Música

De La Ana une Yamandu Costa e Leandro Rodrigues em diálogo de dois violões

Alice Lange

“De La Ana” coloca os violonistas brasileiros Yamandu Costa e Leandro Rodrigues em uma conversa tão despida de arranjo que cada nota soa como uma pergunta em busca de sua resposta. O single tem uma única faixa e entrega o tipo de economia que é mais difícil de sustentar do que o espetáculo. Nenhuma seção rítmica, nenhum amortecedor de conjunto. Dois violões se encontram ou não se encontram, e a gravação guarda a evidência.

Costa fez da colaboração seu método principal há anos, acumulando discos com parceiros que extraem registros diferentes e às vezes opostos de seu instrumento de sete cordas: um violonista francês atuante na tradição do jazz cigano, um violinista venezuelano imerso no joropo, um duo enraizado no tango do Rio da Prata. “De La Ana” se lê de forma diferente de todos esses. As duas vozes aqui compartilham a mesma gramática, o mesmo vernáculo brasileiro. Nenhuma se curva à outra. Ambas escutam. A peça é uma troca fechada, não uma novidade intercultural.

Essa proximidade é também a principal limitação do single para o público internacional. Um ouvinte fora da órbita da música instrumental brasileira encontrará pouco em que se ancorar: nenhuma letra, nenhuma mudança textural dramática, nenhum paralelo de outra tradição para reconhecer e seguir. As colaborações interculturais de Costa deram a ouvidos não familiarizados um ponto de apoio embutido. Aqui, a moldura é a própria música, e a música pede paciência.

O que faz “De La Ana” valer essa paciência é a especificidade do domínio de Costa sobre o violão de sete cordas. O violão brasileiro de sete cordas ocupa uma posição singular em sua tradição: ele carrega ritmo, harmonia e melodia simultaneamente, uma polifonia de um instrumento só que a maioria dos instrumentos dedilhados deixa para o conjunto. Costa passou sua carreira encontrando o limite externo do que esse instrumento pode conter, e seus parceiros lhe dizem algo diferente sobre ele a cada vez. O Latin Grammy que ele dividiu com Toquinho pela colaboração ao vivo confirmou o que o público de concerto brasileiro já entendia: o teto está mais longe do que parece.

A produção recente de Costa tem se movido em um ritmo que mantém até ouvintes atentos em alerta. Múltiplos álbuns colaborativos apareceram em um único ano, cada parceria chegando com uma proposição tonal distinta: o encontro com o jazz cigano francês trouxe swing e improvisação, a parceria venezuelana introduziu a geometria rítmica do joropo, o projeto Hermanos Guedes abriu uma porta para o tango. “De La Ana” recua dessa amplitude. É a declaração mais silenciosa da sequência, não uma colisão de estilos, mas uma conversa a dois que sabe exatamente o que quer dizer e para no momento em que termina.

Se Leandro Rodrigues fornece o contrapeso que o formato exige é uma pergunta que uma única faixa só pode responder parcialmente. O intercâmbio aqui sugere ou uma colaboração mais profunda em andamento ou uma tarde muito boa em um estúdio de gravação. “De La Ana” já está disponível em todas as plataformas digitais e defende o caso de qualquer que seja.

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