Filmes

Zoey Deutch persegue Jon Hamm por Hollywood na nova comédia de David Wain

Molly Se-kyung

Para Gail Daughtry, um “passe de celebridade” deveria ser a fantasia mais segura que existe — uma hipótese, uma piada de quarto, um nome que ela nunca espera de fato encontrar. Até que o noivo usa o dele. O novo filme de David Wain, “Gail Daughtry and the Celebrity Sex Pass”, transforma essa humilhação em uma comédia de estrada e envia a protagonista vivida por Zoey Deutch a Los Angeles para cobrar o próprio passe — mirando o único rosto famoso com quem ela decide acertar as contas: Jon Hamm, no papel de si mesmo.

A premissa é tão ampla e debochada quanto o título. Gail é uma noiva do Meio-Oeste cuja vida organizada desmorona no instante em que o parceiro leva a sério o que era só uma piada de cama. Magoada e sem rumo, ela ruma para o oeste com uma amiga e uma mágoa, convencida — com o empurrão de uma vidente — de que o único jeito de salvar a relação é equilibrar a balança. Wain, a partir de um roteiro que assina com o parceiro de longa data Ken Marino, encara a viagem como fantasia de vingança e, ao mesmo tempo, como uma sátira nervosa de uma indústria movida a acesso, proximidade e a ilusão de que a fama é algo que se pega com a mão.

YouTube video

Hamm é o motor da piada central, e não é o único veterano de “Mad Men” disposto a ser o alvo. John Slattery também aparece como si mesmo e estende uma veia de autoironia que virou um dos registros mais confiáveis de Hamm: o galã impossivelmente bonito que entra em toda piada sobre ser impossivelmente bonito. O recurso permite a Wain encenar a fama como uma casa mal-assombrada, em que cada porta se abre para uma estrela feliz em caricaturar a ideia pública de quem ela é.

À volta deles, Wain reúne o tipo de elenco coral que marca seus filmes. Marino fica com um papel coadjuvante ao lado de Thomas Lennon, Richard Kind e Sabrina Impacciatore, enquanto Ben Wang — emendando uma sequência de protagonismos — vive o jovem companheiro de viagem puxado para a órbita de Gail. É um elenco montado menos pelo brilho das estrelas do que pela densidade do timing cômico, capaz de salvar uma cena fraca só na entrega.

Para Wain e Marino, o projeto é terreno conhecido com um gancho mais explosivo. Juntos, ajudaram a definir certa comédia do absurdo americana com “Wet Hot American Summer” e, depois, “They Came Together”, filmes que tratam as fórmulas de gênero como uma piñata a ser estourada. As comédias mais comerciais de Wain — “Role Models”, “Wanderlust” — mostraram que ele sabe sustentar uma premissa apimentada sem abrir mão da ternura por baixo. “Gail Daughtry” se lê como uma tentativa de trançar os dois impulsos.

O filme também entrega a Zoey Deutch seu papel mais amplo até aqui. Conhecida por uma comédia mais afiada e contida, aqui ela precisa carregar um longa cuja premissa inteira desafia o público a torcer por uma heroína que se comporta mal de propósito. Deutch passou anos roubando cenas em filmes alheios; desta vez, a fita depende inteiramente de ela conseguir sustentar o próprio.

O filme construiu sua reputação no circuito antes de ter uma casa. Estreou no Festival de Sundance e passou por Tribeca, pelo Festival de Nantucket e pelo de Sydney, juntando o boca a boca que transforma um título escandaloso em venda. A Sony Pictures Classics acabou adquirindo os direitos globais, à frente — segundo a imprensa especializada — de Republic Pictures, Lionsgate e Vertical: uma aposta e tanto em uma comédia de orçamento médio com estrelas, num momento em que esse tipo de filme quase não chega mais aos cinemas.

O que nenhuma campanha consegue provar ainda é se uma única ideia transgressora sustenta noventa e três minutos. O “passe sexual de celebridade” é uma ótima sinopse e um motor de longa-metragem frágil: comédias erguidas sobre uma só provocação tendem a gastar o melhor material no primeiro ato. Escalar estrelas reais como versões infladas de si mesmas é uma piada de meia-vida curta, e a sorte do filme vai depender menos de quantos rostos conhecidos topam ser a piada do que de Gail ser uma personagem que valha a pena acompanhar quando a novidade passar.

“Gail Daughtry and the Celebrity Sex Pass” estreia nos cinemas dos Estados Unidos em 10 de julho, pela Sony Pictures Classics. A distribuidora detém os direitos globais, mas ainda não há data de estreia confirmada no Brasil.

Elenco

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.