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«Várzea: Onde Nasce o Futebol» chega à Netflix e filma o torneio amador que forma o jogador antes de qualquer olheiro aparecer

A série documental de Alec Cutter acompanha a Super Copa Pioneer, a competição amadora em que o Brasil molda o caráter que suas estrelas levam para fora
Jack T. Taylor

O campo é de terra, às vezes de barro, e ele revida. Um repique ruim mata uma jogada que um gramado cuidado teria premiado, e na várzea de São Paulo o jogador aprende cedo que a superfície não lhe deve nada. É a primeira coisa que «Várzea: Onde Nasce o Futebol» acerta: não trata o futebol amador como um prólogo simpático do de verdade. Trata a terra como o teste.

Sob a premissa de dois craques que voltam para casa, a série persegue algo mais difícil que a nostalgia. A várzea não é onde se descobre talento; é onde se forma o temperamento. Descobrir é palavra de olheiro e acontece depois, num escritório, sobre um jogador já pronto. Na terra acontece o resto: a dividida aguentada sem piscar, o pênalti batido diante de cinquenta pessoas e do orgulho do bairro. A raiz que o título nomeia não é um drible. É o sangue-frio que sobrevive à subida quando a técnica é só o ingresso.

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Alec Cutter ergue a série sobre uma competição, e não sobre uma lembrança, e essa única escolha sustenta toda a tese. A Super Copa Pioneer, o maior torneio amador de São Paulo, corre com começo, meio e fim. Times de bairro disputam um título que não deixa ninguém rico, mas decide, por um ano, em quem a região acredita. Como há algo em jogo, um pênalti perdido por um homem que nenhum clube europeu vai ligar pesa tanto quanto o de uma estrela. A estrutura diz o que as entrevistas não precisam dizer: os protagonistas são os amadores.

A câmera sabe disso. Fica baixa e perto, dentro das substituições, das discussões e da chuva, e se recusa a cortar para um rosto famoso toda vez que a intensidade cai. Quando Cafu e Raphinha aparecem, chegam como quem volta, não como narradores. Cafu, capitão campeão do mundo, fala desses campos como um lutador fala de um ginásio antigo: com um respeito que tem um pouco de medo. Eles não são o assunto. São a comprovação de uma ideia que a série prefere provar com jogadores que ninguém conhece: a periferia produz jogadores porque produz gente que já esteve sob pressão.

Uma sequência resume o argumento inteiro. Um zagueiro, com barro até a canela, vê uma bola longa cair por cima do ombro com o atacante já em disparada; não se joga nem se afoba, toma o meio segundo que o chão não garante e afasta limpo num terreno onde o repique podia ir para qualquer lado. Nenhum narrador sublinha, nenhuma arte o nomeia. Na TV seria um corte rotineiro; aqui, onde cada gesto comum é uma aposta, explica por que alguns sobrevivem ao salto e outros, mais talentosos, não.

A estreia cai em ano de Copa, ao lado dos outros títulos brasileiros da Netflix, num país que exporta mais talento de elite do que qualquer outro e quase não conserva as condições que o produzem. A várzea encolhe. O terreno se vende. Campos livres por décadas cedem a tudo o que uma cidade em expansão quer fazer com o chão. Um documentário sobre a raiz acaba sendo, sem levantar a voz, um documentário sobre o que acontece quando a raiz é asfaltada.

O que a série não resolve, e é honesta o bastante para não tentar, é a dívida. Um menino deixa a terra, assina, vence, e o lugar que o formou fica com um mural e uma lembrança. Cafu e Raphinha podem voltar um fim de semana com uma câmera; a estrutura que os fez não sai junto. Resta a pergunta que a taça nunca responde: o que o jogo deve ao chão de onde nasce?

«Várzea: Onde Nasce o Futebol», dirigida por Alec Cutter e produzida pela Ginga Pictures com a R21, é uma série documental que estreia na Netflix em 20 de junho. Ambientada na Super Copa Pioneer de São Paulo, reúne Cafu e Raphinha ao lado dos jogadores e técnicos amadores do torneio. O áudio original é em português do Brasil.

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