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Caminhos da Sobrevivência: Tim Mielants e dois jovens policiais proibidos de agir em Antuérpia, 1942

Alice Lange
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Caminhos da Sobrevivência, de Tim Mielants, lançado pela Netflix internacionalmente como WILL, adapta o premiado romance de Jeroen Olyslaegers sobre dois policiais auxiliares na Antuérpia ocupada pelos nazistas, e arrasou nos Ensors de 2024 antes de chegar a um público mundial no streaming.

Caminhos da Sobrevivência (Wil, no original; WILL na Netflix internacional), o drama de guerra belga de 2023 que a Netflix lançou no mundo todo em 31 de janeiro de 2024, parte de uma ordem pequena com consequências longas. Em 1942, na Antuérpia sob ocupação alemã, dois rapazes começam a trabalhar como policiais auxiliares, e o comissário deles manda que fiquem de lado e não interfiram em nada do que os alemães fizerem. O filme, dirigido por Tim Mielants e adaptado do romance de 2016 de Jeroen Olyslaegers, acompanha o que acontece quando os dois ignoram esse conselho uma única vez e depois precisam conviver com as consequências.

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Uma patrulha, um corpo e uma cidade ocupada

Stef Aerts interpreta Wilfried Wils, conhecido como Wil, e Matteo Simoni vive o colega dele, Lode Metdepenningen. Na primeira patrulha, um policial militar alemão ordena que os dois ajudem a prender uma família judia. Quando o soldado parte para a violência contra uma mãe e o filho dela, os dois policiais intervêm, e na briga o alemão morre. Eles escondem o corpo. A partir daí, a história vira um drama policial em que os próprios policiais também são as pessoas que têm algo a esconder.

Enquanto a investigação alemã se aperta sob o comando do oficial da SS Gregor Schnabel, papel de Dimitrij Schaad, Wil busca proteção com Felix Verschaffel, um colaboracionista que diz ter amigos do lado alemão, interpretado por Dirk Roofthooft. Yvette, irmã de Lode, vivida pela estreante Annelore Crollet, é próxima de Wil e fica cada vez menos segura sobre de que lado ele está. Com Lode, Yvette e integrantes da resistência local, Wil ajuda a esconder a família judia que eles encontraram naquela primeira patrulha na casa de Chaim Litzke, papel do ator holandês Pierre Bokma. A pressão cresce rumo a uma batida policial e a uma escolha que Wil já não consegue adiar.

A premissa é de thriller, com uma morte, um corpo escondido e uma investigação, mas a pergunta por baixo dela é a que tornou o romance famoso em Flandres: como pessoas comuns acabam fazendo o que um ocupante quer delas. O título brinca com isso. Wil é o apelido do protagonista e, em holandês, a palavra também significa vontade, no sentido de querer e pretender algo. A Netflix acrescentou um segundo L no lançamento internacional, de modo que o mesmo filme aparece como Wil nas listagens belgas e como WILL na plataforma.

De um romance premiado para a tela

Jeroen Olyslaegers, nascido em Mortsel em 1967, é romancista e dramaturgo e escreveu para companhias de teatro flamengas e para o artista Jan Fabre antes do romance que o tornou conhecido. WIL, publicado pela De Bezige Bij em agosto de 2016, foi o terceiro livro de uma série solta de romances cujos títulos começam todos com W, depois de WIJ (Nós), de 2009, e WINST (Lucro), de 2012. O livro ganhou o Fintro Literatuurprijs tanto do júri quanto dos leitores, o prêmio dos livreiros Confituur, o F. Bordewijk Prize e o prêmio Tzum de melhor frase literária do ano, e em 2023 já tinha sido traduzido para oito idiomas.

No livro, um Wilfried já idoso conta sua história anos depois a um de seus descendentes, o que dá ao romance a forma de uma confissão feita à distância. O roteiro foi escrito por Carl Joos, roteirista flamengo veterano com créditos como De Premier e Ritueel, em parceria com Tim Mielants. Há também uma coincidência local por trás da adaptação: o diretor e o romancista nasceram ambos em Mortsel, cidade no limite sul da Antuérpia, a cidade onde a história se passa.

Tim Mielants, entre Peaky Blinders e Cillian Murphy

Tim Mielants, nascido em 1979, fez carreira na televisão flamenga, dirigindo episódios de Code 37, Cordon e Professor T., antes de trabalhar no exterior em The Tunnel, na terceira temporada inteira de Peaky Blinders em 2016, em Legion, The Terror, Tales from the Loop e nos episódios de abertura de The Responder. Seu primeiro longa, De Patrick (2019), inspirado em verões da infância num camping naturista francês, rendeu a ele o prêmio de melhor direção no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary.

Caminhos da Sobrevivência foi seu segundo longa e um empreendimento muito maior: uma produção de época espalhada por três países, com um elenco tirado do primeiro escalão da atuação belga e holandesa. O filme veio pouco antes dos dois trabalhos que o levaram mais longe no cinema internacional. Pequenas Coisas Como Estas, com Cillian Murphy, abriu o Festival Internacional de Cinema de Berlim em fevereiro de 2024, poucas semanas depois de Caminhos da Sobrevivência chegar à Netflix, e Steve veio em seguida, em 2025, de novo com Murphy no papel principal. Em 2025, Mielants também recebeu o prêmio flamengo Ultima de cinema e mídia visual referente ao ano de 2024.

Dois protagonistas que já tinham trabalhado juntos

Stef Aerts, nascido em Turnhout em 1987, é membro do coletivo teatral FC Bergman e é conhecido nas telas por Adem (2010) e por Belgica (2016), de Felix Van Groeningen. Matteo Simoni, nascido no mesmo ano em Hasselt, foi o protagonista de Marina (2013), de Stijn Coninx, foi um dos European Shooting Stars da Berlinale em 2018 e ganhou um Ensor em 2023 por seu papel coadjuvante em Zillion. Os dois já tinham dividido a tela como protagonistas da série flamenga Callboys, que rendeu a eles e aos colegas de elenco um prêmio conjunto de atuação no festival FIPA, em Biarritz, em 2017.

Em volta deles, Mielants montou um elenco amplo. Jan Bijvoet interpreta o comissário de polícia Jean, e o elenco inclui ainda Jan Decleir, Els Dottermans, Koen De Bouw, Kevin Janssens, Gene Bervoets e Sofie Decleir, da Bélgica, Pierre Bokma e Karina Smulders, dos Países Baixos, e os atores alemães Dimitrij Schaad e Pit Bukowski. Annelore Crollet, então em início de carreira, completou o trio central, que os produtores apresentaram como três jovens tentando sobreviver numa cidade ocupada.

Uma produção de três países

Caminhos da Sobrevivência foi produzido pela Lecter Scripted Media, pela Menuetto Film e pela Minds Meet, em coprodução com a Les Films du Fleuve, da Valônia, a Topkapi Films, dos Países Baixos, e a K&K Selekt Films, da Polônia. Entre os financiadores estavam o fundo flamengo de cinema VAF, a Screen Flanders, o centro de cinema da Bélgica francófona CCA, o tax shelter belga, o Fundo de Cinema dos Países Baixos e, já na fase de filmagem, a Kinepolis Film Distribution e a Netflix. As filmagens começaram em maio de 2022 e foram até meados de julho, na Bélgica e na Polônia. Os diálogos são majoritariamente em holandês flamengo, com alemão e francês nos momentos em que a ocupação e a cidade exigem.

Atrás das câmeras, a direção de fotografia ficou com Robrecht Heyvaert, cujos créditos anteriores incluem Zillion, Patser e a continuação hollywoodiana Bad Boys Para Sempre. A trilha sonora é de Geert Hellings, a montagem de Bert Jacobs e o design de produção de Bart Van Loo, que teve a tarefa de reconstruir uma Antuérpia de tempos de guerra, a de 1942.

A Antuérpia de 1942

O cenário não é uma cidade abstrata em tempos de guerra. No verão de 1942, os ocupantes alemães começaram as prisões em massa de judeus na Bélgica e, na Antuérpia, em agosto daquele ano, policiais locais participaram de batidas em bairros judeus, enquanto as autoridades de Bruxelas se recusaram a colocar sua polícia à disposição do ocupante para o mesmo trabalho. Um estudo de 2007 encomendado pelo Senado belga, publicado como Gewillig België (Bélgica Dócil), documentou essa cooperação em detalhes. A maioria dos judeus deportados da Bélgica passou pelo quartel Kazerne Dossin, em Mechelen, entre a Antuérpia e Bruxelas, e só uma pequena minoria das mais de 25.000 pessoas enviadas dali para o leste sobreviveu.

Essa é a história em que o romance e o filme se apoiam. Uma dupla de policiais auxiliares mandada a ficar de lado está muito perto das escolhas que a polícia real da cidade enfrentou, e é por isso que a história chegou a Flandres como algo mais do que um thriller de época. Ela pede ao público local que olhe para as próprias ruas, as próprias instituições e, por extensão, as próprias famílias.

Ensors, bilheteria e os números da Netflix

Caminhos da Sobrevivência estreou nos cinemas belgas em 27 de setembro de 2023 pela Kinepolis Film Distribution e se tornou um dos sucessos locais de bilheteria daquele outono, com a Paradiso cuidando do lançamento nos Países Baixos. Em outubro de 2023, Mielants recebeu pelo filme o prêmio Jo Röpcke, da revista Knack Focus. Nos Ensors, os prêmios flamengos de cinema e televisão entregues no festival de cinema de Ostende, o filme chegou à cerimônia de 3 de fevereiro de 2024 com 14 indicações e saiu com sete prêmios, entre eles melhor filme, melhor direção para Tim Mielants, melhor roteiro para Carl Joos, melhor ator para Stef Aerts e melhor ator coadjuvante para Jan Bijvoet.

A Netflix, que tinha apoiado a produção, lançou o filme no mundo todo em 31 de janeiro de 2024 como WILL, com versões dubladas em idiomas como inglês, espanhol, alemão, italiano, português, turco, tcheco e híndi. Na primeira semana, foi o quinto filme de língua não inglesa mais visto na Netflix no mundo, com 3,4 milhões de visualizações, e entrou no top 10 nacional de 16 países, da Espanha, Itália e Polônia à Argentina e ao Uruguai, além de liderar o ranking na Bélgica. Na segunda semana, subiu para o quarto lugar global, com mais 2,6 milhões de visualizações.

O lugar de Caminhos da Sobrevivência

Caminhos da Sobrevivência faz parte de uma leva de produções europeias sobre a Segunda Guerra Mundial que a Netflix levou a um público global, ao lado do holandês The Forgotten Battle e do norueguês Narvik. Seu foco é mais estreito que o de ambos: não uma linha de frente, mas uma delegacia; não soldados, mas servidores públicos de uniforme; e uma história em que a investigação e a questão moral são a mesma coisa.

Até que ponto funciona esse equilíbrio entre thriller e acerto de contas cabe a cada espectador julgar. O que os registros mostram é que um romance flamengo sobre colaboracionismo, escrito para um público leitor local, virou um filme com sete Ensors e depois um lançamento global da Netflix, e que sua pergunta central, o que você faz quando mandam você olhar para o outro lado, viajou muito além da Antuérpia.

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