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A Batida Perfeita (2020): Tracee Ellis Ross e o papel que sua voz sempre mereceu

Liv Altman

A primeira coisa que Maggie faz em A Batida Perfeita é estender o braço pela janela do carro para apertar um botão que sua chefe — a superestrela do pop Grace Davis — não consegue encontrar. Maggie sabe onde fica cada botão. Ela tem vinte e sete anos e passa três deles sendo brilhante em nome de outra pessoa.

O filme de Nisha Ganatra capta algo que o cinema de bastidores rodeia há um século sem sempre nomear: quem está mais perto do talento costuma carregá-lo tanto quanto o próprio talento. Tracee Ellis Ross interpreta Grace como um monumento à autoconfiança que se calcificou — uma cantora cujo empresário (Ice Cube, que ocupa cada sala em que entra) insiste que ela é valiosa demais para arriscar com material novo. Maggie, por sua vez, é o tipo de personagem que tem razão de maneira tão óbvia que o filme precisa esconder isso dela por setenta minutos.

Ross é o argumento central do filme. Filha de Diana Ross, ela passou anos na televisão — Girlfriends, Black-ish — construindo uma voz cômica que o cinema demorou para usar direito. Aqui ela é usada. Grace Davis é engraçada exatamente porque não sabe que é: sua vaidade é arquitetônica, estrutural. Ross compõe a personagem com uma precisão que a impede de virar caricatura, mesmo quando o roteiro lhe oferece falas de caricatura. A cena em que ela ouve pela primeira vez um dos mixes de Maggie — a mudança no rosto dela, da irritação para a concentração — é, discretamente, um dos melhores momentos de comédia dramática do ano.

Dakota Johnson, que sobreviveu à saga Cinquenta Tons de Cinza sem dano visível aos seus instintos, encontra aqui o tipo de papel que estabelece alcance. Não por ser irreconhecível, mas por tornar visíveis um timing e uma inteligência que outros filmes haviam sufocado sob iluminação suave. Kelvin Harrison Jr. — já destacado em Luce e Waves — traz habilidade musical genuína a David Cliff: ele toca violão, canta, e se comprova na subtrama romântica sem que ela apague seu próprio arco.

O roteiro de Flora Greeson esconde uma virada no segundo ato que reencadra tudo que veio antes — telegrafada com cuidado, ela chega sem sensação de trapaça. A Batida Perfeita chegou em VOD em maio de 2020, privada da estreia nos cinemas que teria merecido. Pertence a uma linhagem que vai de 42nd Street a Nasce uma Estrela e Dreamgirls — histórias sobre o que custa ter voz numa indústria que quer empacotar essa voz. Não é tão ambicioso quanto seus melhores antecessores. Não precisa ser. O que oferece é genuíno: calor, uma história com espinha dorsal real, e duas atuações de mulheres negras que ocupam o centro de uma comédia de estúdio mainstream.

Direção

Nisha Ganatra

Nisha Ganatra

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