almodovariana e honra o final aberto de Armiñán, que deixava o protagonista dentro da pergunta — e não de um lado ou de outro dela.

O que uma pessoa deve à família que a amou mentindo sobre o próprio corpo? O filme não responde. Suas cenas mais pacientes são aquelas em que a mãe não termina como vilã e Adela não termina como heroína. As duas se sentam frente a frente dentro de uma doutrina que nenhuma das duas escreveu, ambas formadas pela mesma paróquia, pelos mesmos manuais médicos e pelo mesmo silêncio que atravessou o catolicismo provinciano espanhol por duas gerações. A catequese que Adela ensinou durante anos tem cláusula para o pecado e cláusula para a graça. Não tem cláusula para a aritmética exata de ter sido enganada por uma mãe que se acreditava protetora. O filme deixa Adela dentro da pergunta — não por medo da resposta, mas por respeito à pergunta que lhe foi entregue.

My Dearest Señorita - Netflix
MI QUERIDA SEÑORITA. Elisabeth Martinez as Adela/Ad, Anna Castillo as Isabel in MI QUERIDA SEÑORITA. Cr. Michael Oats/Netflix © 2025

Minha Querida Senhorita estreia globalmente na Netflix em 1º de maio, depois de uma exibição limitada em cinemas na Espanha distribuída pela Tripictures a partir de 17 de abril e da pré-estreia mundial na Seção Oficial do 29º Festival de Málaga em 8 de março. Direção de Fernando González Molina e roteiro de Alana S. Portero, em adaptação livre do roteiro de Jaime de Armiñán e José Luis Borau de 1972. A produção é da Suma Content — produtora de Javier Ambrossi e Javier Calvo, com Andrea Herrera Catalá como produtora executiva — para a Netflix. A trilha original é de Álex de Lucas e da cantora espanhola Zahara, que também assina uma canção original escrita para o filme. Duração: 113 minutos. Em destaque no elenco, Elisabeth Martínez estreia na tela no papel de Adela, ao lado de Anna Castillo (Isabel), Paco León (padre José María), Nagore Aranburu (Cruz), Manu Ríos (Gato), Eneko Sagardoy (Santiago), Lola Rodríguez (Ángela) e María Galiana (Adelina). E agora? A pergunta que o filme entrega ao público brasileiro é direta: em quantas salas de parto, daqui até Pamplona, a decisão tomada em 1976 segue sendo reproduzida com a mesma assinatura — a dos pais — e o mesmo silêncio de todos os outros.

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