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Esta Copa não vai premiar quem encanta, e sim quem aguentar o mês inteiro

Jack T. Taylor

Imagine o corpo no fim de tudo. Um lateral que disputou seis jogos em menos de quatro semanas, voou de uma cidade ao nível do mar para outra a mais de dois mil metros, dormiu em quatro hotéis e agora precisa puxar uma ultrapassagem pela ponta aos setenta e oito minutos de uma quartas de final, com o ar pesando no peito como uma mão. É esse jogador, não o do passe que vira replay, quem decide o torneio.

A primeira edição dividida entre três países também é a maior e a mais dura já montada: quarenta e oito seleções, doze grupos e um continente inteiro de viagens espremido em um só verão. Calor no sul, altitude no centro, umidade no litoral. A equipe que levantar a taça não será a que jogar o futebol mais bonito por noventa minutos. Será a cujas pernas e cabeça aguentarem quando as pernas começarem a falhar. O talento leva às quartas. O temperamento atravessa.

Vale ler os candidatos por uma única pergunta: quando ficar feio, longo e quente, quem aguenta?

Brasil: a disciplina, enfim imposta

Pela primeira vez o Brasil entregou a seleção a um estrangeiro, e não a um cauteloso. Carlo Ancelotti chega com uma especialidade pouco vistosa: fazer os vestiários mais talentosos e mais temperamentais do mundo jogarem uns pelos outros. Ao Brasil não faltou talento nas duas décadas sem título; faltou coluna. O experimento é saber se a calma de um italiano consegue se impor a uma cultura que confia mais na improvisação do que na estrutura. Um Brasil que defende com intenção e confia nos atacantes para resolver é coisa de assustar.

Espanha: ter a bola para respirar

Os campeões da Europa construíram algo mais raro que o brilho: um jeito de poupar energia sem nunca devolver a bola. A equipe de Luis de la Fuente não toca para encantar, e sim para descansar de pé e obrigar o rival a correr onde correr mata. No centro está Lamine Yamal, ainda um adolescente e já o jogador mais sereno de quase qualquer campo. A dúvida não é técnica: é se esse grupo já precisou sofrer de verdade.

Argentina: a vontade que não dobra

A atual campeã chega com o que não se treina: a memória de já ter feito. Lionel Scaloni manteve a espinha do time que foi até o fim da última vez, e com ela a mesma recusa de perder um jogo que decidiu não perder. Nenhuma seleção defende este título há mais de sessenta anos. Se a Argentina vencer, vencerá como sempre: tarde, na tensão, sustentada por uma vontade coletiva que decide que o placar não se negocia.

França: a máquina que ganha feio

Didier Deschamps não pede que admirem seu time. Pede que avance. A França tem mais força ofensiva bruta do que qualquer um, montada em torno de Kylian Mbappé, mas a arma real é a recusa do treinador a entrar num duelo de igual para igual. Recua, absorve e sai numa velocidade que transforma um erro em gol. Não é bonito. Chegou às duas últimas finais.

Inglaterra: a aposta fria na função

Thomas Tuchel tomou a decisão mais dura de todos. Deixou em casa alguns dos nomes mais brilhantes do país e escolheu um grupo pensado para cumprir uma função em torno de Harry Kane, não para encher um cartaz. Decidiu que as décadas de fracasso inglês foram problema de funcionamento, não de talento, e prefere ser difícil de bater a fácil de amar.

O argumento

Se for preciso cravar um caso e não uma certeza, ele pende para a Espanha: não por ser a mais empolgante, mas porque o time que nunca devolve a bola é o que menos corre num cenário feito para estourar os pulmões. O controle é a forma mais subestimada de resistência.

Mas se a pergunta for qual seleção ninguém quer pegar, a resposta honesta é a campeã. A Espanha talvez tenha sido feita para sobreviver ao torneio. A Argentina foi feita para sobreviver ao momento. A resistência leva à final. Na última noite, diante da maior multidão que este esporte já reuniu, decide quem se recusa a perder. Isso não se mede. Isso se descobre.

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