Filmes

Uma Noite Alucinante 2, o filme em que Sam Raimi soltou a câmera como uma criatura

Jun Satō

O monstro em Uma Noite Alucinante 2 não é o livro, e não é a coisa no porão. É a câmera. Sam Raimi a parafusa numa tábua, carrega em disparada, arremessa entre as árvores e deixa que ela avance em direção à cabana como se tivesse fome. O filme é construído em torno desse movimento. Todo o resto — o gore, as piadas, os gritos — pendurado num enquadramento que se recusa a parar, e esse único instinto é o motivo pelo qual o filme ainda parece moderno quando a maioria dos seus imitadores virou mobília.

A premissa é deliberadamente rala. Ash está de volta à cabana isolada, o Livro dos Mortos é lido em voz alta mais uma vez, e a floresta acorda. Bruce Campbell o interpreta quase sozinho por longos trechos, um homem brigando com o quarto, as paredes e, afinal, a própria mão direita. Raimi, que escreveu o roteiro com Scott Spiegel, trata o enredo mal lembrado do primeiro filme como pista de decolagem, não como história — um jeito de deixar Ash isolado, consciente e disponível para noventa minutos de castigo físico. A sequência não explica. Ela acelera.

YouTube video

A câmera como o bicho

Raimi cresceu fazendo curtas com amigos, e o aparato que o tornou famoso aqui — a câmera aparafusada num pedaço de madeira, operada por duas pessoas correndo — transforma o demônio em pura câmera subjetiva. Nunca o vemos. Nos tornamos ele. Com Peter Deming atrás da lente, o filme não para de encontrar ângulos baixos, rápidos e rasantes que uma produção mais cautelosa jamais tentaria: o chão avançando, o teto inclinando, a mata passando a centímetros do tornozelo. A imagem faz o trabalho que um traje de monstro normalmente faria — mais barato, mais rápido, com mais ameaça.

Bruce Campbell como Ash Williams e os sobreviventes da cabana em Uma Noite Alucinante 2 (1987), dirigido por Sam Raimi
Os sobreviventes presos na cabana em Uma Noite Alucinante 2 (1987).

Comédia na velocidade do horror

O que Raimi descobriu, e o que o filme codificou, é um registro que críticos mais tarde batizaram de splatstick — horror encenado no ritmo da pastelão. O sangue chega em volume de desenho animado e cores improváveis; o timing pertence aos Três Patetas; a violência é coreografada para provocar gargalhada e arrepio no mesmo compasso. Campbell é o instrumento de tudo isso. A briga com a própria mão possuída, a sala de risos onde os móveis se viram contra ele, a motosserra adaptada no toco do braço — são performance, não efeito especial, e exigem um corpo disposto a ser jogado pelo cenário para que a piada funcione.

Som, textura e o feito à mão

A textura é o que menos envelhece. Os deadites são próteses e stop-motion; as reanimações travam e se contorcem com um peso artesanal que nenhuma renderização limpa jamais igualou. Joseph LoDuca assina a trilha inteira como se fosse grande ópera — orquestra completa, exaltada e sincera, tocada a sério diante do absurdo que acontece na tela. Esse abismo entre a seriedade da música e a travessura da imagem é a piada e o ofício ao mesmo tempo. O filme acredita nas próprias superfícies, e pede que você as aprecie como superfícies.

Por que ele dura

Uma Noite Alucinante 2 é uma sequência que refaz pela metade o original e acaba eclipsando-o — porque sabe exatamente o que é e se compromete sem desculpas. Transformou Ash em ícone, deu ao horror-comédia sua gramática, e levou o olhar cinético de Raimi diretamente para tudo o que ele fez depois, até a escala dos estúdios. Tire a fumaça e o sangue falso, e o que resta é uma aula de economia: dê à câmera algo para querer, deixe ela mover, e o gênero se reorganiza em torno disso.

Direção

Sam Raimi

Sam Raimi

Elenco

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.