Música

Badi Assad mistura voz infantil e adulta para celebrar 35 anos de música

Alice Lange
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Em “Estrada do Sol”, Badi Assad canta em dueto com ela mesma. Não com um arranjo espelhado, nem com uma sobreposição de vozes adultas — mas com uma gravação de arquivo resgatada por seu irmão Sérgio Assad, em que uma criança canta Tom Jobim ainda na mesma tonalidade que a guitarra adulta vai usar décadas depois. Essa faixa está no núcleo de “35 anos musicais” e diz mais sobre o álbum do que qualquer nota de imprensa.

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O que poderia ser pura nostalgia se transforma no disco em uma interrogação sobre continuidade artística. A guitarrista, cantora e percussionista construiu ao longo da carreira uma linguagem própria — dedilhados clássicos entreaçados com vocal percussivo, beatboxing e estruturas de MPB e jazz — e este álbum coloca essa linguagem diante do espelho da origem. O que permaneceu? O que ela escolheu deixar para trás?

Lançado pela Ternário Records, “35 anos musicais” reúne doze faixas com composições de Tom Jobim, Milton Nascimento e outros compositores centrais da música brasileira, tratados como material vivo para reinterpretação — não como monumentos intocáveis. Badi Assad montou o álbum como um patchwork — a palavra é dela — reunindo registros de diferentes sessões, com as costuras deliberadamente à vista. Não há uma progressão cronológica óbvia; o álbum existe fora do tempo.

A trajetória de Badi Assad é singular até mesmo dentro de uma família de músicos excepcionais. Filha de Jorge Assad — músico de origem libanesa — e irmã dos violonistas Sérgio e Odair Assad, ela não seguiu o caminho da técnica clássica pura. A partir do final dos anos 1980, quando lançou seu primeiro disco, Badi foi construindo um espaço entre o virtuosismo instrumental, o canto improvisado e a memória afetiva — um território que a música popular brasileira raramente havia mapeado com tanta especificidade.

O risco maior do álbum está na mesma escolha que o distingue. O formato patchwork, sem arco narrativo explícito, pode frustrar ouvintes que buscam numa retrospectiva de 35 anos uma linha de evolução artística clara. As doze faixas coexistem sem hierarquia aparente — o que funciona como declaração estética, mas também como um convite difícil para quem está entrando pela primeira vez no universo de Assad. A riqueza do material pode esconder o quanto de contexto o ouvinte precisaria trazer.

“35 anos musicais” foi lançado em 16 de junho pela Ternário Records e está disponível nas principais plataformas de streaming em formato de alta resolução. É o primeiro álbum de Badi Assad pela Ternário e, possivelmente, o mais pessoal de toda a sua discografia.

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