Música

Sabrina Carpenter, a menina Disney que aprendeu a calcular cada piada

Penelope H. Fritz

Dois Grammys, dois álbuns número um, seis indicações na última cerimônia e um Coachella duplo esgotado: o sucesso mais lento do pop recente chegou — e nas condições dela.

Por quase uma década, Sabrina Carpenter foi a artista que todo mundo subestimava um pouco. Cinco discos publicados, uma gravadora respeitável, turnês como abertura de nomes maiores: a carreira que os críticos chamavam de “promissora”, até o verão em que uma música chamada “Espresso” reorganizou todo o mapa do pop ao redor dela. O surpreendente não é que o single tenha estourado. É como ficou óbvio, em retrospecto, que ela vinha se preparando para isso há anos.

A casa dos Carpenter, em East Greenville, Pensilvânia, era cheia de artistas em retirada. A mãe Elizabeth foi bailarina antes de virar quiropraxista, o pai David tocou em uma banda, e a tia Nancy Cartwright é a voz do Bart Simpson. Sabrina, nascida em maio de 1999, pediu para estudar em casa para poder ir a testes. Aos treze anos, a família se mudou para Los Angeles, o único endereço realista para a carreira que ela já tinha decidido.

Ficou em terceiro em um concurso de Miley Cyrus aos dez, fez um episódio de Law & Order: SVU aos onze e aos quatorze assinou com a Hollywood Records, o selo da Disney. Aí chegaram duas coisas ao mesmo tempo: o papel de Maya Hart, a melhor amiga sarcástica de O Mundo de Riley, e uma série de discos teen-pop — Eyes Wide Open, EVOLution, Singular: Act I, Singular: Act II — que fizeram o trabalho modesto e contínuo de construir uma base de fãs, uma parada de turnê por vez.

A virada começou em silêncio, em plena pandemia

A guinada chegou sem barulho. Estreou na Broadway como Cady Heron em Mean Girls durante a quarentena, passou pela margem pública da novela tabloide entre Olivia Rodrigo e Joshua Bassett e lançou “Skin”, uma música que dava para ler, dependendo do ângulo, como defesa ou como contra-ataque. Saiu da Hollywood Records, assinou com a Island e em 2022 lançou Emails I Can’t Send, o álbum em que apareceu, finalmente, a voz que a crítica vinha esperando.

“Nonsense”, com os versos finais reescritos cidade por cidade no palco, transformou o show num concurso de escrita. Ali ela entendeu uma coisa concreta: nessa versão do estrelato pop, o instrumento é o timing da piada.

A decolagem foi mais uma temporada do que uma única canção. “Espresso” saiu pouco antes da estreia dela em Coachella 2024 e não saiu mais do rádio pelo resto do ano. Veio “Please Please Please” e deu o primeiro número um da Billboard Hot 100. O álbum que continha as duas, Short n’ Sweet, rendeu os dois primeiros Grammys — Melhor Performance Pop Solo por “Espresso” e Melhor Álbum Vocal Pop — e transformou a turnê em Short n’ Sweet Tour, um espetáculo de arena montado como um programa de variedades dos anos 1960 reescrito com piadas bem mais pesadas.

Man’s Best Friend e a aposta clara na persona

A continuação, Man’s Best Friend, é o momento em que a aposta na persona ficou explícita. Saiu em agosto de 2025 com uma capa que mostrava a cantora de quatro e a mão de um homem fora do quadro puxando o cabelo dela. O álbum dividiu a sala. Organizações contra a violência de gênero e vários críticos chamaram a imagem de regressiva. Carpenter e quem defendia o disco leram a foto como sátira do desejo masculino, a piada devolvida ao público que a consome. As duas leituras concedem a mesma coisa: ela é a autora da provocação, não o objeto.

O disco estreou em primeiro lugar em dezoito países e conquistou seis indicações ao Grammy, incluindo Álbum do Ano, na 68ª cerimônia. A noite terminou sem estatueta, mas a contagem em si era o argumento.

Abriu o Coachella 2026 como headliner da primeira sexta-feira com uma encenação de Hollywood vintage que batizou de “Sabrinawood”, com participações de Will Ferrell, Susan Sarandon, Sam Elliott e Samuel L. Jackson; no segundo fim de semana, Madonna apareceu para um dueto em “Vogue”. A Short n’ Sweet Tour retomou em outubro de 2025 com setlist que já incorporava o material de Man’s Best Friend e segue pela Europa em 2026. Fora do palco, o Sabrina Carpenter Fund — que canaliza um dólar de cada ingresso de turnê via organização PLUS1 — banca saúde mental, bem-estar animal e causas LGBTQ+, e cruzou a marca de um milhão de dólares mais rápido do que qualquer outro artista na história da organização. A irmã mais velha Sarah, fotógrafa, segue como colaboradora visual mais próxima: a estética dessa fase é negócio de família.

O que os meninos Disney que se queimaram tinham em comum era serem projeto dos outros. Carpenter, quinze anos dentro da carreira, está claramente comandando a sua. O próximo ciclo de álbum ainda não foi anunciado. Depois de Man’s Best Friend, a pergunta é até onde ela vai esticar a piada antes da piada virar a tese.

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