Análise

Jaafar Jackson foi o único acerto de um biopic bilionário que a própria família rejeita

Molly Se-kyung

Quando Colman Domingo sentou atrás da bancada do Jimmy Kimmel Live na segunda-feira, 20 de julho, ele ocupava pelo menos dois lugares ao mesmo tempo. Como apresentador convidado — substituindo um Kimmel de férias —, era o ator mais aclamado da sala: vencedor do Emmy, indicado ao Oscar duas vezes. Como o homem que interpretou Joe Jackson em Michael — o biopic dirigido por Antoine Fuqua que seu convidado Jaafar Jackson havia sustentado por duas horas e meia —, era também a figura de autoridade que o filme havia dramatizado durante toda a sua duração. Diante dele, Jaafar Jackson, 29 anos, encerrava uma turnê de imprensa para um filme que sua prima Paris Jackson renegou publicamente.

A conversa foi amistosa. Jacob Elordi, o terceiro convidado, elogiou os dois atores. O público aplaudiu. E naquele aplauso estava a contradição que Jaafar Jackson tem navegado desde que Michael estreou em abril: ele ganhou o argumento em que foi colocado, enquanto o argumento em si — sobre o que o filme contou e o que não contou — ainda não foi resolvido.

Jaafar Jackson foi o elemento que ninguém havia planejado num projeto construído inteiramente sobre planejamento. O Grio confirmou no dia 13 de julho que o filme havia ultrapassado um bilhão de dólares nas bilheterias mundiais, tornando-se o primeiro biopic da história do cinema a alcançar essa marca. Tem também 38% de aprovação no Rotten Tomatoes — uma distância entre sucesso comercial e recepção crítica quase sem precedentes no Hollywood contemporâneo. A explicação parcial é a performance de Jackson: críticos que descartaram o filme em três parágrafos dedicaram um quarto a dizer que seu protagonista era extraordinário.

O filme começou como uma épica autorizada, com o espólio dos Jackson, Katherine Jackson e a Lionsgate alinhados numa produção que celebraria a vida e a música de Michael Jackson. A intenção original, segundo o Washington Post e a Forbes, incluía algum tratamento das acusações de abuso que marcaram o último capítulo da vida pública de Michael Jackson. O que chegou às telas foi diferente: refilmagens que custaram até 50 milhões de dólares foram necessárias depois que uma cláusula de acordo legal impediu juridicamente a produção de retratar um dos acusadores de Jackson. O terceiro ato inteiro foi eliminado e reconstruído em torno dos preparativos para a turnê Bad de 1987.

A crítica mais direta veio de dentro da própria família Jackson. Paris Jackson — filha de Michael, prima de primeiro grau de Jaafar — se distanciou publicamente da produção antes do lançamento e não compareceu a nenhum evento promocional. Descreveu o filme como algo que parecia destinado a “bajular uma seção muito específica dos fãs do meu pai que ainda vive numa fantasia”. Essa palavra — fantasia — é a que fica. Não implica apenas uma omissão, mas uma construção ativa: um retrato feito para servir um público cuja relação com Michael Jackson depende de uma versão dos fatos que o registro completo não sustenta.

Nessa leitura, a performance aclamada de Jaafar Jackson cumpre uma função desconfortável: é o elemento genuinamente excelente de um projeto de proteção institucional. Se os críticos não conseguiram descartar o filme por inteiro, foi em parte porque não conseguiram descartar o seu protagonista. Sua presença deu ao filme higienizado uma espécie de inoculação.

Esse argumento tem força. Também pede que Jaafar Jackson responda por decisões que outros tomaram. Ele foi escalado depois de um processo de seleção de dois anos. Passou mais de um ano em preparação com os coreógrafos que haviam trabalhado com Michael Jackson nas produções originais. Katherine Jackson disse a jornalistas que ele “incorpora” seu filho. Colman Domingo — seletivo em seus projetos desde as indicações ao Oscar — descreveu vê-lo nos ensaios como algo que o deixou “pasmo”. Os prêmios confirmaram: Melhor Ator nos Astra Midseason Movie Awards 2026, Melhor Performance nos National Film Awards britânicos. Assinou com a CAA — confirmado pelo Hollywood Reporter.

O que os fatos mostram — e o que ainda está em aberto

Michael é o biopic mais rentável da história do cinema (Variety, The Grio). A performance de Jaafar Jackson foi elogiada de forma consistente enquanto o filme obteve 38% no Rotten Tomatoes. Paris Jackson chamou o filme de fantasia. Katherine Jackson aprovou o elenco. O Hollywood Reporter confirmou a assinatura com a CAA. Ele tem 29 anos.

O que permanece em disputa: se um filme legalmente impedido de retratar acusações de abuso pode ser considerado um relato honesto do seu sujeito. Se a performance aclamada de Jaafar Jackson, nesse contexto, serve o mito controlado pelo espólio ou o transcende. E se o público que cruzou a marca do bilhão tem alguma obrigação com as partes da história de Michael Jackson que o filme escolheu não contar.

Jaafar Jackson interpretou um homem que só conhecia pela memória familiar e pela mitologia pop. Nessas condições, não falhou. O que fizer com o próximo papel — sem o sobrenome como rede de proteção — nos dirá algo novo sobre quem ele é.

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