Série

The Decameron: a descida sombria da aristocracia à loucura

Martha O'Hara
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A câmera se demora em uma taça de vinho que se derrama sobre uma mesa de mármore. O líquido vermelho-escuro se espalha como uma mancha de peste — uma metáfora perfeita para o caos que está por vir em The Decameron, de Kathleen Jordan. Esta comédia medieval de humor sombrio, ambientada durante a Peste Negra, acompanha um grupo de nobres e criados refugiados em uma villa italiana, onde o retiro luxuoso logo degenera em uma disputa pelo poder, marcada por humor ácido e angústia existencial. Lançada pela Netflix e recebida, em geral, com críticas favoráveis, a série reúne um elenco internacional de estrelas em uma trama que parece assustadoramente atual.

The Decameron se inspira na coletânea de contos homônima que Giovanni Boccaccio escreveu no século XIV, mas a adaptação de Jordan toma muitas liberdades e se concentra mais nos dramas humanos que se desenrolam dentro da villa do que em recontar fielmente as histórias originais. A escolha abre espaço para um olhar renovado sobre o material de origem, embora às vezes pareça uma oportunidade perdida de explorar a riqueza temática da obra de Boccaccio. Produzida nos Estados Unidos, mas ambientada e filmada na Itália, a série confere autenticidade ao contexto histórico, com cenários visualmente deslumbrantes e que também reforçam os temas da narrativa.

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O elenco é o grande trunfo da série. Tanya Reynolds, como Licisca, e Jessica Kate Plummer, no papel de Filomena, entregam atuações marcantes que dão verdade emocional à narrativa. A interpretação de Reynolds como Licisca, criada que aproveita uma oportunidade inesperada para conquistar a liberdade, é especialmente convincente. Com sutileza e várias camadas, ela retrata tanto o desespero da personagem quanto a nova autonomia que conquista. Plummer, como Filomena, imprime à personagem humor afiado e astúcia prática, fazendo dela uma das figuras mais cativantes da série. A química entre as duas é eletrizante e sustenta o núcleo emocional da trama.

As atuações coadjuvantes também merecem destaque. Sirisco, o mordomo neurótico da villa, vivido por Tony Hale, acrescenta uma dose de humor sombrio que é tão hilária quanto trágica. A interpretação mostra a versatilidade de Hale, que percorre com naturalidade a descida do personagem à loucura. Panfilo, de Karan Gill, é outro destaque: seu jeito manipulador e cheio de intrigas cria um contraponto aos personagens mais sinceros. Zosia Mamet, como Neifile, e Saoirse-Monica Jackson, no papel de Misia, também têm atuações memoráveis, embora suas trajetórias às vezes acabem ofuscadas pelas tramas mais dominantes.

A série também se beneficia do design de produção, com paisagens exuberantes da Toscana e interiores opulentos que contrastam fortemente com a decadência do lado de fora dos muros da villa. A direção é precisa, sobretudo nos momentos de maior tensão, como um duelo de espadas contra bandidos ou o confronto decisivo pelo controle da propriedade. O ritmo é ágil, e a estrutura episódica abre espaço para mudanças de tom — da comédia escrachada ao drama sombrio — que mantêm a narrativa interessante.

Mas The Decameron tropeça ao tentar equilibrar um elenco tão numeroso. Algumas personagens, como Pampinea, de Lou Gala, e Tindaro, de Douggie McMeekin, parecem pouco desenvolvidas, com suas trajetórias ofuscadas por histórias mais envolventes. A série também tem dificuldade para manter a unidade de tom: embora o humor sombrio funcione muitas vezes, em alguns momentos a comédia parece forçada e entra em choque com temas mais pesados, como a luta pela sobrevivência e o conflito de classes.

O roteiro, ainda que espirituoso em alguns momentos, recorre ocasionalmente a clichês e reviravoltas previsíveis. O desfecho, em particular, parece apressado, como se Jordan estivesse mais interessada em amarrar as pontas soltas do que em oferecer uma conclusão satisfatória. A série também deixa passar a chance de aprofundar o contexto histórico da Peste Negra e opta por uma abordagem superficial das relações de classe.

Apesar desses problemas, The Decameron é uma série bastante prazerosa de assistir, sustentada por boas atuações e um cenário visualmente deslumbrante. A produção deve agradar tanto aos fãs de comédias de humor sombrio quanto aos de dramas de época, embora possa decepcionar quem espera uma adaptação mais fiel à obra de Boccaccio.

Em meio à disputa por espaço na televisão de prestígio, The Decameron encontra seu próprio nicho com uma combinação singular de humor e drama histórico. Não é uma série perfeita, mas oferece momentos envolventes o bastante para valer a pena. É especialmente indicada para quem gosta de relações complexas entre personagens e de humor sombrio em cenários históricos.

As comparações com outros dramas de época, como The Great e Bridgerton, são inevitáveis, mas The Decameron se diferencia pelo tom mais sombrio e por uma abordagem mais pé no chão do contexto histórico. A série não evita as duras realidades de seu tempo, embora encontre momentos de leveza em meio ao caos.

No fim das contas, The Decameron deve boa parte de seu êxito ao elenco e ao cenário visualmente marcante. Talvez não seja uma obra-prima, mas é uma série envolvente, que combina de forma singular humor e drama histórico.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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