Série

Avatar: O Último Mestre do Ar volta à Netflix com o Reino da Terra e uma garota cega chamada Toph

Jun Satō

Uma garota cega se planta no centro de um círculo de luta e espera o chão falar. Ela não vê o rapaz que avança, e não precisa. Sente o passo chegar pela pedra, mede o peso e o derruba de costas antes que ele entenda o que é ler a terra. Essa é Toph, e a entrada dela resume o que a segunda temporada do Avatar em ação real busca: um mundo em que o espectador acredita com o corpo, não só com os olhos.

YouTube video

A primeira temporada carregava dois pesos ao mesmo tempo. Precisava apresentar um universo e, junto, deixar para trás a lembrança de um filme muito criticado. Esta herda algo mais difícil e mais invejável: o melhor material da franquia. O segundo livro tira Aang da estrada aberta e o joga no Reino da Terra, um continente há uma geração sob ocupação, e termina dentro de Ba Sing Se, uma capital amuralhada que a produção diz ter erguido em escala enorme. A história trata essa cidade como o lugar mais perigoso onde essas crianças já entraram, justamente porque parece um refúgio.

Tudo neste livro é questão de superfície, e é aí que uma versão em ação real ganha ou perde o mundo. Dobrar a terra é o mais pesado dos quatro elementos: a água flui, o fogo se esconde na luz, o ar é quase só movimento. A pedra precisa cair. Uma rocha que flutua parece desenho; uma rocha com massa parece um planeta com regras. Toph luta baixa, de pés firmes e parada, deixando o chão se mover em vez de se lançar, e essa única escolha é o teste de credibilidade da temporada.

A cidade é a outra metade do problema, e a mais interessante. Ba Sing Se não é tanto um cenário quanto um argumento: anéis de classes empilhados atrás de uma muralha, uma arquitetura da calma imposta. Lá dentro, uma polícia secreta mantém a ordem com uma única regra, a de que ninguém mencione a guerra aos portões. Os muros mantêm a Nação do Fogo do lado de fora e a mentira do lado de dentro. O que começou como aventura infantil entrou, sem levantar a voz, numa história sobre como uma população sobrevive aceitando não olhar.

Toph é o motor que empurra a série para fora da infância. É a primeira do grupo que não quer proteção. É mais forte do que quem tenta abrigá-la e se importa mais em escapar de uma família que a escondeu do que com um destino que não é dela. Ao redor, o elenco que volta traz o resto do clima: o Zuko de Dallas Liu segue atrás de um trono que já não o quer, a Azula de Elizabeth Yu chega como a irmã prodígio mandada para buscá-lo e o Iroh de Paul Sun-Hyung Lee continua o único adulto que oferece chá em vez de guerra.

Nada disso é novo para quem guardou perto a série animada, e é justamente aí a pressão. O segundo livro de 2005 é tido como o auge da franquia, o ponto em que o desenho deixou de ser para crianças e passou a confiar a elas o luto. A ação real não pode viver de memória: precisa construir uma Ba Sing Se com clima e classes de verdade e deixar Toph ser tão atrevida e ingovernável na tela quanto era no papel. Fidelidade não é imitação.

Avatar: The Last Airbender - Netflix
Avatar: The Last Airbender. Gordon Cormier as Aang in season 2 of Avatar: The Last Airbender. Cr. Courtesy of Netflix © 2026

E o ofício só leva a história até a beira do que não resolve. Dominar um quarto elemento não vai encerrar uma guerra que os adultos começaram e depois entregaram a um menino de doze anos. O Reino da Terra é onde Aang aprende que ser o Avatar é, sobretudo, carregar os fracassos dos outros. A temporada deixa a pergunta em aberto: o que devemos às crianças a quem entregamos nossas guerras inacabadas?

A segunda temporada adapta o Livro Dois: Terra em sete episódios, dois a menos que os oito da estreia; a série foi renovada para uma segunda e uma terceira temporada de uma vez, e a terceira vai encerrar a história. Christine Boylan e Jabbar Raisani assumem como showrunners, com Albert Kim, criador da série, como produtor executivo, e Miya Cech, escolhida entre mais de seis mil testes, entra como Toph. Chega à Netflix em 25 de junho.

Elenco

  • Gordon Cormier — Aang

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.