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‘Homem em Chamas’ (Netflix): a recuperação de Creasy não é só dele

Martha O'Hara

A nova série da Netflix Homem em Chamas chega com sete episódios disponíveis desde 30 de abril e leva pela terceira vez ao audiovisual o personagem John Creasy, criado pelo romancista A.J. Quinnell e levado ao cinema em 2004 por Tony Scott com Denzel Washington no papel principal. Desta vez, Yahya Abdul-Mateen II assume o protagonista, e o cenário muda do México do filme de 2004 para o Rio de Janeiro. O que diferencia a versão de televisão das duas adaptações anteriores não é o desenho dos personagens — é a seriedade com que a série defende, ao longo de sete horas, uma única tese: um homem fluente em apenas uma língua não consegue recuar para um mundo que nunca lhe ensinou outra. Abdul-Mateen II não interpreta esse Creasy como um soldado curado, e sim como alguém a quem o sistema não concede essa cura.

A tese é apresentada sem dramaticidade: o problema de Creasy não é psicológico, é linguístico. Ele foi treinado, de forma muito deliberada, em uma única fluência — a gramática da força, a sintaxe que encerra um confronto antes que ele se desdobre, a linguagem corporal da antecipação permanente.

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Pedir que ele viva sem essa fluência equivale a pedir a um tradutor que esqueça a única língua que conhece. A série o coloca repetidamente em situações onde outro vocabulário lhe seria mais útil — uma conversa com uma adolescente, uma refeição, um trabalho que não exija calcular ameaças — e observa como ele não consegue acessá-lo. Porque não existe um eu preparado para isso.

Essa distinção estrutura a escrita de cada personagem secundário. Bobby Cannavale interpreta Paul Rayburn, também ex-membro das Forças Especiais, e a série coloca os dois homens lado a lado de propósito. Paul fez o que Creasy não conseguiu: construiu um casamento, criou uma filha, aprendeu a ser cordial, aprendeu a ler pessoas para algo além da avaliação de ameaça.

Ele é a versão que Creasy poderia ter se tornado se alguma das alternativas disponíveis tivesse pegado. Que ele seja, justamente, o pai da adolescente que Creasy precisa proteger não é um acaso narrativo — é o método estrutural pelo qual a série o empurra para a proximidade física da versão de si mesmo que ele não construiu, exigindo que mantenha viva a filha dessa versão sem se amargurar. A duplicação é a arquitetura.

Rio não é cenário

Steven Caple Jr., diretor dos dois primeiros episódios, entende corpos que batem. O que ele traz de Creed II é a consciência do diretor de boxe: o corpo que aplica violência é também o que paga o preço por aplicá-la, e esse preço precisa estar legível no rosto do ator para que a violência aterrisse moralmente.

Yahya Abdul-Mateen II assume essa carga pelo que escolhe deliberadamente não fazer. O Creasy dele se move com o peso contido de um homem que ensaia mentalmente, sem parar, o que pode ter de fazer em seguida — uma imobilidade que estranhos leem como autocontrole e pessoas próximas leem como exaustão. O showrunner Kyle Killen escreve em torno dessa interpretação, nunca por cima dela: os flashbacks são invasivos, não explicativos, e chegam quando o sistema nervoso de Creasy os impõe, não quando a trama os pede.

A escolha do Rio de Janeiro — depois da Cidade do México e, antes, da Itália — é a parte da adaptação que muitos vão ler como decisão estética e que, na verdade, é o argumento mais claro da série. Cada versão de Homem em Chamas colocou Creasy na cidade que sua década leu como o espaço mais legível da violência privada normalizada.

O romance de 1980 fez isso na Itália do final dos anos das Brigadas Vermelhas. O filme de 2004 fez no México no momento em que o público americano começou a ler o país nesses termos. A série escolhe uma cidade cuja geografia — o asfalto e o morro, a coexistência visível entre força estatal e forças paralelas, uma indústria de segurança privada enraizada há décadas — não é cenário, é premissa.

A Valeria Melo de Alice Braga — uma motorista com vínculos familiares dentro da estrutura de comando de uma favela — não é um personagem-guia. Ela é o argumento da cidade sobre Creasy, encarnado.

A série chega num momento cultural em que a narrativa do veterano traumatizado pós-11 de setembro — o soldado que volta para casa mas nunca chega — acumulou um quarto de século na ficção audiovisual americana, e o roteiro de “uma última missão para encontrar a paz” perdeu seu crédito.

O público que cresceu dentro desse roteiro começou a perguntar se a paz era de fato a moldura certa, ou se existem treinamentos definitivos cuja única narrativa honesta é nomeá-los como definitivos. A série leva a pergunta a sério. Ela não promete a Creasy uma recuperação para depois retirá-la como ferramenta de tensão narrativa: defende, desde o primeiro episódio, que a recuperação que ele persegue está estruturalmente indisponível, e que o mundo em que ele vive não tem nenhum interesse em fornecê-la.

O que os sete episódios nunca resolvem — e provavelmente nem deveriam resolver — é a pergunta sobre se o mundo retratado é o que produziu Creasy ou o que precisa dele.

Man on Fire
MAN ON FIRE. Billie Boullet as Poe Rayburn in Episode 102 of Man on Fire. Cr. Juan Rosas/Netflix © 2024

Se a economia de uma cidade depende da disponibilidade da fluência dele — se o asfalto paga por proteção porque o morro pode fornecer violência, e quem vive entre os dois ganha a vida ocupando essa lacuna — então a recuperação de Creasy deixa de ser assunto privado: é uma retirada de oferta. As instituições à volta dele leem o esforço de parar como indisponibilidade temporária, prestador entre dois contratos. A adolescente que ele protege não é uma saída. É a forma que tomou seu próximo trabalho. A série acaba; ele não.

Homem em Chamas está disponível na Netflix com os sete episódios desde 30 de abril. Yahya Abdul-Mateen II encabeça o elenco no papel de John Creasy. Billie Boullet interpreta Poe Rayburn, Alice Braga vive Valeria Melo, Bobby Cannavale interpreta Paul Rayburn e Scoot McNairy interpreta Henry Tappen, com Paul Ben-Victor em papel de apoio. Kyle Killen assina como criador, roteirista e showrunner. Steven Caple Jr. dirige os dois primeiros episódios e figura entre os produtores executivos. A série adapta o romance que A.J. Quinnell publicou em 1980 e sua continuação The Perfect Kill, e é produzida por New Regency, Chernin Entertainment, Chapter Eleven e RedRum.

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