Documentários

Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concordia chega à Netflix com imagens inéditas do desastre de 2012

Camille Lefèvre

Mais de quatro mil pessoas embarcaram num navio do tamanho de uma cidade pequena com uma promessa silenciosa: a de que nada ali poderia dar muito errado. O Costa Concordia passou suas últimas horas desmontando essa promessa. Não afundou numa tempestade nem numa colisão no nevoeiro. Emborcou porque o comando o aproximou de uma ilha para saudar a costa.

Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concordia volta ao naufrágio diante da ilha do Giglio e se recusa a tratá-lo como acidente. No centro daquela noite está o inchino, a saudação de passagem: um comandante levando um navio de 114 mil toneladas para perto do litoral para que os passageiros se aglomerassem na amurada e a cidade visse as luzes deslizarem. Era um número, repetido antes e aplaudido depois. O documentário reconstrói a noite em que esse número bateu numa rocha a partir de imagens inéditas e do relato de quem estava nos conveses.

O método do filme é o seu argumento. Em vez de uma recriação com atores, ele se apoia no que os sobreviventes tiraram do navio no bolso. Os celulares continuaram filmando nos corredores quando a inclinação do piso passou do ângulo em que um corredor deixa de ser um corredor. O áudio do comando sobreviveu. E sobreviveu o diálogo de rádio que logo todo o país conheceria de cor: um oficial da guarda costeira mandando o comandante voltar ao navio que ele já havia deixado. O filme deixa as gravações correrem em vez de narrar por cima.

Para quem chega sem os detalhes, os fatos constam. O Costa Concordia bateu nas rochas de Le Scole e abriu um rombo de uns setenta metros no costado de bombordo. A água chegou às casas de máquinas, o navio perdeu propulsão, derivou de volta para o Giglio e encalhou de lado em águas rasas. Morreram trinta e duas pessoas. A maioria sobreviveu a uma evacuação caótica que deveria ter começado muito antes, e é nesse atraso que mora boa parte do horror.

O comandante virou a história, e essa foi a parte cômoda. Francesco Schettino foi julgado, condenado por vários homicídios e por causar o naufrágio, a dezesseis anos. Fizeram dele o rosto único de uma falha com muitos autores: uma cultura da saudação que nenhum regulador havia proibido, uma ordem de abandono tardia, uma corrente de pequenas permissões muito acima de um único homem. Nomeá-lo encerrou o caso. Nunca explicou por que um gesto para os espectadores podia pesar mais do que a segurança de todos abaixo deles.

É a pergunta que o filme mantém aberta, e é a certa, porque nada do que veio depois a responde. O casco foi reflutuado em 2013 numa das maiores operações de salvamento já tentadas e rebocado a Gênova para o desmonte. O julgamento seguiu seu curso. As manchetes passaram. Nada disso devolve um dos trinta e dois, e ao filme interessa menos quem segurava o leme do que por que segurá-lo um dia foi um espetáculo.

É aqui que a distância de mais de uma década rende. Os primeiros documentários sobre o Concordia foram feitos com o navio ainda de lado e o julgamento por começar; foram, inevitavelmente, atrás do vilão. Com os anos entre o evento e a montagem, os sobreviventes falam de outro jeito. Sem a adrenalina, resta algo mais difícil de descartar: a memória prática de uma escada no ângulo errado, de um colete passado a um desconhecido, do cálculo exato de quando pular.

O documentário ainda se encaixa numa linha reconhecível da Netflix, a do cinema de catástrofe que sustenta uma tese incômoda: a maioria dos desastres descritos como eventos extraordinários era, de perto, prática normal que um dia ficou sem sorte. Naufrágio: O Pesadelo do Costa Concordia tem oitenta e sete minutos e chega à Netflix em 10 de julho de 2026. Cobre o naufrágio de 2012 do Costa Concordia diante da ilha toscana do Giglio e, para uma história que se julga conhecer pelo nome de um comandante, defende algo mais duradouro: o pior daquela noite foi o quanto a decisão que a causou havia virado rotina.

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.