Esportes

Pelé, o trono e o silêncio que veio com ele

Penelope H. Fritz

O magrelo de dezessete anos que chegou à Suécia com a 10 do Brasil saiu de lá com algo que ainda não tinha nome, porque ninguém naquele esporte tinha tido aquilo antes. Não um troféu — desses iam colecionar vários. Uma posição. O primeiro futebolista global, o primeiro que na imaginação do público não pertencia a um clube nem a um país, o primeiro em torno do qual o esporte se reescreveria. Passou os seis decênios e meio seguintes dentro daquela posição. A pergunta que sua carreira não para de fazer, de dentro mesmo da obra, é o que ele fez com ela.

Edson Arantes do Nascimento nasceu em Três Corações, no planalto seco de Minas Gerais, filho de um futebolista de ofício chamado João Ramos do Nascimento — Dondinho para todo mundo — e de uma mãe, Celeste, que nunca aprovou de verdade o jogo. A família mudou para Bauru, no interior de São Paulo, quando ele ainda era pequeno. Eram pobres. Engraxava sapatos por trocados, jogava na rua com uma meia recheada de panos, recebeu o apelido Pelé dos colegas de escola e o odiou durante anos. O treinador da base Waldemar de Brito o levou aos quinze a um teste no Santos, disse aos diretores que tinham diante deles o melhor jogador do mundo, e deu meia-volta para fazer as pazes com uma família que acabara de perder o filho mais velho para uma cidade a oito horas de trem.

A fase Santos é a arquitetura debaixo de tudo o mais. Dezoito anos, 643 gols em 659 partidas oficiais, uma geração de companheiros que construiu ao redor dele o tipo de futebol ofensivo que outros países copiaram por duas décadas. O Santos venceu a Copa Libertadores em 1962 e 1963 e a Copa Intercontinental nos mesmos anos, deixando para trás Benfica e Milan. O time jogou amistosos na África que pausaram guerras civis por noventa minutos; nos pés de Pelé o clube deixou de ser um clube e virou uma prova itinerante.

As três Copas do Mundo são a parte de que o mundo lembra. Suécia 1958 — uma tríplice à França na semifinal, dois gols no 5-2 sobre os anfitriões na final, um menino chorando no ombro do próprio goleiro. Chile 1962 — uma lesão na virilha no segundo jogo, Brasil carregado ao título por Garrincha. Inglaterra 1966 — chutado para fora do torneio por zagueiros portugueses e búlgaros, Pelé dizendo após a eliminação que não jogaria outra Copa. México 1970, quatro anos depois — capitão de um time que a imaginação futebolística não igualou desde então, gol na final contra a Itália, deixando servido para Carlos Alberto o quarto do 4-1. Três taças, um jogador, irrepetível.

Aí vem a parte que complica. A vitória de 1970 foi reivindicada quase de imediato pelo regime militar brasileiro, no poder desde 1964 e então no ápice da repressão. O general da vez, Médici, abraçou Pelé publicamente. Pelé não recusou o abraço. Na década seguinte, enquanto companheiros e contemporâneos — sobretudo o meio-campista Sócrates, que iria montar um movimento de jogadores contra a ditadura — escolheram falar, Pelé escolheu permanecer o mascote nacional. A crítica chegou, não afrouxou e o sobreviveu. Uma segunda discussão acompanha o mesmo período: o total contestado de 1.283 gols na carreira, que depende de contar ou não amistosos e exibições, e que a IFFHS depois rebaixou para 541 gols oficiais de primeira divisão. As duas discussões apontam para o mesmo lugar. O número sozinho não é a resposta. O que você faz com ele, é.

Os últimos anos em campo passaram-se a reconstruir o esporte em outro lugar. Assinou com o New York Cosmos em 1975, jogou três temporadas na North American Soccer League, venceu a Soccer Bowl de 1977 e encerrou a carreira em 1º de outubro de 1977 numa exibição no Giants Stadium — primeiro tempo com o Cosmos, segundo com o Santos, Muhammad Ali e Bobby Moore na arquibancada. O futebol americano moderno se mede a partir daquele contrato. O Cosmos quebrou pouco depois da sua saída.

Passou os quatro decênios e meio seguintes como embaixador, marca e estadista. Ministro Extraordinário do Esporte do Brasil entre 1995 e 1998 — período em que redigiu a Lei Pelé, que reformou os contratos entre clubes e jogadores no país — e rosto permanente da FIFA. Atuou em Fuga para a Vitória, de John Huston, ao lado de Stallone, Caine e Bobby Moore. Sentou-se para um último acerto de contas filmado em Pelé, o documentário de Ben Nichols e David Tryhorn lançado em 2021. Foi marcando, devagar, contra a própria saúde: cirurgia de câncer de cólon em 2021, internações repetidas, uma última no Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo que terminou em 29 de dezembro de 2022.

A vida póstuma foi monumental de um jeito que torna os silêncios do relato original mais fáceis de perdoar e mais difíceis de esquecer. O dicionário Michaelis acrescentou a palavra «pelé» como adjetivo: incomparável, único, fora de categoria. A FIFA rebatizou o gramado da sede em Zurique. Estádios na Colômbia, em Guiné-Bissau, nas Maldivas e em Ruanda levam o seu nome. Neymar superou o seu recorde de gols pela Seleção. Nada disso resolve a pergunta que a obra deixa em aberto. O trono ainda está ali. Ele decidiu que tipo de rei seria. Outros jogadores desde então puderam decidir diferente porque ele se sentou primeiro.

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