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Colisão: Acidente ou Homicídio? na Netflix não fala de velocidade — fala dos adultos que leram a relação como drama adolescente até dois rapazes morrerem

Veronica Loop

Uma garota de dezessete anos mete o namorado e o melhor amigo dele em um muro de tijolos num domingo de manhã. Todos os que a conheciam descrevem o relacionamento com as mesmas palavras que usariam para qualquer outro casal de ensino médio: intenso, intermitente, dramático. O muro é o que transforma essas palavras em prova.

Colisão: Acidente ou Homicídio? é um documentário sobre a distância entre esses dois vocabulários. O diretor Gareth Johnson, que vem de O Marionetista: Caçando o Maior Estelionatário, se interessa por um tipo muito específico de crime americano: aquele em que a arquitetura de uma vida adolescente comum esconde a arquitetura do dano até que algo físico force a tradução. A colisão em Strongsville, Ohio, não surpreendeu quem estava mais perto de Mackenzie Shirilla. Apenas tornou legível, para quem estava de fora, aquilo que essas pessoas já vinham observando havia meses.

Johnson monta o filme em torno de uma linha do tempo dupla. Cada momento do namoro — as mensagens, as brigas, as reconciliações abruptas — aparece primeiro na ordem em que as amigas de Mackenzie viveram. Depois o mesmo momento volta, agora na ordem que a promotoria reconstruiu a partir dos celulares e das câmeras de vigilância. Os mesmos meses passam duas vezes na tela, uma como volatilidade adolescente e outra como peça de inquérito. É essa duplicação — sem voz em off, sem um especialista batizando o padrão — que sustenta o argumento principal: a segunda leitura sempre esteve disponível. Apenas ninguém a fez.

O argumento do filme não é sobre velocidade nem sobre a adolescente ao volante. É sobre uma comunidade que tinha a imagem inteira e não soube lê-la. As amigas a viram ameaçar Dominic Russo. Os professores viram um ciclo de rompimentos e retornos sincronizados. A família a viu passar diante do prédio que ela acabaria contornando quatro vezes antes do impacto. Nenhuma dessas observações cruzou o limiar da intervenção porque a forma que assumiam — mensagens, brigas, reconciliações — é exatamente a forma que todo adulto americano foi treinado a arquivar como teatro adolescente e deixar passar.

Johnson não permite que o espectador escape dessa leitura mal feita. O filme não abre com o impacto. Abre com os meses anteriores, na cronologia que as amigas viveram: uma relação que o público é autorizado a achar primeiro encantadora, depois instável, depois alarmante, mais ou menos na ordem em que o entorno achou. Os vídeos das câmeras e as provas do processo chegam tarde, na posição que o tribunal lhes impôs. A narrativa é vista duas vezes. A segunda leitura é a acusação contra a primeira.

A disciplina de entrevistas do diretor é o que mantém a estrutura. Não há narrador onisciente. Não há um detetive ordenando a cronologia, não há um especialista nomeando a síndrome. Amigas, parentes e investigadores falam cada um a partir do próprio registro, com o próprio nível de acesso, e o filme aceita as contradições entre eles em vez de resolvê-las. É a mesma escolha procedural que Johnson aplicou em O Marionetista, em que deixou as vítimas de Robert Hendy-Freegard se contradizerem entre si. Aqui, as contradições dentro do depoimento sobre Mackenzie são em si o argumento: uma pessoa que aparecia tão diferente para quem a via todo dia já operava abaixo do nível que a comunidade conseguia ler.

Essa decisão conecta o documentário a uma conversa pública americana que vem fragmentada. O controle coercitivo em relações adolescentes fica abaixo da maioria dos tipos penais — incluído o do estado de Ohio — e portanto invisível para as instituições que lidam com menores. As escolas registram brigas, não padrões. A polícia registra ocorrências, não trajetórias. A acusação contra Shirilla se sustentou só porque uma câmera no prédio atingido captou o Camry contornando o estacionamento e porque o celular guardou as mensagens. Tire uma das duas provas digitais e o caso volta a ser um carro, dois passageiros mortos e uma motorista sobrevivente como única testemunha.

O filme não finge que uma sentença feche a pergunta que ele abre. Doze condenações por crimes graves, duas delas por homicídio qualificado, e prisão perpétua com possibilidade de condicional após quinze anos respondem o que a lei conseguiu provar. Não respondem por que uma relação visível para amigas, escola e família seguiu legível só como melodrama até dois rapazes morrerem dentro de um Camry. Aquilo que a sentença não alcança é a pergunta que o documentário deixa rodando sob cada entrevista — a pergunta endereçada a todos os que viram e leram como outra coisa.

Colisão: Acidente ou Homicídio? estreia globalmente na Netflix em 15 de maio de 2026. Tem direção de Gareth Johnson e produção da RAW, a companhia britânica de O Golpista do Tinder, com Rebecca North e Jonny Taylor como produtores executivos e Angharad Scott como produtora. O filme se concentra no acidente de 31 de julho de 2022 na Alameda Drive, em Strongsville, Ohio, que matou Dominic Russo e Davion Flanagan e levou à condenação por homicídio de Mackenzie Shirilla, hoje presa no Reformatório Feminino de Ohio.

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