IA

As pessoas recorrem à IA para a saúde mental porque ela responde, não porque funciona

Adrian Kessler

Algo mudou silenciosamente na forma como as pessoas atravessam as piores noites. Quando a mente se volta contra si mesma e não há ninguém para ligar, uma parcela crescente de adultos agora abre um chatbot — não porque estejam convencidos de que ele as entende, e muitas vezes nem porque ajuda, mas porque ele responde. Esse é o cerne desconfortável de uma ampla nova pesquisa sobre saúde mental, e é mais estranho do que o título sugere.

A leitura óbvia é uma história sobre confiança: pessoas entregando suas vidas interiores a máquinas. Mas confiança é a lente errada. O que os números descrevem não é realmente um veredito sobre se a tecnologia é boa. É um veredito sobre disponibilidade — o simples fato de que o chatbot está lá, e o profissional não está.

O estudo, realizado pela seguradora AXA com o instituto de pesquisa Ipsos entre 19 mil adultos em 18 países, descobriu que 63% já recorreram a ferramentas de IA com perguntas sobre sua saúde mental. O que torna o número digno de atenção é a contradição ao lado. Cerca de 45% ficaram insatisfeitos com as respostas que receberam. E ainda assim 38% disseram confiar mais nessas plataformas do que em um profissional humano de saúde mental. As pessoas estão insatisfeitas com o conselho e mesmo assim o buscam.

Isso só faz sentido se a qualidade nunca foi o fator decisivo. Um chatbot é construído para produzir uma resposta fluente, não uma resposta correta; ele não tem dever de cuidado nem obrigação de escalar quando detecta que alguém está em perigo. Ele simplesmente responde, instantaneamente, de graça, sem encaminhamento ou uma espera de meses. “A IA está disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, é gratuita e está no seu celular quando você está sozinho às 23h”, como disse o diretor de saúde da AXA. Essa é toda a proposta de valor. É também todo o problema.

A pesquisa sugere o custo dessa troca. Entre as pessoas que usam um chatbot para questões de saúde mental, 42% disseram que quase sempre seguem o conselho que ele dá — e 28% disseram que agir com base na recomendação de um chatbot as levou a comportamentos prejudiciais. Uma ferramenta sem responsabilidade clínica está sendo tratada como primeiro socorro por pessoas que menos podem absorver uma resposta errada.

Compare isso com a forma como os sistemas formais de saúde estão adotando a mesma tecnologia, e dois mundos paralelos entram em foco. Um instantâneo separado do escritório europeu da OMS, o primeiro do tipo em todos os 27 estados-membros da UE, descobriu que quase três quartos já usam diagnósticos assistidos por IA e cerca de seis em cada dez implantam chatbots para apoiar o engajamento dos pacientes. Dentro da clínica, a IA chega envolta em supervisão, governança e a maquinaria da responsabilidade médica. Fora dela, no lado do consumidor, os mesmos modelos subjacentes funcionam sem nada disso — sem divulgação do que podem e não podem fazer, sem transferência quando o risco aparece.

As pessoas que caem no segundo sistema são, esmagadoramente, as que estão excluídas do primeiro. Como escreveu um médico sobre a pesquisa, as pessoas estão incorporando a IA em suas vidas emocionais “não como um complemento a um sistema de saúde que funciona bem, mas como um ponto de entrada acessível a um cuidado que permaneceu fora do alcance da maioria”. O motor é o custo e o acesso, não a convicção de que a máquina sabe mais. O índice de insatisfação é a prova: os usuários conseguem perceber a diferença. Eles usam mesmo assim, porque a alternativa é nada.

Nada disso argumenta que a IA não tem lugar na saúde mental. Os clínicos veem um lugar real — triagem, continuidade entre consultas, uma ponte para pessoas que de outra forma não receberiam nada. Mas a versão que se espalha mais rápido é a não governada, e está se espalhando exatamente onde os riscos são mais altos. A solução que continua surgindo é pouco glamorosa: ferramentas que declarem claramente o que não são, e encaminhem a pessoa a um humano qualificado no momento em que perceberem que alguém está em risco.

A sala de espera não esvaziou porque as pessoas melhoraram. Esvaziou porque, para a maioria delas, a porta nunca esteve aberta. A IA não ganhou uma discussão sobre cuidado. Ela apenas atendeu o telefone — e nada do outro lado é obrigado a perceber quando a ligação dá errado.

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