Atores

Katy Perry, a arquiteta pop que ainda mede se a casa segue sendo dela

Penelope H. Fritz

Pergunte a Katy Perry como é o sucesso em 2026 e ela provavelmente vai responder com um mapa de cidades. A Lifetimes Tour terminou em Abu Dhabi pouco antes do Natal, vendeu mais de um milhão de ingressos e faturou mais de cento e trinta e quatro milhões de dólares — um número que, em qualquer régua pré-streaming, faz o barulho contínuo sobre a relevância dela soar estranhamente longe da bilheteria. A pergunta séria desse meio de carreira é se a cantora que tirou cinco números um consecutivos de um único álbum continua dona do palco que ajudou a construir. A turnê diz que sim. O debate continua dizendo nem tanto. Ela trabalha exatamente nessa diferença.

Chegou aqui por um caminho razoavelmente torto para alguém que hoje lota arenas. Criada em Santa Bárbara, na Califórnia, por dois pastores pentecostais que proibiam música secular dentro de casa, Katheryn Elizabeth Hudson tirou o equivalente ao supletivo aos quinze anos e foi para Los Angeles cantar. Gravou um disco de pop cristão com o nome de batismo, viu a gravadora afundar e passou meia década sendo descartada primeiro pela Island Def Jam e depois pela Columbia. A Katy Perry pública — o sobrenome é o de solteira da mãe, escolhido para não se confundir com Kate Hudson — só existe porque a Capitol terminou dizendo sim a I Kissed a Girl, uma canção que os selos anteriores tinham deixado passar.

O estouro veio com One of the Boys, em 2008, e acelerou até virar anomalia estatística. Teenage Dream, o disco de 2010 montado com Max Martin, Dr. Luke e Stargate, gerou cinco números um consecutivos na Billboard Hot 100: a única artista mulher a conseguir o feito e o segundo álbum da história, depois de Bad, de Michael Jackson. Prism veio na sequência com Roar, Dark Horse e Unconditionally; um ano depois ela liderava o intervalo do Super Bowl XLIX, o show de halftime mais assistido da história da televisão americana. No meio daquela década, seus discos passavam dos cento e cinquenta milhões de cópias e o catálogo acumulava cerca de vinte recordes Guinness.

Foi nessa hora que o modelo começou a ranger. Witness, lançado em 2017 com um fim de semana inteiro de confissões transmitido ao vivo, chegou como número um morno e fracasso crítico claro. No mesmo ano, ela aceitou a cadeira de jurada do American Idol na ABC e ficou por sete temporadas, um trabalho paralelo pago em oito dígitos que custou a ela a aura artística da qual o pop da era streaming depende. Smile, o disco da maternidade, saiu em meados de 2020 com a filha Daisy Dove nascendo dias antes; era um álbum quente e pequeno num momento que não premiava nenhuma das duas coisas, e a própria Perry admitiu nas entrevistas que ficou abaixo da expectativa. Quando ela anunciou 143 — título tirado do código de pager que significa ‘eu te amo’ — a régua já estava virada contra ela: o single ‘Woman’s World’ foi destruído, o rollout foi áspero e um voo suborbital a bordo do Blue Origin NS-31 com Lauren Sánchez e Gayle King em abril de 2025 virou a viagem espacial mais zombada da década. Perry disse depois que se arrepende de ter deixado o episódio virar ‘um espetáculo público’.

Não é uma admissão pequena. O interessante na era Lifetimes é que Perry colocou a crítica dentro da própria arquitetura da turnê. O filme de abertura do show a apresenta como um personagem de videogame pulando entre eras; o setlist começa com os hits que a internet já havia decretado vergonhosos e que um ginásio de quinze mil pessoas continuava cantando inteiros. O filme concerto que estreia em Tribeca em 8 de junho de 2026 — Katy Perry: The Lifetimes Tour – Live from Paris, gravado na Accor Arena com sessenta câmeras — é, no papel, um comunicado de vitória. É também, num plano mais interessante, o registro de uma popstar argumentando em tempo real que a sala não encolheu.

Fora do palco ela também não se esconde. O noivado com Orlando Bloom, o ator com quem ela divide a guarda da filha Daisy, foi rompido publicamente em 3 de julho de 2025; os dois coparentam em termos descritos como amigáveis. O relacionamento dela com o ex-primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, tornado totalmente público em 2025 e exibido sem filtro no Coachella em abril de 2026, foi outro tipo de manchete — lido por uns como rebranding e por outros como uma vida íntima vivida em voz alta. Ela não entrou em detalhes.

O que vem agora é a parte menos brilhante. O verão europeu de 2026 traz uma temporada de headlines em festivais — O Son do Camiño, Rock in Rio Lisboa, Werchter Boutique, Blenheim Palace, Main Square, JazzOpen Stuttgart, Luxembourg Open Air e Lucca — e o próximo álbum vai precisar ser o próximo argumento dela. Se será pop maximalista ou o disco mais quieto, de cantautora, que algumas faixas mais limpas de Smile deixavam entrever, é uma decisão que ela precisa tomar sozinha: os produtores que construíram o império dela são os mesmos cujo retorno em 143 o público acabou de recusar. O motivo para seguir olhando para ela não é o catálogo. É a escolha.

Discussão

Há 0 comentários.