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Mungiu leva Cannes pela segunda vez e mostra que o cinema de autor ainda manda no Festival

Molly Se-kyung

A pergunta que corria por baixo de toda a competição era se um júri premiaria um filme que se recusa a tomar partido, e Fjord respondeu. Cristian Mungiu construiu sua Palma de Ouro em torno de um casal evangélico romeno que se muda para a remota cidade natal dela, na Noruega, e descobre que o seu jeito de criar os filhos é lido, pelos serviços sociais locais, como abuso. Nem os pais nem o Estado são escritos como um monstro. É essa a aposta inteira, e é das mais difíceis de sustentar.

O que o filme de fato defende é que as instituições e as famílias acreditam falar, as duas, em nome da criança, e que a criança desaparece na fresta que as separa. Mungiu trabalha esse terreno desde sempre — a maquinaria burocrática de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o processo de corrupção escolar de Formação — e Fjord o desloca para o outro lado de uma fronteira, onde o choque já não é uma sociedade discutindo consigo mesma, mas dois sistemas de valores que nem concordam sobre o que conta como dano.

A crítica em Cannes destacou o controle. É o primeiro filme de Mungiu em inglês, e a troca de idioma não amaciou os planos longos e sem corte nem a recusa de sublinhar as emoções do espectador que definem o seu cinema. Sebastian Stan interpreta o pai como um homem cuja certeza é também a sua armadilha; Renate Reinsve, de volta ao festival que ajudou a lançá-la, dá à mãe o rosto da primeira a sentir o chão ceder. O elenco é o argumento: dois intérpretes que o público associa a registros muito diferentes, obrigados a dividir uma única pressão moral.

A vitória coroa um arco específico. Mungiu se torna o décimo diretor com duas Palmas, dezenove anos depois da primeira, e consegue isso deixando para trás o realismo em língua romena que definiu a Nova Onda que ajudou a liderar — sem abrir mão de um único enquadramento do seu rigor. Para a Neon, a distribuidora que já venceu o prêmio principal sete anos seguidos, Fjord é mais um dado em um padrão que deixou de parecer sorte.

O que ele não resolve é justamente aquilo que tem a honestidade de deixar em aberto. O filme se recusa a dizer ao espectador qual autoridade deveria vencer, e alguns vão ler essa equidistância como fuga, e não como maturidade: uma recusa de chamar o castigo físico pelo nome que a lei lhe dá. Esse debate está embutido no filme, não resolvido por ele, e é a razão pela qual a conversa em torno de Fjord não vai terminar com a cerimônia.

O caminho à frente é incomumente claro para uma Palma. A virada de Mungiu para o inglês, somada a dois protagonistas reconhecíveis, dá à Neon um filme que viaja para além do circuito de festivais, e uma temporada de prêmios com Stan e Reinsve como rostos é o capítulo seguinte mais óbvio. Fjord estreia em circuito amplo mais para o fim do ano; a pergunta mais difícil — se um filme tão dedicado ao desconforto consegue segurar um público amplo com a mesma firmeza com que segurou o júri — será a estreia a responder.

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