Série

Tribhuvan Mishra: CA Topper: uma trama envolvente, mas irregular, sobre concessões morais

Molly Se-kyung
Adicione-nos no Google

A cena de abertura de Tribhuvan Mishra: CA Topper mostra os olhos de Manav Kaul em close, percorrendo livros-caixa e um espelho escondido que reflete sua vida secreta. Essa dualidade dá o tom à série da Netflix criada por Puneet Krishna: um retrato irregular, mas às vezes envolvente, do desespero e das concessões morais na Noida de classe média.

A premissa de Krishna — um contador que tira as melhores notas e trabalha como profissional do sexo nas horas vagas — é inegavelmente provocadora, e a série aposta em sua estética hiper-realista para tornar a situação absurda convincente. Os melhores momentos surgem quando a vida dupla de Tribhuvan colide com a rotina banal do escritório, especialmente nas cenas em que a interpretação impassível de Kaul transmite tanto a monotonia do trabalho burocrático quanto a descarga de adrenalina dos encontros clandestinos.

YouTube video

O elenco dá força ao material, especialmente Tillotama Shome como Bindi Jain, cuja intensidade discreta acrescenta profundidade a uma personagem que poderia ter sido uma cliente unidimensional. Shweta Basu Prasad e Naina Sareen também se destacam, dando à série uma base de verdade emocional. Como observou Suparna Sharma, do The Week, a produção se sustenta graças aos atores, que conferem peso até aos momentos mais bobos.

No entanto, a série tropeça quando tenta abraçar mais do que consegue. A trama criminal parece enxertada, uma tentativa desesperada de acrescentar tensão ao que é, essencialmente, um estudo de personagem. O roteiro perde fôlego no meio, e, no sexto episódio, as piadas já não funcionam. Os problemas de ritmo culminam em um desfecho sem coesão, que deixa pontas demais soltas.

A maneira como a série aborda as questões de gênero também gera controvérsia. Enquanto Lachmi Deb Roy, do Firstpost, argumenta que a produção celebra os defeitos e os desejos das mulheres, ela também recorre a mães e irmãs sofridas e sobrecarregadas como muleta narrativa. Essa falta de equilíbrio enfraquece o comentário social da série e dificulta levar a sério seus dilemas morais.

Tribhuvan Mishra: CA Topper é uma série imperfeita, mas fascinante, sustentada por boas atuações e uma premissa ousada. A produção deve agradar sobretudo a quem gosta de dramas centrados em personagens, com um toque de humor sombrio. Seu olhar sobre as dificuldades da classe média e a ambiguidade moral é oportuno, ainda que a execução seja irregular.

A atuação de Manav Kaul é o alicerce da série. Sua interpretação de Tribhuvan Mishra é cheia de nuances e capta, com a mesma medida, o desespero e a culpa do personagem, além de seus momentos de humor sombrio. A capacidade de Kaul de alternar entre a seriedade de um contador que tira as melhores notas e o profissionalismo distante de um trabalhador do sexo impressiona, e faz de Tribhuvan um protagonista cativante, apesar de suas escolhas questionáveis.

Bindi Jain, personagem de Tillotama Shome, também se destaca. Ela é complexa: não é vilã nem vítima, mas uma mulher que tenta conciliar os próprios desejos com as expectativas sociais. Shome imprime uma intensidade sutil ao papel e faz de Bindi uma das personagens mais identificáveis da série.

Shweta Basu Prasad, como Shobha Pathak, e Naina Sareen, como Ashoklata Mishra, também têm atuações marcantes. Suas interpretações de mulheres apanhadas no fogo cruzado da vida dupla de Tribhuvan acrescentam profundidade emocional à narrativa. O elenco coadjuvante, que inclui Subhrajyoti Barat como Teeka Ram Jain e Faisal Malik como Haider Ali, oferece um bom suporte, embora às vezes seus personagens pareçam pouco desenvolvidos.

A direção da série tem altos e baixos. A decisão de Puneet Krishna de situar a premissa absurda em um contexto hiper-realista funciona bem nos primeiros episódios, mas a falta de coesão fica evidente nos capítulos seguintes. A trama criminal paralela, embora tenha a intenção de criar tensão, muitas vezes parece desconectada da narrativa principal e deixa a série com um ar fragmentado.

A abordagem de temas como desespero, concessões morais e dificuldades da classe média é oportuna e relevante. No entanto, a tentativa de tratar dessas questões dentro dos limites de uma comédia sombria às vezes não convence. O equilíbrio entre humor e drama é delicado, e nem todos os episódios conseguem encontrá-lo.

As comparações com outras séries da Netflix que misturam drama e comédia, como Sex Education e Master of None, são inevitáveis. Embora Tribhuvan Mishra: CA Topper tenha alguns pontos em comum com essas produções na exploração de estilos de vida pouco convencionais e dilemas morais, falta à série a consistência de tom e ritmo que elas apresentam.

A série é mais indicada para quem gosta de dramas centrados em personagens, com um toque de humor sombrio. Não é para quem procura um thriller policial de trama bem amarrada ou uma comédia romântica convencional. Seu ponto forte está nas atuações e na premissa ousada; os pontos fracos são a execução irregular e os problemas de ritmo.

Em resumo, Tribhuvan Mishra: CA Topper é uma série imperfeita, mas fascinante, que oferece ótimas atuações e uma premissa provocadora.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Tags: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Há 0 comentários.