Análise

A dupla carreira de Adam Sandler que a crítica ainda recusa aceitar

Molly Se-kyung

Happy Gilmore 2 revela, sem querer, o problema central da carreira de Adam Sandler. No filme original de 1996, Happy era um outsider — um ex-jogador de hóquei cuja agressividade inconrolável ameaçava o establishment refinado do golfe. A sequência o mostra completamente integrado a esse mesmo establishment. Como observou o crítico Michael Ordoña no The Wrap, os melhores jogadores do circuito o admiram demais para se incomodarem com ele. Os famosos acessos de raiva agora precisam ser convocados deliberadamente; Happy tem que “se colocar nesse estado”. O rebelde entrou para o clube. O clube o recebeu de braços abertos.

Os críticos leram isso como uma falha de tom. O que demoraram mais a perceber é que também é autobiografia.

No mesmo ano em que Happy Gilmore 2 foi classificada como sequência para fãs — “estritamente para os fãs”, segundo o Hollywood Reporter — Sandler recebia indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice por seu papel de apoio em Jay Kelly, a dramédia de Noah Baumbach na mesma plataforma. Ele interpretou Ron Sukenick, o empresário de uma estrela envelhecida de Hollywood interpretada por George Clooney. The Ankler descreveu seu trabalho como “uma mistura magistral de humor e coração”. Ele perdeu o Globo para Stellan Skarsgård. Depois comentou, com a ironia refinada em trinta anos de carreira, que os outros indicados eram simplesmente melhores em “puxar o saco”.

Isso não é uma carreira em contradição. É uma carreira em operação paralela.

Desde que Paul Thomas Anderson o escalou em Punch-Drunk Love, em 2002, Sandler mantém a mesma dupla via: comédias populares que garantem a confiança do público em massa, e papéis dramáticos que exploram exatamente essa energia peculiar que as comédias constroem ao longo dos anos.

O exemplo mais claro ainda é Uncut Gems. Em 2019, os irmãos Safdie construíram o filme em torno da energia cinética específica de Sandler — maníaca, desestabilizante, incapaz de parar — e os prêmios responderam. Os Independent Spirit Awards o premiaram como Melhor Ator. A Academia não o indicou. Sua resposta pública foi anunciar que faria deliberadamente um “filme terrível”. Em seguida lançou Hubie Halloween. Não era ironia. Era exatamente o que pretendia fazer.

O que a crítica continua relutando em aceitar é que Happy Gilmore 2 não é um intervalo entre Jay Kelly e o próximo projeto sério. Faz parte da mesma estrutura. A confiabilidade comercial de Sandler no Netflix — seus filmes ficam semanas no top 10 global da plataforma — é exatamente o que torna viável uma colaboração com Noah Baumbach no mesmo serviço. Os filmes que os críticos desprezam não são separáveis dos que consideram dignos de prêmios. São financiados pela mesma relação de confiança com um público fiel há três décadas.

Em janeiro de 2026, Sandler recebeu o Prêmio de Carreira no AARP Movies for Grownups, apresentado por Henry Winkler, que destacou que sob a reputação cômica de Sandler existe “esse maravilhoso e sincero ator dramático” — e acrescentou que ele “nunca trocou a camisa havaiana e o short esportivo”. O enquadramento era carinhoso. O que descreve involuntariamente é um establishment crítico que processa a dualidade de Sandler como disfarce. A metáfora está errada. Não há um “embaixo”. Ambos estão na superfície, simultaneamente, desde pelo menos 2002.

O que os fatos mostram e o que permanece em debate

Os fatos verificados da posição de Adam Sandler em 2025-26 não estão em disputa. Ele lançou uma sequência que publicações como Hollywood Reporter e The Wrap classificaram como entretenimento competente para fãs. Recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice por uma performance dramática coadjuvante que outro setor da crítica julgou genuinamente destacada. Recebeu um prêmio de carreira de uma organização que citou sua capacidade de fazer a ponte entre comédia e drama. Sua exclusão do Oscar por Jay Kelly dá continuidade a um padrão que remonta a Punch-Drunk Love e Uncut Gems.

O que divide a interpretação é se essa produção dupla constitui uma estratégia criativa coerente ou dois modos genuinamente separados. O que torna difícil ignorar a evidência do Netflix é que a própria plataforma não trata os dois modos como distintos: ela os oferece ao mesmo público, sob o mesmo nome. A surpresa é que a crítica continue achando isso surpreendente.

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