Televisão

Caríssima parece comédia de influenciadora na Netflix, mas é um retrato de classe argentino que Olga vem refinando desde 2012

Uma crise dos trinta anos com um psicopata de várias personalidades na porta não é o assunto. O assunto é um estudo de personagem de catorze anos entrando no algoritmo que distribui Wednesday
Martha Lucas

Uma rainha do streaming, a quatro dias do trigésimo aniversário, acorda convencida de que vai morrer de irrelevância, e em meio aos escombros da organização da festa entra um desconhecido que atende por três nomes diferentes. A piada é que nenhum desses desabamentos é o verdadeiro. O verdadeiro é que a mulher que está vivendo a crise vem vivendo há catorze anos, em outro formato, em outro canal, interpretada por um homem que também não está exatamente fazendo um homem que faz de mulher.

YouTube video

Caro Pardíaco é o estudo de personagem mais bem afinado da comédia argentina contemporânea. É a filha de um empresário sem nome que mora nos bairros ricos do norte de Buenos Aires, tem todo o dinheiro que o país não tem mais e trata o Twitter como as gerações anteriores tratavam o confessionário: um lugar onde depositar certezas morais e se sentir momentaneamente mais leve. Julián Kartún, roteirista e músico de quarenta e um anos, vem incorporando ela desde os primeiros esquetes de Cualca que Malena Pichot tirou da sala de roteiristas de Diego Capusotto, por volta de 2011 e 2012. A personagem passou pela sátira de TV aberta, pelo YouTube e pelos fundos do stand-up portenho antes de aterrissar toda quarta-feira em Olga, o canal de streaming que Migue Granados fundou em 2023, onde Kartún aparece caracterizado e transforma o chat em assunto até a hora do almoço.

O que a Netflix encomendou, portanto, não é uma comédia de influenciadora. É um estudo longitudinal de catorze anos sobre uma única classe social argentina, escalado para uma arquitetura curta de dez por dez minutos importada integralmente do canal de streaming que provou que o formato funciona. A arquitetura oculta da série é que Caro é uma personagem que retorna fingindo ser nova. Cada episódio importa o conhecimento prévio do espectador: o registro da cheta de Zona Norte, o ativismo insuportável do Twitter, a premissa de filha de empresário, a cadência exata com a qual Kartún quebra a voz no meio da frase quando ela está prestes a dizer algo que sabe estar errado. Os dez minutos de duração não são uma escolha de orçamento. É o tempo cognitivo de um monólogo de personagem. Estendê-la a vinte e dois a mataria — a forma é o metabolismo da personagem.

Os diretores são Nano Garay Santaló e Federico Suárez, ambos vindos do próprio pipeline de produção de Olga. A sala de roteiro reúne o próprio Kartún com Julián Lucero, Mariano Rosales e Garay Santaló, e Pichot como consultora de roteiro — fechando o arco que se abriu quando ela o contratou como roteirista quinze anos atrás. Charo López e Gastón Pauls trazem peso de televisão tradicional pelas bordas. O crédito mais revelador é o do filósofo Darío Sztajnszrajber, cuja presença em uma comédia de personagem de dez minutos sinaliza que a equipe leva o próprio registro mais a sério do que a superfície admite. A assinatura de Kartún como ator é a manutenção da voz: vem sustentando a mesma frequência, a mesma entonação e o mesmo catálogo de tiques verbais por catorze anos sem deixar a personagem endurecer em imitação.

O chão político por baixo é o que dá peso à piada. A Argentina está no segundo ano do programa de austeridade de Milei. A TV aberta vem cortando orçamento de comédia desde antes da recessão começar, razão pela qual Olga, Luzu e Gelatina existem em primeiro lugar — não como experimentos digitais, mas como os únicos lugares onde roteiristas de personagem ainda recebem pagamento. Caro Pardíaco, uma comédia construída sobre a proximidade de classe a uma família de Zona Norte que sobreviveu a tudo o que o país não sobreviveu, virou o esquete semanal mais visto do streaming argentino num período em que o público que a assistia já não conseguia pagar os apartamentos em que ela mora. O riso não é contra ela. É reconhecimento: essa é a única classe social argentina ainda solvente o suficiente para ser exportável.

A genealogia da personagem atravessa a tradição argentina de comédia de personagem que vai de Tato Bores à Doña Manuela de Antonio Gasalla e aos Pomelo, Bombita Rodríguez e Jesús de Laferrere de Capusotto — intérpretes homens encarnando tipos sociais hiperespecíficos como motor cômico. O que Caro herda dessa tradição é a ideia de que uma única personagem, plenamente realizada, pode sustentar horas de transmissão nacional. O que ela rompe é que é a primeira da linhagem a fazer o salto da TV aberta para o YouTube e daí para a programação semanal em canal de streaming sem perder a identidade da personagem. Capusotto precisou da televisão para escalar. Caro escalou primeiro em Olga, e a Netflix é a terceira plataforma a hospedar a mesma atuação.

O formato é o segundo argumento. Dez episódios de dez minutos em formato horizontal é a primeira encomenda curta da Netflix na Argentina, e a plataforma está usando para testar se a gramática do canal de streaming — ritmos próximos do vertical, estrutura centrada na personagem, premissa de que o público já conhece a protagonista antes do episódio um — pode ser transposta para produto Netflix pronto para maratona sem perder o que a fazia funcionar em Olga. Quem chegar esperando uma hora de fuga estilo Bridgerton vai se ver diante de um estudo satírico de classe legendado. Quem chegar esperando conteúdo estilo Olga vai encontrar Olga comprimida às convenções da Netflix, com o ciclo do chat substituído por uma transmissão de mão única. Nenhum dos dois públicos consegue exatamente o que esperava, e esse é o ponto.

O que a série não consegue resolver é se a sátira argentina virou um bem de luxo. O público de Caro Pardíaco agora são assinantes internacionais da Netflix, não os porteños que a viralizaram. A classe que ela encarna vai assistir à série sem se sentir mencionada, porque a distância sempre fez parte da piada. A classe que reconhecia a sátira vai encontrá-la embrulhada em algoritmo, cercada por Squid Game e Wednesday — uma categoria chamada comédia argentina em vez da piada interna que era. A pergunta que a série abre e não fecha é o que acontece com uma personagem satírica quando ela deixa de ser compartilhada e começa a ser licenciada.

Caríssima estreia na Netflix em todo o mundo no dia 20 de maio de 2026. Dez episódios de dez minutos cada, em formato horizontal, produzida por Labhouse e Olga, dirigida por Nano Garay Santaló e Federico Suárez, escrita por Julián Kartún, Julián Lucero, Mariano Rosales e Nano Garay Santaló com Malena Pichot como consultora de roteiro, estrelada por Julián Kartún, Alex Pelao, Iara Portillo, Julián Doregger e Anita B Queen

Discussão

Há 0 comentários.