Filmes

Avatar: Fogo e Cinzas chega ao Disney+ com os primeiros na’vi que escolhem a guerra

Molly Se-kyung

Jake Sully enterrou um filho. Neytiri viu a guerra que julgava encerrada voltar atrás do resto de seus filhos. O terceiro Avatar de James Cameron começa onde a maioria das franquias recuaria: dentro de uma família que já perdeu, num planeta que não garante mais a segurança de ninguém. O espetáculo continua aqui. O que mudou foi o clima que respira por baixo.

YouTube video

Por dois filmes, Pandora seguiu uma corrente moral nítida. Os na’vi vivem em equilíbrio; os humanos chegam para rompê-lo. Avatar: Fogo e Cinzas, a aventura de ficção científica que agora chega às casas no Disney+, é o capítulo que complica essa corrente de vez. Apresenta o Povo das Cinzas, um clã na’vi de terras vulcânicas cuja região e árvore-mãe foram destruídas por uma erupção, e que respondeu a essa ruína com a conquista em vez da reverência. Pela primeira vez, a saga mostra na’vi que não são guardiões nobres da natureza. Estão furiosos, sua terra se foi, e essa fúria tem uma lógica que o filme se recusa a descartar.

Sua líder é Varang, vivida por Oona Chaplin no primeiro antagonista na’vi de verdade da saga. Cameron contou que a escalou anos antes de o papel existir por completo, atraído por um teste que transitava entre a sensualidade, o domínio e a fúria sem nunca se fixar. O resultado é uma vilã cuja ameaça se lê como luto. Varang não quer conquistar por conquistar. Conduz um povo a quem o próprio planeta já tirou o lar, e concluiu que um mundo que deixou seu clã arder jamais o salvaria. Essa conclusão, e não uma arma ou um exército, é o que há de mais perigoso no filme.

É uma ruptura real com os dois capítulos anteriores. O primeiro Avatar traçou uma linha tão limpa que virou atalho: povo da floresta bom, gente do céu má. O Caminho da Água complicou a geografia, não a moral. Fogo e Cinzas é o primeiro capítulo a pôr um agressor do lado na’vi dessa linha: não um humano em corpo na’vi, não um convertido corrompido, mas um clã que escolheu a guerra em seus próprios termos.

Cameron constrói o filme sobre uma única rima, e segui-la é o jeito mais seguro de lê-lo por inteiro. Lo’ak, o filho Sully que sobrevive, carrega a morte do irmão Neteyam como uma raiva à procura de alvo. Varang carrega a destruição de seu clã do mesmo modo. O filme monta os dois em paralelo até o espectador não conseguir mais fingir que o Povo das Cinzas é apenas o inimigo. Dois lutos, a mesma forma, avançando um para o outro ao longo de mais de três horas. A pergunta que a história não para de fazer é a qual dos dois Eywa ainda consegue alcançar.

O luto é o tecido que liga tudo, e o filme nunca deixa o público esquecer de onde parte. A morte de Neteyam no fim de O Caminho da Água paira sobre cada cena dos Sully, e Cameron a trata como uma ferida que mudou o jeito de a família lutar. Jake comanda diferente. Neytiri confia menos. Lo’ak, o irmão que viveu, passa o filme procurando onde pôr o que sente.

Se O Caminho da Água fez de seu elemento um meio de graça, Fogo e Cinzas faz do fogo um meio de perda. O clã vulcânico luta com chamas onde o povo do recife se movia pela água, e Cameron encena o novo elemento como arma e ferida ao mesmo tempo, uma paisagem que já tirou tudo de quem agora a empunha. A ação é a mais física dos três filmes, mas raramente é só ação.

É isso que dá carga ao capítulo. O Povo das Cinzas é o que acontece quando a catástrofe e a espoliação produzem militância em vez de luto, uma forma reconhecível para quem já viu comunidades deslocadas decidirem que a paciência falhou com elas. Cameron constrói Pandora há quinze anos como um argumento sobre como tratamos o que não pode ser reposto. Fogo e Cinzas vira esse argumento para dentro, para os próprios na’vi.

Em torno desse núcleo, a saga segue se ampliando enquanto se fecha sobre uma família. Sam Worthington e Zoe Saldaña voltam como Jake e Neytiri, Sigourney Weaver como a adolescente Kiri, Stephen Lang de novo dentro de Quaritch, Kate Winslet e Cliff Curtis como os líderes metkayina Ronal e Tonowari, com David Thewlis entrando no mundo de Pandora. Os rostos que retornam importam menos por nostalgia que por aritmética: é o capítulo em que se paga o custo de três filmes de guerra.

Vê-lo em casa muda a forma da experiência. Um Avatar de cinema é um evento ao qual você se entrega; um Avatar em streaming é um em que dá para se instalar, pausar, voltar, emendar com os dois anteriores. Estrear o penúltimo capítulo da saga no Disney+ reúne todo o arco num só serviço, o jeito mais eficiente de entregar um desfecho a um público já em dia. Para quem assiste em casa, a plataforma é a notícia.

O que o filme não vai resolver é a própria fé. Avatar sempre se apoiou na promessa de que o planeta protege os seus. Fogo e Cinzas apresenta um povo que deixou de crer nessa promessa, e nunca responde de todo se uma religião erguida sobre a harmonia pode sobreviver ao clã que chama essa harmonia de mentira.

Avatar: Fogo e Cinzas chega ao Disney+ em 24 de junho de 2026, depois de uma temporada nos cinemas que passou de 1,48 bilhão de dólares no mundo. James Cameron dirige a partir de um roteiro escrito com Rick Jaffa e Amanda Silver. Com mais de três horas, é o capítulo mais longo da saga até aqui, e o último antes da conclusão prevista.

Elenco

Tags: , , , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.