Música

Black Pantera reúnem Derrick Green e Chico César no disco Continental

Alice Lange

O mais revelador em Continental é que Derrick Green e Chico César dividem um disco sem que isso soe como um choque. O vocalista do Sepultura é a voz de um dos mais significativos grupos brasileiros do metal há uma geração; Chico César está entre os mais celebrados cantores-compositores da música popular brasileira. O Black Pantera encontrou uma maneira de fazer ambas as presenças parecerem necessárias nas mesmas 13 faixas.

O Black Pantera (o trio formado por Chaene da Gama, Charles Gama e Rodrigo Augusto) passou anos costurando o heavy metal através da história musical mais profunda do Brasil, mas Continental nomeia o projeto explicitamente. O álbum argumenta que as tradições afro-diaspóricas do país — soul, ritmos de candomblé, luto ancestral — são a base sobre a qual o metal brasileiro se sustenta, o gênero reconheça isso ou não.

Esse argumento chega com mais força em “Banzo”, a colaboração com Chico César. O banzo é a melancolia específica dos africanos transportados para as Américas durante o tráfico de escravos: uma tristeza sem uma pátria para onde apontar. César usa a faixa para desmontar argumentos meritocráticos, transformando a canção em uma das peças politicamente mais precisas que o metal brasileiro já produziu. O álbum também incorpora um discurso gravado do falecido geógrafo Milton Santos, cuja obra sobre a posição do Brasil na ordem global corresponde à recusa da banda em aceitar um papel periférico para a música do país.

Os demais convidados servem a propósitos distintos. Duquesa em “Serotonina” e Sandrá de Sá em “Quando Canto” são cantoras cujas carreiras estão enraizadas na música popular brasileira negra. Sua presença expande o alcance sonoro de Continental sem suavizar o que o álbum está fazendo. A contribuição de Green em “Obsoleto” é o momento que mais faz a ponte entre gêneros: o frontman do Sepultura chega como uma conversa entre o presente do metal brasileiro e um dos pontos de referência internacionais mais reconhecíveis do gênero.

A dificuldade de um álbum tão explícito em sua política é que seu argumento depende da familiaridade com seu contexto. O público do Black Pantera continua concentrado no Brasil, e o investimento de Continental em conceitos especificamente locais — banzo, Milton Santos, a geografia cultural da herança afro-brasileira — aprofunda sua tese ao mesmo tempo que limita o alcance dessa tese. O disco alcançará aqueles que mais o compreendem; nem sempre são os que mais precisam ouvi-lo.

Continental contém 13 faixas e foi lançado pela Deck Music. O Black Pantera anunciou uma turnê Continental em apoio ao álbum.

O álbum tira seu nome do continente inteiro. Seu argumento é mais restrito: que a tristeza fez música muito antes do metal existir, e que o Black Pantera gastou seu quinto álbum traçando essa linha de volta.

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