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Dakota Johnson: dez anos depois de Cinquenta Tons de Cinza, o que sobrou

Penelope H. Fritz

A história mais fácil sobre Dakota Johnson é a de Anastasia Steele. É também a que ela vem desconstruindo, projeto a projeto, há dez anos. O que distingue sua trajetória não é o sucesso — muitos atores alcançam isso — mas a metodologia com que ela decidiu o que viria depois.

Nasceu em Austin, Texas, em 1989, numa família onde a fama era condição prévia, não conquista. Sua mãe é Melanie Griffith, seu pai Don Johnson, sua avó Tippi Hedren. Aos seis anos, apareceu numa cena de Crazy in Alabama interpretando a filha da mulher que, na vida real, era sua mãe. Depois voltou para a escola. Em 2006, tornou-se Miss Golden Globe — a primeira de segunda geração na história da cerimônia, já que sua mãe exerceu o mesmo papel em 1975. A indústria começou a definir quem ela era antes que ela pudesse fazer isso.

A definição que solidificou tudo chegou em 2015: Anastasia Steele em Cinquenta Tons de Cinza. O filme arrecadou 570 milhões de dólares no mundo. As críticas foram na maior parte duras com o projeto; a atuação de Johnson recebeu mais atenção séria do que o filme ao redor dela. O que poucos notaram foi que, no mesmo ano, ela também estava em A Bigger Splash, o thriller psicológico de Luca Guadagnino filmado na ilha italiana de Pantelleria, num papel de complexidade bem maior. Os dois filmes estrearam no mesmo ano. Um deles a tornou famosa.

Os anos seguintes foram uma recalibração artística consistente. Em 2018, protagonizou o remake de Suspiria de Guadagnino, denso demais em metáforas históricas e físicas para o grande público. Cofundou a produtora TeaTime Pictures, que lhe deu controle sobre o que carregava seu nome. Os papéis ficaram mais interiores, mais seletivos, mais propensos ao circuito de festivais do que às bilheterias de massa.

Mas a trajetória não é isenta de contradições. Madame Web, o filme de super-heróis da Sony em 2024, foi quase unanimemente demolido pela crítica. O tropeço jogou luz sobre uma tensão que percorre toda a carreira: entre o comprometimento artístico que Johnson defende em entrevistas e as decisões que, vez ou outra, contradizem esse discurso. A filmografia é um zigue-zague, não uma linha reta.

O momento de maior síntese veio com Materialists (2025), segundo longa de Celine Song depois de Past Lives, em que ela interpreta Lucy Mason, uma casamenteira de Manhattan presa entre um cliente rico e um ex não resolvido, com Chris Evans e Pedro Pascal. O filme arrecadou 108 milhões de dólares globalmente com orçamento modesto, obteve 77% no Rotten Tomatoes. Devolveu-a ao registro em que é mais convincente — seco, observacional, emocionalmente adjacente, não imerso. Em abril de 2026, entrou na lista TIME 100 das pessoas mais influentes do mundo.

Dakota Johnson in Persuasion (2022)

Sua vida pessoal — uma relação com Chris Martin, do Coldplay, de 2017 a junho de 2025 — ocupou colunas de fofoca sem nunca se deixar ler completamente de fora. Johnson forneceu comentários escassos e calculados. É uma forma de controle que integra o projeto maior.

Em outubro de 2026, estreia Verity ao lado de Anne Hathaway, thriller psicológico de Michael Showalter baseado em Colleen Hoover. Three Incestuous Sisters de Alice Rohrwacher, também com Saoirse Ronan e Josh O’Connor, está em produção. Seu debut na direção, A Tree Is Blue, segue em desenvolvimento. A questão não é mais se Dakota Johnson conseguiu sair da sombra do papel que a lançou. É o que ela faz agora que a sombra já não pesa da mesma forma.

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