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Find Her tem clima de sobra, mas não merece as comparações com os grandes neo-noirs

O filme independente de Nick McCallum (2022) aposta em sombras longas e narração, não em quebra-cabeças.
Martha O'Hara
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Basile, na Louisiana, é onde foi rodada a maior parte de Find Her, drama de mistério de Nick McCallum que veste o neo-noir sem esconder as costuras. McCallum assina o roteiro, a direção e a produção, e ainda faz o papel principal. O filme sai da Kaczmarek Digital Media Group e, segundo o MovieWeb, dura quase 90 minutos. A duração é curta e a ambição é grande, e as duas coisas se veem na tela.

Isaiah Slade, o ex-policial interpretado pelo próprio McCallum, chega a uma cidade pequena atrás de respostas sobre o assassinato de um dono de rancho e o sumiço da filha dele. Logo fica claro que Slade tem motivos pessoais para estar ali, e a pergunta que move a trama deixa de ser só quem matou e passa a ser o que ele quer de verdade. O MovieWeb conta que o filme foi apresentado como uma mistura de Brick com Gone Baby Gone e diz que, nos melhores momentos, seu universo onírico lembra L.A. Confidential e Memento. A régua é alta demais para o resultado, mas mostra o que Find Her persegue: um noir de clima, em que a cidade pesa tanto quanto o caso.

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O clima, aliás, é o que o filme faz de melhor. A fotografia de Evan Zissimopulos é nítida e trabalha com o sol baixo, que estica as sombras pelo quadro, como observa o Blazing Minds. O mesmo texto nota que, embora a filmagem tenha sido feita no Sul dos Estados Unidos, as paisagens amplas aparecem em cores bem definidas e criam uma atmosfera mais fria e agourenta do que o cenário faria supor. Esse contraste dá a Find Her uma identidade visual própria e sustenta as cenas em que o roteiro anda devagar. Quando a imagem pesa mais que o diálogo, o filme convence.

O problema de Slade é a distância. McCallum o compõe com a aparência de quem já rodou muito, o verniz de “já vi de tudo” de que fala o MovieWeb, e o personagem, que também narra a história, segue o manual: infeliz, dado a se automedicar, incapaz de evitar as más decisões. Num noir, ninguém espera outra coisa. A voz em off tem frases que funcionam como textura, como “There’s always a lot of chatter in a place like this when something happens to a man like that” e “There’s plenty of stories between these twisted branches”, que o MovieWeb aponta como acertos. Concordo que soam bem, mas o tom impassível do protagonista cobra seu preço. O Blazing Minds diz que a expressão imutável dele dificulta sentir qualquer coisa pelo personagem, e a observação procede: faltou dar a Slade alguma fragilidade visível, e o vão entre ele e a comunidade que investiga nunca se fecha.

As personagens femininas têm mais corpo. Brandy Warner, vivida por Anais Lilit, é descrita pelo MovieWeb como aspirante a estrela pop, jovem namorada do rancheiro assassinado e filha de Garrett Warner, o mais rico proprietário de terras do condado. Quando Slade se envolve com ela, o pano de fundo se abre: Robert Marks estava endividado e, ao que tudo indica, o pai de Brandy acabará ficando com o rancho. É aí que o caso ganha interesse, porque dinheiro e família passam a ocupar o lugar do mistério abstrato. O Blazing Minds destaca Lilit, ao lado de Rebecca Lines, entre as atrizes que trazem energia e dinamismo aos papéis, e é nas cenas de Brandy que o filme tem mais vida.

Em volta dela, a cidade se fecha. O MovieWeb fala em moradores excêntricos que dificultam a vida de Slade, entre eles o chefe de polícia Bill Landon, de Richard Gunn, e o homem dos cavalos Felix Leonard, de Stelio Savante. Essa resistência é o que justifica a permanência do protagonista, e é uma boa mola para um noir: quanto mais portas se fecham, mais Slade insiste. Os dois funcionam como peças do obstáculo coletivo que a cidade impõe ao forasteiro.

A estrutura é a escolha mais discutível. O filme avança em linha reta, sem saltos no tempo, e o Blazing Minds elogia essa simplicidade: a trama é fácil de acompanhar e tem ritmo parelho, apesar das reviravoltas. O MovieWeb vê as revelações chegando camada por camada, cada uma acrescentando um dado ao caso da morte de Marks e do desaparecimento de Sloane. Para quem quer um mistério limpo, funciona. Para o fã de noir que espera ambiguidade e uma narrativa quebrada, como o próprio Blazing Minds admite, o método soa lento e burocrático, quase de procedimento policial. Fico mais perto da segunda leitura: a clareza é virtude, mas um gênero feito de neblina moral pede mais névoa.

Há ainda um projeto maior por trás. O MovieWeb sugere que McCallum parte da intenção pessoal de fazer uma série de filmes sobre alguém que tenta “encontrá-la”, seja irmã, mãe ou esposa. Isso dá ao título um sentido de programa e faz o filme parecer o primeiro capítulo de um método, não uma história fechada em si mesma. Acumular quatro funções exige disciplina, e McCallum mostra conhecer o material. Falta-lhe, como ator, a abertura emocional que o papel pedia.

O que fica de Find Her é a luz baixa sobre as paisagens do Sul, a voz em off de frases bem escolhidas e a relação entre Brandy e Slade, que é onde o dinheiro, a família e o crime se encontram. O protagonista distante e a linearidade excessiva seguram o filme no chão. Quem entra atrás de atmosfera sai servido; quem procura um personagem pelo qual sentir algo sai de mãos vazias.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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