Análise

Ozempic não encerrou a dieta — encerrou a ideia da força de vontade como virtude

Molly Se-kyung

Um novo estudo de Stanford identificou que cerca de 10% da população é biologicamente resistente aos remédios da família GLP-1. Uma carta de pesquisa publicada no JAMA mostra que menos de um em cada quatro pacientes continua na medicação depois de um ano. Foundayo, a nova pílula oral da Eli Lilly, acaba de aterrissar em quiosques da Amazon a 149 dólares por mês. Nada disso é a história cultural. A história cultural é que um contrato de duzentos anos entre peso, caráter e virtude está sendo silenciosamente rasgado.

A coisa mais precisa dita sobre Ozempic neste outono ficou enterrada numa carta de pesquisa do JAMA: menos de um em cada quatro pacientes que começam um GLP-1 continuam tomando o remédio depois de doze meses. Lida no plano raso, é uma informação sobre adesão ao tratamento. Lida com mais cuidado, é uma informação sobre como um artefato cultural se move efetivamente por uma sociedade. Dezenas de milhões de pessoas começaram a usar a droga. A maioria parou, algumas voltaram, o ciclo se repete com naturalidade suficiente para que a NPR já o tenha descrito como “parte do zeitgeist cultural”. Um novo trabalho de Stanford, publicado na Genome Medicine, identificou uma variante genética que torna cerca de dez por cento da população biologicamente resistente ao princípio ativo. Foundayo, o novo GLP-1 oral da Eli Lilly, ocupa hoje quiosques da Amazon nos Estados Unidos por cento e quarenta e nove dólares mensais. A oferta cresce, a ciência fica mais granular, o conjunto de usuários se renova. A perda visível de peso é real. Os efeitos colaterais visíveis são reais. O custo visível é real.

A virada cultural dentro de toda essa movimentação é a parte que a conversa pública continua não enxergando. Não se trata, em primeiro lugar, de padrões de beleza, ainda que padrões de beleza estejam misturados ali. Não se trata, em primeiro lugar, da indústria das dietas, ainda que a indústria das dietas esteja sendo reescrita. Trata-se, é a tese deste texto, da lenta demolição de um contrato que correu por baixo da cultura ocidental nos últimos dois séculos e que quase ninguém nomeia: o contrato segundo o qual a forma do corpo era um documento público da disciplina da alma. Gordo equivalia a falha da vontade. Magro equivalia a virtude. Todo o aparato das dietas, do Vigilantes do Peso ao clean eating, passando pelo nojo silencioso que ajudava a decidir quem subia no trabalho, rodava sobre esse contrato. Ozempic não o quebrou porque facilitou o emagrecimento. Quebrou-o porque tornou a força de vontade visivelmente irrelevante.

O contrato tem raízes antigas. O ascetismo cristão entregou à Europa e às suas colônias a ideia de que a contenção corporal era prova espiritual; a ética protestante afiou o argumento, fazendo do autocontrole indício de um interior bem-organizado; a indústria do século dezenove acrescentou o ritmo do tempo medido pelo relógio; a cultura de consumo do meio do século vinte ofereceu a caloria, aquela unidade especificamente moderna que transformou o ato de comer num exercício de contabilidade. No fim do século vinte o pacote estava montado: ser magro era sinal do tipo de autocontrole que um adulto sério devia ter, e a produção da magreza — através de dieta, exercício, recusa — virou uma performance moral mesmo quando quem a executava estava infeliz. Médicos chamavam de “compliance” o paciente que aderia à dieta. A cultura do bem-estar, que na superfície era rebelião contra a indústria das dietas, aprofundou o contrato em vez de soltá-lo: agora comer certo não era apenas autodisciplina, era higiene espiritual. De um jeito ou de outro, o corpo permanecia transcrição da vontade, e o corpo bem-formado provava uma pessoa bem-formada.

Aí surgiu um peptídeo que imita um hormônio intestinal e atrasa o esvaziamento gástrico, e uma fração substancial da população deixou de sentir fome. Não como consequência de maior disciplina. Como consequência de uma injeção semanal que custa menos que a academia que ela substitui. A pessoa magra não precisa mais ser a disciplinada. A pessoa gorda não precisa mais ser a fracassada. Continuam podendo ser; mas o corpo perdeu sua força de prova. Quando a leitura pública do peso como caráter se quebra, uma série de práticas sociais que dependiam dela — a crueldade casual sobre o corpo dos outros, a suposição de fracasso moral por trás da doença, a avaliação no trabalho que tomava a magreza como aproximação para a ambição — voltam a parecer aquilo que sempre foram: preconceito a céu aberto, sem mais a cobertura digna do “ela simplesmente não se esforçou”.

A parte mais difícil de escrever, porque o comentário público em geral não a diz, é o que essa quebra faz com quem construiu sua identidade sobre a tarefa de ter sido disciplinado. Um público pequeno mas ruidoso, em sua maioria mulheres na meia-idade, reagiu à chegada dos GLP-1 com uma amargura particular — não hostilidade ao remédio em si, mas a quem o usa. A queixa, embrulhada em cem expressões diferentes, é a de que o medicamento “é trapaça”, que ele permite a outras pessoas pular o trabalho que elas próprias fizeram. É a linguagem de um contrato sendo rompido em tempo real. Se a magreza é alcançável sem disciplina, então a disciplina não conquista mais o que conquistava antes. A recompensa — prestígio moral, capital social, o crédito implícito que um corpo magro juntava numa cultura que envergonha a gordura — nunca foi sobre a magreza. Era sobre a legibilidade pública da contenção. O Ozempic torna essa contenção invisível. A amargura é luto.

A objeção mais forte a tudo isso, formulada com mais cuidado por endocrinologistas e especialistas em medicina da obesidade, sustenta que a leitura cultural confunde o medicamento com o significado. A obesidade, dizem, é uma doença crônica com fisiologia mensurável. As drogas GLP-1 são a primeira intervenção realmente eficaz. Tratar a chegada delas como revolução moral, argumentam os médicos, é um erro de categoria perpetrado por gente das humanidades, que passou trinta anos fingindo que a obesidade era uma construção social. Os pacientes da carta do JAMA que abandonam o tratamento depois de um ano não fazem manifestação cultural alguma; abandonam um remédio para doença crônica, com as consequências previsíveis. O ciclo on-off não é zeitgeist; é má adesão a uma terapia séria. Cobertura que trata o medicamento como objeto de guerra cultural, dizem ainda, dificulta o trabalho de oferecê-lo como objeto médico.

A leitura médica está correta até onde vai. A obesidade é, na maior parte, uma doença, e o remédio é, na maior parte, um tratamento. Mas as culturas se prendem aos medicamentos com ou sem licença dos profissionais. O paciente em quimioterapia entra numa cultura; quem usa antidepressivo entra numa cultura; quem usa GLP-1, demonstravelmente, entra numa. O movimento certo não é fingir que o significado cultural não existe — endocrinologistas não conseguem fazer isso, assim como romancistas dos anos oitenta não puderam fingir que ISRS eram substâncias sem sentido — e sim ser preciso sobre em que consiste a virada cultural. No caso, ela consiste em o corpo ter deixado de ser transcrição da vontade. Isso é verdade quer a medicina aprove a formulação ou não, e é mais importante do que a estatística de quantos pacientes seguem na droga após um ano.

Duas implicações decorrem, e as duas são desconfortáveis. A primeira é que boa parte da caixa de ferramentas culturais que sociedades de alta renda usaram para disciplinar apetite, trabalho e conduta vai precisar ser reconstruída sobre outro chão. Se o corpo não é mais o placar público da contenção, a contenção precisará ser defendida por mérito próprio — como caminho para um florescimento real, não como gerador de capital social. Esse argumento é mais difícil que o antigo. Ele vai produzir uma cultura mais honesta e menos moralizante, mas vai perder, na transição, a linha clara e barata que o estigma do peso oferecia.

A segunda implicação é que os próximos vinte anos do discurso sobre o corpo não serão lineares. Haverá contramovimentos — já há, na pequena retomada de blogs de “dieta como virtude”, na ansiedade de body recomp que volta a se infiltrar na cultura corredora, numa geração de adolescentes assistindo às mães se aplicarem a injeção e reescrevendo o roteiro com bordas ainda mais afiadas. Haverá a tentação, sobretudo entre quem construiu a autoimagem em torno de ter sido disciplinado, de recriar o velho contrato sob nomes novos: não “magro é virtude” e sim “magro sem medicamento é a verdadeira virtude”. Esse contrato será menor, mais estreito, mais frágil que o anterior, mas existirá. Vale acompanhar, vale nomear.

Por dois séculos, o corpo foi uma espécie de confissão pública, legível para qualquer pessoa na fila do supermercado, anunciando se você tinha a vida sob controle. Um remédio tornou a confissão ilegível. Essa é a notícia cultural, maior do que a perda de peso, maior do que os efeitos colaterais, maior do que o custo. Vai ser preciso encontrar outro modo de discutir virtude, porque o corpo deixou de aceitar o papel de tradutor.

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