Esportes

Pelé, o trono e o silêncio que veio com ele

Penelope H. Fritz
Pelé
Pelé
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento23 de outubro de 1940
Três Corações, Brazil
Falecimento29 de dezembro de 2022 (82)
OcupaçãoFutebolista
Conhecido porPelé: O Nascimento de uma Lenda, Fuga para a Vitória, Diego Maradona
PrêmiosFIFA World Cup champion (1958, 1962, 1970) · FIFA Player of the Century (2000) · IOC Athlete of the Century (1999) · Ballon d'Or Honoraire (2013) · South American Footballer of the Year (1973) · Order of Rio Branco · Honorary KBE (United Kingdom, 1997)

O magrelo de dezessete anos que chegou à Suécia com a 10 do Brasil saiu de lá com algo que ainda não tinha nome, porque ninguém naquele esporte tinha tido aquilo antes. Não um troféu — desses iam colecionar vários. Uma posição. O primeiro futebolista global, o primeiro que na imaginação do público não pertencia a um clube nem a um país, o primeiro em torno do qual o esporte se reescreveria. Passou os seis decênios e meio seguintes dentro daquela posição. A pergunta que sua carreira não para de fazer, de dentro mesmo da obra, é o que ele fez com ela.

Edson Arantes do Nascimento nasceu em Três Corações, no planalto seco de Minas Gerais, filho de um futebolista de ofício chamado João Ramos do Nascimento — Dondinho para todo mundo — e de uma mãe, Celeste, que nunca aprovou de verdade o jogo. A família mudou para Bauru, no interior de São Paulo, quando ele ainda era pequeno. Eram pobres. Engraxava sapatos por trocados, jogava na rua com uma meia recheada de panos, recebeu o apelido Pelé dos colegas de escola e o odiou durante anos. O treinador da base Waldemar de Brito o levou aos quinze a um teste no Santos, disse aos diretores que tinham diante deles o melhor jogador do mundo, e deu meia-volta para fazer as pazes com uma família que acabara de perder o filho mais velho para uma cidade a oito horas de trem.

A fase Santos é a arquitetura debaixo de tudo o mais. Dezoito anos, 643 gols em 659 partidas oficiais, uma geração de companheiros que construiu ao redor dele o tipo de futebol ofensivo que outros países copiaram por duas décadas. O Santos venceu a Copa Libertadores em 1962 e 1963 e a Copa Intercontinental nos mesmos anos, deixando para trás Benfica e Milan. O time jogou amistosos na África que pausaram guerras civis por noventa minutos; nos pés de Pelé o clube deixou de ser um clube e virou uma prova itinerante.

As três Copas do Mundo são a parte de que o mundo lembra. Suécia 1958 — uma tríplice à França na semifinal, dois gols no 5-2 sobre os anfitriões na final, um menino chorando no ombro do próprio goleiro. Chile 1962 — uma lesão na virilha no segundo jogo, Brasil carregado ao título por Garrincha. Inglaterra 1966 — chutado para fora do torneio por zagueiros portugueses e búlgaros, Pelé dizendo após a eliminação que não jogaria outra Copa. México 1970, quatro anos depois — capitão de um time que a imaginação futebolística não igualou desde então, gol na final contra a Itália, deixando servido para Carlos Alberto o quarto do 4-1. Três taças, um jogador, irrepetível.

Aí vem a parte que complica. A vitória de 1970 foi reivindicada quase de imediato pelo regime militar brasileiro, no poder desde 1964 e então no ápice da repressão. O general da vez, Médici, abraçou Pelé publicamente. Pelé não recusou o abraço. Na década seguinte, enquanto companheiros e contemporâneos — sobretudo o meio-campista Sócrates, que iria montar um movimento de jogadores contra a ditadura — escolheram falar, Pelé escolheu permanecer o mascote nacional. A crítica chegou, não afrouxou e o sobreviveu. Uma segunda discussão acompanha o mesmo período: o total contestado de 1.283 gols na carreira, que depende de contar ou não amistosos e exibições, e que a IFFHS depois rebaixou para 541 gols oficiais de primeira divisão. As duas discussões apontam para o mesmo lugar. O número sozinho não é a resposta. O que você faz com ele, é.

Os últimos anos em campo passaram-se a reconstruir o esporte em outro lugar. Assinou com o New York Cosmos em 1975, jogou três temporadas na North American Soccer League, venceu a Soccer Bowl de 1977 e encerrou a carreira em 1º de outubro de 1977 numa exibição no Giants Stadium — primeiro tempo com o Cosmos, segundo com o Santos, Muhammad Ali e Bobby Moore na arquibancada. O futebol americano moderno se mede a partir daquele contrato. O Cosmos quebrou pouco depois da sua saída.

Passou os quatro decênios e meio seguintes como embaixador, marca e estadista. Ministro Extraordinário do Esporte do Brasil entre 1995 e 1998 — período em que redigiu a Lei Pelé, que reformou os contratos entre clubes e jogadores no país — e rosto permanente da FIFA. Atuou em Fuga para a Vitória, de John Huston, ao lado de Stallone, Caine e Bobby Moore. Sentou-se para um último acerto de contas filmado em Pelé, o documentário de Ben Nichols e David Tryhorn lançado em 2021. Foi marcando, devagar, contra a própria saúde: cirurgia de câncer de cólon em 2021, internações repetidas, uma última no Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo que terminou em 29 de dezembro de 2022.

A vida póstuma foi monumental de um jeito que torna os silêncios do relato original mais fáceis de perdoar e mais difíceis de esquecer. O dicionário Michaelis acrescentou a palavra «pelé» como adjetivo: incomparável, único, fora de categoria. A FIFA rebatizou o gramado da sede em Zurique. Estádios na Colômbia, em Guiné-Bissau, nas Maldivas e em Ruanda levam o seu nome. Neymar superou o seu recorde de gols pela Seleção. Nada disso resolve a pergunta que a obra deixa em aberto. O trono ainda está ali. Ele decidiu que tipo de rei seria. Outros jogadores desde então puderam decidir diferente porque ele se sentou primeiro.

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