Ciência

Marte manteve sistemas magmáticos semelhantes aos da Terra por bilhões de anos sem tectônica de placas

Peter Finch

Vinte e quatro quilômetros abaixo da superfície de Marte, ondas sísmicas de antigos terremotos marcianos revelaram algo que não deveria estar lá: uma fronteira química que marca onde vastas massas de rocha fundida se separaram em camadas, exatamente como acontece dentro dos sistemas vulcânicos ativos da Terra. Marte não tem tectônica de placas. Não tem vulcões ativos. E, no entanto, um novo estudo publicado na Nature Astronomy encontrou, escrita nas profundezas do interior marciano, a assinatura química precisa desse mesmo processo — chamado magmatismo transcrustal.

Como um terremoto marciano mapeia uma camada escondida

A sonda InSight da NASA pousou em Elysium Planitia em 2018, equipada com o sismômetro mais sensível já colocado em outro planeta. Em quase quatro anos detectou mais de 1.300 terremotos marcianos. O Dr. Tobermory Mackay-Champion, da Universidade de Bristol, e colegas de Oxford aplicaram modelagem termodinâmica aos dados sísmicos. A resposta veio de 24 quilômetros de profundidade: uma fronteira clara separando rocha ultramáfica de rocha máfica mais leve.

O que Marte fez sem tectônica de placas

“Tradicionalmente, assumíamos que o vulcanismo em Marte era relativamente simples”, disse o professor Jon Wade, de Oxford. “Mas esta descoberta sugere que Marte conseguiu sustentar grandes sistemas duradouros onde a rocha fundida evoluiu e foi reprocessada por toda a crosta.”

O Olympus Mons, o maior vulcão do sistema solar com 21 km de altura, evidencia que enormes quantidades de magma circularam por bilhões de anos.

O que o registro sísmico não resolve

Os dados do InSight cobrem apenas uma região: Elysium Planitia. Se a fronteira de 24 km é global ou local permanece em aberto. O hemisfério sul de Marte tem uma geologia muito diferente e nenhum sismômetro o amostrou.

Perguntas frequentes

Por que Marte não tem tectônica de placas?

Marte provavelmente desenvolveu uma litosfera mais espessa desde cedo, o que impediu que sua crosta se dividisse em placas móveis.

O que é o magmatismo transcrustal?

É o processo pelo qual grandes corpos magmáticos se acumulam em diferentes profundidades, evoluem quimicamente e deixam uma estrutura detectável pelas ondas sísmicas.

Marte poderia ter abrigado vida?

Com sistemas magmáticos profundos e duradouros, Marte provavelmente teve desgaseificação vulcânica prolongada, atmosfera mais densa, água líquida e sistemas hidrotermais.

O InSight ainda opera?

A missão terminou em dezembro de 2022 quando a poeiera marciana cobriu os painéis solares.

O próximo passo

Mars Sample Return e o rover ExoMars irão amostrar o solo marciano em profundidade. “Se Marte conseguiu sustentar esse tipo de complexidade geológica, então talvez as condições para a habitabilidade possam surgir em mais planetas do que imaginávamos”, concluiu o professor Wade.

Referência: Mackay-Champion, T.R. et al., “Seismic evidence for a melt-depleted lower crust and transcrustal magmatism on Mars”, Nature Astronomy, 2026. DOI: 10.1038/s41550-026-02907-5

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