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Hit viral na Netflix: um adolescente endividado transmite as próprias surras ao vivo para sobreviver

Veronica Loop

Kota Shimura aprende a brigar como a geração dele aprende quase tudo: assistindo outras pessoas fazerem isso numa tela, sozinho, em looping. É franzino, está sem dinheiro e acostumado a apanhar. O que muda a vida dele não é uma vitória, mas o instante em que um estranho o filma levando uma surra e o vídeo encontra um público disposto a ver a próxima.

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Esse é o verdadeiro motor da série, e a ideia é mais fria do que a coreografia sugere. Não importa se um garoto magro consegue bater mais forte que um grandão. Importa que exista um mercado pagando pelas imagens da tentativa. Kota não briga por coragem nem orgulho: o corpo é o único bem que ele consegue transformar em dinheiro rápido o bastante para segurar as contas médicas da mãe e a dívida que aperta em casa. Ele logo calcula quanto vale um hematoma, e leva jeito para a conta.

O título japonês, Kenka Dokugaku, quer dizer mais ou menos aprender a brigar por conta própria, e a série leva isso ao pé da letra. Kota estuda técnica em vídeos, treina sozinho e testa em público, onde se grava o próximo clipe. É o mesmo ciclo que construiu o público que agora o sustenta. Ele é um lutador montado pela internet, que luta para a internet, e a série nunca finge que dá para separar as duas coisas.

Takeuchi filma quase toda briga para ser vista duas vezes: a câmera de dentro da história, o celular que registra Kota para os seguidores, e a câmera pela qual nós olhamos. As duas vivem se confundindo. O efeito incomoda de propósito, porque não existe ângulo neutro sobre esse garoto: assistir à série é ocupar a mesma cadeira dos espectadores pagantes que o querem de volta no ringue na semana seguinte.

O diretor ficou conhecido por comédias populares como Tonde Saitama e a versão live-action de Cells at Work!, e a surpresa está em como ele aponta esse instinto de grande público para algo cruel. Sempre soube ler a plateia e montar uma cena para a última fileira; aqui esse dom faz a violência parecer projetada para ser compartilhada, que é justamente o ponto. Ōji Suzuka responde recusando o brilho habitual de herói: seu Kota tem medo, calcula e se deixa corromper um pouco pelo quanto o cálculo paga.

O que a série digere não é só ficção. Pertence a um momento que repete a uma geração inteira que qualquer habilidade, qualquer corpo, qualquer humilhação vira conteúdo, e que ficar fora de cena também é uma decisão financeira. A dívida de Kota é o motor sobre o qual as brigas barulhentas são parafusadas. O dinheiro fica sempre em quadro — as contas, as visualizações, a parte da plataforma — de modo que a briga parece menos aventura e mais um trabalho do qual ele não consegue sair.

O material de origem explica por que a Netflix foi atrás. Viral Hit nasceu como webtoon coreano em 2019 e foi lido bilhões de vezes; no início deste ano a editora contava 5,4 bilhões de leituras na Coreia e 22,8 bilhões no mundo. Esse número hoje destrava um sinal verde com mais segurança que qualquer estrela, a mesma lógica que levou Sweet Home e Estamos Mortos da página para a plataforma.

Viral Hit - Netflix

A pergunta que a série não pode se dar ao luxo de responder é direta: quando um público paga para ver você lutar, vencer deixa de ser o objetivo. O objetivo é o clipe. O verdadeiro adversário de Kota nunca foi o garoto maior no terreno baldio, e sim a estrutura que precisa que ele sangre, porque quem vence calado e vai embora não tem mais nada a vender.

Hit viral estreia em 11 de junho na Netflix, no mundo todo. Ōji Suzuka encabeça o elenco como Kota Shimura, ao lado de Ai Mikami, Araki Sugō, Meru Nukumi, Yūsuke Iseya e Mieko Harada. Dirigida por Hideki Takeuchi e escrita por Yuichi Tokunaga, é a primeira série da dupla para a Netflix, adaptada do webtoon criado por Taejun Pak.

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