Música

Fatoumata Diawara abandona o pop global em Massa, volta ao bambara

Doze faixas em bambara sobre luto, memória e transmissão entre gerações, coproduzidas com Matthieu Chedid
Alice Lange

Fatoumata Diawara construiu sua carreira sobre colisões de gêneros: a tradição wassoulou do Mali, as influências afrobeat das tournês internacionais, o som eletrônico que levou até as indicações ao Grammy numa colaboração com Disclosure. Massa, seu novo álbum com Matthieu Chedid, é o disco que para de pedir emprestado. Volta ao bambara, a língua das raízes malianas, e a temas tão íntimos que parecem uma carta endereçada a quem na sua família ainda não morreu.

Massa significa «eterno» em bambara, e o álbum justifica esse nome. A produção de Chedid, construída em torno do donso ngoni, a harpa dos caçadores do Mali, sintetizadores e percussões em camadas, não moderniza Diawara. Ela dá aos materiais tradicionais dela um espaço iluminado para se mover. As doze faixas duram pouco mais de quarenta minutos e chegam sem pressa: luto, memória, fé e transmissão entre gerações numa língua que não acredita que o tempo seja o assunto.

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A colaboração com Chedid, que grava como -M- e é um dos artistas mais experimentais da França, coloca uma pergunta direta: o que acontece quando a música maliana para de se ajustar para o mercado global? Diawara recebeu duas indicações ao Grammy, uma para Melhor Álbum de World Music, outra para Melhor Gravação Dance pela colaboração com Disclosure. As duas indicações contavam a mesma história: uma artista brilhante chegando até um mercado mainstream que chegava até ela. Massa não chega. Para. Espera.

O centro emocional do disco é Tati Bakary, uma homenagem ao pai falecido, na décima faixa, além da metade do álbum, onde o peso emocional pode pousar sem precisar de explicação. O fraseado vocal de Diawara carrega ali uma paciência nova, a de quem não compete mais por espaço. A tradição wassoulou da qual ela parte, enraizada no oeste do Mali de onde sua família é originária, sempre teve essa qualidade; Massa é a primeira vez que ela deixa essa tradição ocupar o disco inteiro sem oferecer saída.

O argumento cético é válido. Diawara construiu sua reputação internacional justamente sobre a colisão de gêneros: é a artista que levou a tradição da guitarra do Mali a circuitos de festivais que normalmente não param para isso, que mostrou que o bambara pode viver perto da produção eletrônica. Um disco que recua dessa síntese arrisca o público que construiu. Se Massa aprofunda uma audiência menor e mais comprometida, ou encontra uma nova, segue em aberto.

O álbum foi lançado pelo NØ FØRMAT! em 5 de junho e está disponível nas plataformas digitais e em vinil. A pergunta que Massa faz a quem descobriu Diawara pelo Fenfo é se quer a artista que os buscava, ou a que parou.

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