Série

Them: Covenant transforma o racismo sistêmico em um espelho aterrorizante

Veronica Loop
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A cena de abertura de Them: Covenant é um pesadelo em tons sépia e marcado pelo som — Lucky Emory, vivida com intensidade contida por Deborah Ayorinde, embala o bebê em plena madrugada, enquanto o ar parece carregado de pavor. Não se trata apenas de uma série de terror: é um retrato assombroso do terror sistêmico, em que os verdadeiros monstros não são somente as entidades sobrenaturais à espreita nas sombras, mas também o racismo insidioso impregnado em cada tijolo da nova casa dos Emory.

Criada por Little Marvin e produzida por Lena Waithe, Them é uma antologia ambiciosa que ousa encarar os horrores de ser negro nos Estados Unidos. A primeira temporada, Covenant, acompanha a família Emory em sua mudança da Carolina do Norte para um bairro de East Compton habitado exclusivamente por pessoas brancas, nos anos 1950. A série combina com maestria o terror psicológico e o trauma histórico, usando o sobrenatural como reflexo dos horrores muito reais do racismo.

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O que funciona é o compromisso inabalável da série com seus temas. As atuações se destacam, sobretudo as de Ayorinde e Ashley Thomas como Lucky e Henry Emory. A maneira como retratam uma família sitiada é crua e visceral, ancorada num amor que parece ao mesmo tempo terno e desesperado. A atuação de Ayorinde merece atenção especial: ela atravessa os terrores paralelos do racismo e do sobrenatural com uma força serena que nunca descamba para o clichê. Thomas também tem um desempenho poderoso como Henry, cuja angústia diante da necessidade de sustentar a família é palpável.

Betty Wendell, vivida por Alison Pill, é uma antagonista arrepiante; seu racismo não é apenas uma falha pessoal, mas uma força sistêmica. Pill acrescenta complexidade à personagem e faz dela mais do que uma preconceituosa unidimensional. O elenco de apoio, que inclui Shahadi Wright Joseph como Ruby Lee Emory e Melody Hurd como Gracie Emory, também entrega atuações marcantes, conferindo profundidade e nuances a seus papéis.

O visual impressiona: o diretor de fotografia Nathan M. Watson compõe enquadramentos que parecem pinturas — belos, mas inquietantes. O uso da iluminação e da composição é especialmente eficaz, criando uma sensação de desconforto que atravessa cada cena. O desenho de som também merece destaque, recorrendo ao silêncio e a explosões repentinas de ruído para intensificar a tensão.

Ainda assim, Them tem seus problemas. Às vezes, a abordagem do tema parece exploratória, com imagens gráficas que por vezes se sobrepõem à narrativa mais sutil. O ritmo é irregular, e alguns episódios se arrastam sob o peso da própria ambição. Os elementos sobrenaturais, embora eficazes, ocasionalmente parecem um recurso fácil, em vez de complementar os horrores do mundo real retratados na série.

A estrutura de antologia também traz um desafio. Enquanto a primeira temporada, Covenant, oferece uma exploração envolvente do racismo e do horror, a segunda, The Scare, custa a encontrar seu rumo. Ambientada em 1991, ela acompanha a detetive Dawn Reeve, do LAPD, durante a investigação de um assassinato brutal. A mudança de cenário e de personagens causa estranhamento, e os temas da série parecem menos bem definidos.

Them é uma série que exige atenção, mesmo quando tropeça. É uma exploração ousada e sem concessões do terror nos Estados Unidos, que se recusa a evitar os capítulos mais sombrios da história. A série deve agradar aos fãs de terror psicológico e a quem se interessa pelas interseções entre raça e trauma.

O conteúdo gráfico e o ritmo irregular, porém, podem não agradar a todos. Them é uma experiência desafiadora, mas que vale a pena encarar. A primeira temporada é um testemunho contundente dos horrores do racismo; a segunda, embora menos coesa, ainda oferece momentos de arrepiar pela força e pelo brilho.

As comparações com outras antologias de terror, como American Horror Story, são inevitáveis, mas Them encontra seu próprio espaço ao se concentrar sem concessões na questão racial e no terror sistêmico. Enquanto American Horror Story muitas vezes aposta no camp e no espetáculo, Them se apoia num realismo austero que torna seus horrores ainda mais palpáveis.

Para quem estiver disposto a mergulhar em seus temas mais sombrios, Them oferece uma experiência singular e inquietante. É uma série que continua na memória muito depois dos créditos finais e força o público a encarar verdades incômodas sobre o passado e o presente dos Estados Unidos.

No fim das contas, Them é uma série que se sobressai apesar de seus defeitos. Sua visão ousada e suas atuações poderosas fazem dela um destaque no gênero do terror, ainda que a execução nem sempre seja impecável.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

  • Melody Hurd — Gracie Emory

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