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Cannes 2026 não tem favorito único: Mungiu, Zviáguintsev e Los Javis dividem os principais prêmios

Martha Lucas

A 79ª edição do Festival de Cannes não terminou com uma coroação, e sim com uma partilha. Cristian Mungiu saiu com a Palma de Ouro por Fjord, sua estreia em língua inglesa, e usou o palco para dizer que o estado do mundo não é o melhor, que não se orgulha do que sua geração está deixando para os filhos e que algo precisa mudar. Era o discurso de um cineasta que passou a carreira inteira filmando como as instituições abandonam as pessoas uma decisão burocrática após a outra, e o júri presidido por Park Chan-wook o ouviu. A vitória faz de Mungiu o décimo diretor com duas Palmas, dezenove anos depois de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, e dá à Neon seu sétimo prêmio principal seguido, uma sequência de distribuição sem precedentes na história do festival.

Fjord acompanha um casal evangélico romeno, vivido por Sebastian Stan e Renate Reinsve, que se muda para a remota cidade natal dela, na Noruega, e esbarra de frente em um sistema de proteção à infância que enxerga a criação dos filhos como abuso. Mungiu constrói o filme inteiro sobre esse desencontro — dois sistemas de valores, ambos convencidos de proteger as mesmas crianças — e se recusa a transformar qualquer um dos lados em vilão. É exatamente o nó moral que o júri premiou a noite toda.

O Grande Prêmio foi para Minotauro, de Andrei Zviáguintsev, o primeiro filme do diretor russo exilado desde que uma doença quase o matou. Partindo do esqueleto de A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, ele transforma uma história de adultério em um retrato do poder e da podridão na Rússia do interior, e a sala respondeu à estreia com oito minutos de ovação. Valeska Grisebach recebeu o Prêmio do Júri por A Aventura Sonhada, um filme mais contido que a crítica havia colocado entre os melhores do festival.

Foi nos prêmios de direção e atuação que o júri mostrou a carta. A Melhor Direção foi dividida entre os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi — a dupla Los Javis — por sua epopeia queer de raiz lorquiana La bola negra, e o polonês Pawel Pawlikowski por Fatherland. O prêmio de Melhor Atriz foi partilhado por Virginie Efira e Tao Okamoto, as duas protagonistas do drama de mais de três horas de Ryusuke Hamaguchi Soudain, sobre a diretora de uma casa de repouso e uma dramaturga em estado terminal, dois trabalhos que o júri não quis separar. O prêmio masculino também dobrou, para Emmanuel Macchia e Valentin Campagne em Coward, de Lukas Dhont. Emmanuel Marre venceu o de Melhor Roteiro por A Man of His Time, e a Câmera de Ouro de melhor primeiro filme foi para Ben’Imana, de Marie-Clementine Dusabejambo.

A conversa começou antes mesmo de abrirem os envelopes, e girava em torno de Fatherland. O filme de Pawlikowski terminou no topo do grid da crítica da Screen International, o que o festival tem de mais próximo de uma cotação diária, e um líder do grid que não ganha a Palma sempre vira notícia. Uma Melhor Direção dividida se lê, por um ângulo, como um júri que admira o ofício mas declina coroar o filme. A partilha com Los Javis só afiou essa leitura: dois filmes muito diferentes, uma estatueta, nenhuma hierarquia clara.

Houve mãos mais vazias do que a de Pawlikowski. Hope, de Na Hong-jin, que reuniu algumas das melhores críticas individuais da competição, saiu sem nada, e o mesmo aconteceu com Paper Tiger, de James Gray, que segue sendo, depois de anos de fidelidade a Cannes, um diretor que o festival adora e os júris contornam. Nenhuma das ausências gerou escândalo, mas as duas alimentaram o velho debate sobre o quanto o gosto de um júri deve se aproximar do da sala de imprensa.

A verdadeira surpresa foi estrutural. O grupo de Park Chan-wook empatou três de seus prêmios — direção, ator e atriz —, o que é menos uma série de acasos do que uma filosofia. Um júri que se recusa a escolher entre duas atuações ou dois cineastas defende que o cinema deste ano resistia à lógica do vencedor único, e a amplitude do palmarès, entre filmes romeno, russo, espanhol, polonês, francês, japonês e belga, desenha o mapa deliberado de uma competição que o júri via como equilibrada como poucas. Que Fjord tenha se erguido sobre um campo tão plano diz o quanto o filme de Mungiu uniu a sala.

O que muda agora é o percurso. A Neon leva mais uma vencedora da Palma para a temporada de prêmios com Sebastian Stan e Renate Reinsve como rostos, e uma sétima vitória seguida transforma o instinto da distribuidora em um sistema que vale estudar. La bola negra deixou Cannes com um acordo nos Estados Unidos com a Netflix e uma estreia nos cinemas da Espanha prevista para o outono europeu. A Palma de Ouro honorária foi para Barbra Streisand, entregue por Isabelle Huppert, fechando a 79ª edição sobre o senso de linhagem do próprio festival. Os filmes da competição agora se espalham rumo à estreia; o debate sobre se o júri acertou vai sobreviver a todos eles.

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