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Portugal chega à Copa carregando uma despedida — e acredita que é isso que o sustenta

Uma geração jovem que enfim aprendeu a vencer os jogos apertados se apresenta com os dois pesos mais pesados do torneio: o último ato de Cristiano Ronaldo aos 41 e o lugar vazio de Diogo Jota.
Jack T. Taylor

Quando Roberto Martínez leu sua lista para esta Copa, não parou no número em que todos os técnicos param. Citou vinte e seis jogadores e depois citou mais um, e esse a mais não era um futebolista que fosse tocar na bola neste verão. Diogo Jota morreu num acidente de carro antes de completar vinte e nove anos, e em vez de preencher seu lugar ou silenciá-lo, Portugal decidiu carregá-lo. Vinte e sete, disse Martínez: vinte e sete mais um. Esse mais um é um homem que não vai jogar um único minuto do torneio, e pode acabar sendo o nome mais importante da convocação.

É essa a forma estranha deste Portugal. Poderia ter viajado leve. É o motor jovem mais sério da competição, uma seleção que enfim transformou uma década de talento em algo que se pode segurar, e chega, em vez disso, com mais peso do que qualquer outro no chaveamento escolheu erguer. Um lugar vazio no vestiário. Uma despedida na braçadeira. A maioria das equipes passa uma Copa tentando aliviar a pressão. Portugal passou a primavera juntando-a de propósito.

A seleção que aprendeu a vencer os jogos apertados

Durante quase dez anos, Portugal foi o tipo mais frustrante de bom. Produzia jogadores que ninguém mais conseguia produzir e depois perdia os jogos que uma equipe tão talentosa não deveria perder: eliminado por adversários que havia dominado, afundado justamente nos momentos em que seu talento deveria decidir. O talento nunca esteve em dúvida. Os nervos, sim. Era uma equipe que você via jogar lindamente por oitenta minutos e achar um jeito de perder nos últimos dez.

Então, na final da Liga das Nações, encontrou a Espanha — a melhor equipe de controle do mundo —, ficou atrás duas vezes, empatou duas vezes e caminhou até a marca do pênalti. É a situação em que Portugal fracassava havia uma década: sem posse para se esconder, sem sistema em que confiar, só a caminhada mais longa do esporte e um goleiro esperando para te humilhar. Marcou todos os pênaltis que cobrou. Diogo Costa defendeu o que importava. Tornou-se a primeira seleção a vencer duas vezes aquele troféu e, muito mais importante, fez isso superando a única prova que toda a sua história dizia que ia falhar. A equipe que sempre piscava, por uma vez, não baixou os olhos.

A ideia de Martínez e a espinha que a sustenta

Martínez foi, em silêncio, implacável ao transformar um punhado de nomes numa estrutura. O que ele propõe é feito para controlar a bola sem se apaixonar por ela: a posse como forma de sufocar um jogo, não de enfeitá-lo. O meio-campo é o melhor da equipe e talvez o melhor do torneio. Vitinha dita o ritmo como um baterista dita para uma banda, recua para iniciar tudo e chega tarde para concluir parte. Ao seu lado, João Neves devora metros numa idade em que quase todos ainda são poupados, e Bruno Fernandes empurra o conjunto para a frente com aquele passe vertical que transforma uma jogada de controle em chance num só gesto.

As pontas pertencem aos jovens e aos sem medo. Nuno Mendes virou o lateral esquerdo mais completo do mundo, um defensor que ataca como ponta e volta como velocista. Rafael Leão conduz para cima dos zagueiros com aquela passada longa e enganosa que parece preguiçosa até ele já ter te passado. Bernardo Silva faz os quilômetros sem glória que deixam os outros brilharem. Atrás, Rúben Dias organiza a linha como um mestre de obras toca o canteiro: em voz alta, sem parar e sem tolerar que alguém se desligue. Não é uma equipe que espera que um só homem a salve. É uma estrutura, e profunda.

O homem de quarenta e um anos à frente

E ainda assim um homem está à frente, porque está à frente há duas décadas e não pretende sair de cena agora. Cristiano Ronaldo chega à sua sexta Copa aos quarenta e um, um recorde que nenhum homem alcançou, e a tentação é escrever sobre o que ele foi. Aí se perde o mais interessante: o que custa ainda estar aqui. Reorganizou uma carreira inteira em torno da recusa de parar — o treino que ninguém vê, o corpo gerido como um ativo, a fome que deveria ter se apagado há uma década e que, de algum modo, não se apagou. Já não é o mais rápido nem da própria equipe, ele sabe, e continuou vindo assim mesmo. Dê o que der este torneio, será o último. Ele o joga como quem decidiu que o único final aceitável é aquele que Portugal nunca teve.

O peso como combustível

E há ainda a parte que nenhuma prancheta consegue desenhar. Perder Jota atravessou este grupo de um jeito que não aparece num time titular. Martínez não escolheu administrar o luto à distância, mas dobrá-lo dentro da própria razão de a equipe estar ali: o espírito, o exemplo, a régua que o jogador estabeleceu, levados adiante como o mais um. É um risco. O luto pode sustentar um vestiário ou pesar sobre ele como uma laje. Mas Portugal decidiu que o lugar vazio não é uma ferida a proteger, e sim um motivo para jogar. Uma equipe que vence por alguém que não pode perder com ela é mais difícil de quebrar aos setenta e cinco minutos. É essa a aposta.

O caminho

O sorteio era transponível. Portugal abre o Grupo K contra a República Democrática do Congo em Houston, volta ao mesmo estádio para enfrentar o Uzbequistão e encerra contra a Colômbia em Miami. A Colômbia é o teste de verdade dos três: rápida, física, bem treinada, o tipo de adversária que não vai dar a bola para Portugal controlar. Os outros deveriam ser batidos por uma equipe com essa profundidade, ainda que uma Copa seja especialista em punir a palavra “deveria”. Vença o grupo e começa o torneio de verdade, onde os adversários param de ceder a bola e passam a disputar cada metro, e onde, mais cedo ou mais tarde, alguém costuma ter de caminhar de novo até a marca do pênalti.

É ali que este Portugal vai ser medido. Tem os jogadores; sempre teve os jogadores. O que é novo é que, pela primeira vez em muito tempo, tem a prova de que consegue segurar os nervos quando o jogo se reduz a um chute e a uma respiração. Carrega uma despedida e um amigo ausente para o mês mais exigente do esporte, e decidiu que o peso não é um problema a resolver, mas a razão para vencer. A equipe que sempre viajou com mais talento enfim escolheu viajar com mais pelo que jogar. Estamos prestes a descobrir qual das duas coisas vence torneios.

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