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Brasil 70: A Saga do Tri estreia na Netflix e abre o vestiário que as câmeras de 1970 não filmaram

Martha O'Hara

Pelé passou os meses anteriores à Copa do México dizendo que estava acabado. Ainda não tinha trinta anos, mas um torneio brutal quatro anos antes, em que zagueiros o tiraram da competição na base da pancada enquanto os árbitros olhavam para o outro lado, o havia convencido de que seu corpo não devia mais nada ao futebol. Tinha dito, mais de uma vez e em público, que não voltaria à seleção. O homem que o planeta estava prestes a coroar como o maior jogador vivo caminhava para o triunfo mais celebrado da história do esporte carregando uma dúvida que os melhores momentos depois apagariam.

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Brasil 70: A Saga do Tri se constrói nesse espaço entre a dúvida e o ouro que veio em seguida. O time que o Brasil levou ao México é lembrado como o mais completo já reunido, o do quarto gol contra a Itália, concluído por um capitão que chegava de trás, que ainda é mostrado às crianças como prova do que o jogo pode ser. A série da Netflix se interessa muito menos pelo resultado do que pela pergunta de quem ficou com ele. O país que produziu esse time já estava havia quatro anos sob uma ditadura militar que censurava jornais, exilava músicos e torturava opositores. O regime entendeu na hora que um terceiro título mundial era a melhor propaganda que poderia comprar. Os jogadores ganharam o torneio. Os generais embolsaram os dividendos.

É a esse argumento que a série volta o tempo todo, e ele é mais corajoso do que uma volta olímpica. Na memória nacional, a vitória é de todos: é a coisa mais quente em que o Brasil moderno concorda. A série se recusa a parar aí. Encena a euforia e depois pergunta, sem levantar a voz, para que aquela euforia serviu, e consegue fazer isso sem a lição de moral que costuma afundar os filmes sobre futebol e política. As passeatas, o hino, o lema carimbado sobre os gols, Pra Frente Brasil, ficam no quadro como clima, não como tese.

A decisão de dramatizar em vez de documentar é a mais decisiva de todas. Imagem do México não falta: foi a primeira Copa transmitida em cores e os gols sobrevivem em registros nítidos, reprisados sem parar. O que não existe é uma câmera dentro das salas onde a história de fato virou. Saldanha discutindo com a federação. Pelé decidindo, em particular, se continuava. A federação decidindo, de forma menos discreta, que um comunista não podia levar a seleção à vitrine do regime. Para entrar nessas salas não basta montar arquivo: é preciso reconstruí-las e botar atores dentro.

Rodrigo Santoro, o rosto mais reconhecido internacionalmente do elenco, não faz Pelé, e sim João Saldanha, o jornalista e comunista assumido que montou o time, classificou-o sem perder uma partida, contrariou o regime por escrito e foi tirado do cargo antes do torneio que havia construído. Escalar o ator de maior cartaz para o homem que foi demitido, e não para o ídolo que levantou a taça, mostra onde está o centro de gravidade da série. Bruno Mazzeo é Mário Zagallo, o profissional cauteloso que herdou o time e o crédito, e que passou o meio século seguinte respondendo quanto do triunfo foi de fato seu. O Pelé de Lucas Agrícola atravessa tudo como um homem auditando o próprio futuro, não como um monumento recebendo homenagem.

A história de Saldanha sozinha daria uma série. Era um jornalista sem carteira de técnico e com carteirinha do Partido Comunista, posto no cargo mais vigiado do país, que respondeu classificando o Brasil com campanha perfeita e em seguida brigando em público com todo mundo, de cartolas ao presidente. A razão oficial da demissão foi conduta errática; a extraoficial, em que a série se apoia, foi que a ditadura não podia desfilar com um revolucionário declarado à frente. Saiu poucos meses depois de classificar, e o time que ele escolheu venceu sem ele.

Quando o futebol chega, é filmado no registro realista da O2 Filmes, a casa por trás de Cidade de Deus, então as partidas têm gosto de suor, altitude e choque, e não de câmera lenta reverente. A série dá uma atenção incomum ao preço físico da lenda. Tostão jogou o torneio depois de operar um descolamento de retina, com um olho em que mal confiava. Gérson comandava o meio-campo entre um cigarro e outro. Todos penaram no ar rarefeito do México que deixava os europeus sem fôlego. Quico Meirelles e os irmãos Paulo e Pedro Morelli mantêm o elenco em escala humana, de modo que os homens célebres aparecem como profissionais cansados, assustados e engraçados, não como estátuas.

É essa escala humana que deixa a camada política aterrissar sem sermão. A um país estava sendo dito que ele estava bem, transmitido em cores e embalado por um time vencedor, por homens que trabalhavam duro para que ele não pudesse dizer o contrário. A série nunca enumera os crimes do regime: apenas mantém o custo no mesmo quadro que a comemoração. A terceira estrela subiu sobre uma nação a quem haviam mandado olhar para a frente e não para trás, e a série deixa o espectador sentir ao mesmo tempo a euforia genuína e o uso que fizeram dela.

Há um motivo para uma produção brasileira encenar isso agora, em vez de tratar a vitória como nostalgia encerrada. É a lembrança coletiva mais sagrada do país e, ao mesmo tempo, a peça de propaganda mais eficaz da ditadura, e o Brasil nunca reconciliou de todo as duas coisas. Reabri-la para uma plataforma global, na aproximação de mais um verão de Copa, é perguntar se uma nação pode amar seu time sem passar a limpo os homens que o exploraram. Que a pergunta seja feita dentro de um drama de prestígio da Netflix, a mesma trilha que levou Senna ao mundo, já é uma pequena história sobre quem narra os mitos nacionais e em qual plataforma.

BRASIL 70. Bruno as Roberto, Gui Ferraz as Jairzinho, Maicon as Paulo César, Bruno Mazzeo as Zagallo in Brasil 70. Cr. Alexandre Schneider/Netflix © 2025

O que a terceira estrela nunca conseguiu resolver é de quem ela era. Os onze homens em campo a conquistaram com retinas descoladas, joelhos doloridos e um técnico sacrificado à política; a ditadura passou os anos seguintes vestindo-a como uma faixa que lhe tivessem concedido. Brasil 70: A Saga do Tri coloca as duas reivindicações na tela e, para seu crédito, não entrega o troféu limpo a nenhuma delas.

Brasil 70: A Saga do Tri estreia em 29 de maio na Netflix como série limitada de seis episódios, produzida em parceria com a O2 Filmes e criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas. O elenco traz Lucas Agrícola como Pelé, Rodrigo Santoro como João Saldanha, Bruno Mazzeo como Mário Zagallo, Ravel Andrade como Tostão e Caio Cabral como Carlos Alberto, com direção de Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles.

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