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Time Bandits: um remake para toda a família, mas sem o mesmo impacto

Veronica Loop
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A cena de abertura de Time Bandits (2024) nos joga no quarto caótico de Kevin Haddock, um garoto de onze anos apaixonado por história, com as paredes cobertas de mapas e linhas do tempo. Antes mesmo de terminar o sanduíche, um portal do tempo caindo aos pedaços irrompe no local e o arrasta para uma aventura que mistura, em partes iguais, Monty Python e Doctor Who. Criada por Taika Waititi, Iain Morris e Jemaine Clement, esta série da Apple TV+ é uma releitura vibrante, ainda que irregular, do clássico cult de Terry Gilliam lançado em 1981.

A premissa — um grupo desajustado de ladrões viajantes do tempo recrutando Kevin como seu mais novo integrante — é um prato cheio para confusões. A série aposta com força nas raízes cômicas, e o humor absurdo de Waititi e Clement brilha em momentos como o assalto desastroso a uma pirâmide maia ou o encontro com Pure Evil (interpretado pelo próprio Clement), um vilão que transborda uma ameaça teatral. Mas, enquanto o filme original se entregava ao espírito anárquico, a série suaviza as arestas para agradar a toda a família. Isso não é necessariamente ruim — amplia o apelo da produção —, mas também tira um pouco da mordida do original.

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O maior trunfo da série é a criatividade visual. Os efeitos práticos, uma homenagem deliberada ao original de Gilliam, dão textura à produção: mamutes-lanosos animatrônicos e cenários pintados a óleo dão à fantasia uma estranheza palpável. O uso de telas de LED para criar fundos em algumas cenas produz um efeito imersivo, embora às vezes pareça exagerado quando aparece ao lado de efeitos de computação gráfica mais convencionais. A direção de arte é uma carta de amor à excentricidade de Gilliam, mas temperada com uma estética mais elegante e polida, que tem a cara de Waititi.

É no ritmo que Time Bandits tropeça. Os primeiros episódios parecem ficar em banho-maria, passando por paradas históricas demais sem dar espaço para que nenhum momento respire. A trajetória de Kevin, deslocado em meio à aventura — vivida com sinceridade por Kal-El Tuck — é o eixo emocional da série, mas às vezes se perde entre os saltos no tempo e as piadas. Tuck dá conta do papel, mas o roteiro nem sempre lhe oferece a profundidade necessária para ir além do clichê do “garoto em uma aventura”.

Lisa Kudrow, no papel da pragmática Penelope, rouba a cena com sua interpretação impassível. A química com o restante do grupo é um dos destaques da série, sobretudo quando ela é obrigada a bancar a babá diante da curiosidade de Kevin, de olhos arregalados. Widgit, vivido por Roger Jean Nsengiyumva, traz uma energia travessa ao grupo, enquanto Bittelig, de Rune Temte, acrescenta um charme rústico. Mas é Kudrow quem dá equilíbrio ao caos; sua atuação lembra por que ela se destaca em tudo, de Romy and Michele’s High School Reunion a The Comeback.

Os melhores momentos da série surgem quando ela abraça seu lado mais emotivo: o vínculo de Kevin com Saffron (Kiera Thompson), sua irmã mais nova, deixada para trás na casa da família em Nova York, nos anos 1920, dá peso às confusões pelas viagens no tempo. Já perto do fim da temporada, um desvio pela história de Robin Hood mostra como a série consegue equilibrar humor e aventura quando se compromete com um único cenário. O episódio se destaca ao combinar comédia pastelão e tensão genuína, mas chega tarde demais e dura pouco.

É uma pena que a série tenha sido cancelada após uma temporada: há potencial, mas a execução parece apressada, como se os roteiristas ainda estivessem tentando encontrar o tom. A dependência de participações históricas especiais — Mark Gatiss como o Earl of Sandwich? Uma graça — às vezes parece mais um preenchimento do que uma história bem desenvolvida. Esses desvios são divertidos por si só, mas interrompem o ritmo narrativo e deixam a trama principal fragmentada.

Em termos temáticos, Time Bandits aborda ideias de destino e livre-arbítrio, mas nunca se dedica de fato a explorá-las. Em tese, a jornada de Kevin é sobre escolher o próprio caminho, mas a série tem dificuldade para conciliar essa ideia com as peripécias das viagens no tempo. A produção abraça o absurdo da premissa, mas raramente vai além do humor e da ação superficiais.

No fim das contas, Time Bandits é uma aventura divertida, apesar dos tropeços — vai encantar os fãs do original de Gilliam, mas deixar quem busca mais coesão querendo mais. É uma série para quem gosta de ficção científica com uma dose de comédia pastelão e fantasia temperada com farsa.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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