Cineastas

Anthony Fabian, o cineasta que só filma quem o mundo decidiu não enxergar

Penelope H. Fritz
Anthony Fabian
Anthony Fabian
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento1965-07
San Francisco, California, USA
OcupaçãoCineasta
Conhecido porO Mais Longo dos Dias, Íntimo & Pessoal, Fúria no Alaska
Prêmios22 international awards · AWGIE · Oscar

Anthony Fabian passou cinco anos dentro da história de Sandra Laing antes de se sentir preparado para dirigi-la. Não cinco anos desenvolvendo o roteiro ou buscando financiamento — cinco anos lendo, viajando e conversando com a mulher cuja vida ele pretendia levar à tela. Esse tipo de paciência não tem valor no mercado cinematográfico. É exatamente por isso que revela algo essencial sobre o que Fabian faz.

Nascido em San Francisco em 1965, cresceu em quatro continentes — Cidade do México, Paris, Los Angeles, Londres — com o espanhol como primeira língua e uma infância que o tornou eterno estrangeiro em cada cultura que atravessou. Sua mãe era atriz; aos sete anos, num set publicitário no México, sentiu a força gravitacional de uma equipe de filmagem e não questionou mais. Estudou na Escola de Cinema e Televisão da UCLA, formou-se em 1986 e fez algo inesperado: passou os anos seguintes dirigindo ópera.

Anthony Fabian e Alfre Woodard no Pan African Film Festival
Anthony Fabian e Alfre Woodard na exibição de Skin no Pan African Film Festival, Culver City, 2009. Depositphotos

Essa passagem pela ópera — com Don Giovanni, Il Trovatore e Orfeo ed Euridice para o Scottish Opera — não é um detalhe biográfico menor. É a sua explicação. A ópera ensinou-lhe a gramática da encenação visual: como espaço e luz carregam significado emocional sem diálogo, como estruturar uma história em que cada segundo importa. Quando mais tarde descreveu Sra. Harris Vai a Paris como «um musical sem os números musicais», não estava sendo metafórico. Estava descrevendo um método.

Os documentários vieram depois. Township Opera (2001), para a BBC 4, o levou à África do Sul. Isso o conduziu até Sandra Laing — uma menina afrikáner nascida com pele escura de pais brancos na África do Sul do apartheid, reclassificada como «de cor» pela lei, expulsa de sua escola, separada da família quando se apaixonou por um homem negro. Fabian dedicou cinco anos a pesquisar essa história antes de filmar uma única cena.

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Skin (2008), com Sophie Okonedo e Sam Neill, estreou no Festival de Toronto e acumulou 22 prêmios internacionais, incluindo o Prêmio pela Paz da ONU votado por 21 embaixadores. Roger Ebert deu quatro estrelas. O que o filme não conseguiu foi convencer as salas comerciais de que a história de Sandra Laing merecia sua noite. Circulou como circula a consciência: devagar, teimosamente, carregando mais peso do que sua distribuição conseguia transmitir.

Louder Than Words (2013), com David Duchovny e Hope Davis, contava a história de uma família americana que transforma o luto pela morte da filha na fundação de um hospital infantil. Um filme cuidadoso, engolido pelo panorama da distribuição. Good Hope (2020), documentário sobre a África do Sul pós-apartheid, conheceu o mesmo silêncio. O que parece uma lacuna é, na verdade, um padrão: Fabian faz filmes que exigem algo do espectador, e faz isso sistematicamente, sem recalibrar em função do mercado.

Sra. Harris Vai a Paris (2022) mudou o cálculo. O filme acompanha Ada Harris, uma faxineira londrina dos anos 1950 que se apaixona por um vestido de alta-costura da Dior e simplesmente vai a Paris comprá-lo. Lesley Manville interpreta Ada Harris com a precisão que o papel exige. O que poderia ser apenas uma fantasia elegante é, na verdade, um argumento de classe: o desejo de possuir uma coisa bela não é fútil; as pessoas invisíveis para o seu mundo merecem o melhor que o mundo tem a oferecer. Com 94% no Rotten Tomatoes e uma indicação ao Oscar pelo figurino, o filme chegou onde seus predecessores não tinham conseguido.

O argumento central de toda a filmografia de Fabian é o mesmo: o desejo de ser reconhecido como ser humano não é desproporcional, venha de quem vier. O que muda, de filme para filme, é a nitidez com que esse argumento é formulado.

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