Análise

A internet não morreu. O problema é que nós começamos a agir como os bots

Por cinco anos a "dead internet theory" foi piada de fórum: a rede, diziam, já era um salão de espelhos rodado por bots, fingindo que ainda tinha gente em casa. A piada deixou de ser piada. Virou a textura da experiência cotidiana. E o que mais incomoda nela não é que os bots tenham começado a soar como a gente. É que a gente começou a soar como eles.
Molly Se-kyung

Em um artigo de 2026 na revista Computer, Hal Berghel propôs uma versão “enxuta” da dead internet theory — limpa da paranoia, mantendo apenas o núcleo empírico. O núcleo é difícil de contestar. Amplificação algorítmica de conteúdo generativo; dificuldade de distinguir textos e imagens feitos por máquina dos feitos por humanos; consequente colapso da confiança em qualquer feed. A Cloudflare reportou em 2025 que bots e crawlers de IA tinham se tornado a classe dominante de tráfego na web aberta. Sam Altman escreveu no X que não levava a teoria a sério, e que agora levava. Alexis Ohanian, cofundador do Reddit, chamou simplesmente de “LinkedIn slop” o que via. Quando ele e Kevin Rose relançaram o Digg em janeiro de 2026, tiveram que tirar a plataforma do ar em dois meses porque o problema de bots tornou o serviço inutilizável. Um produto desenhado por dois dos mais nativos da internet de sua geração, morto pelo meio que os criou.

A tese desta página: a sensação de internet morta não é paranoia. É um deslocamento sensorial real, e o que se deslocou não foi se humanos ainda estão lá — estão —, mas quanto trabalho dá encontrá-los. A gente ainda localiza amigos. A gente ainda esbarra na frase real de um estranho. Mas o custo subiu. Cada feed virou uma peneira pela qual o sinal autêntico tem que ser separado do ruído sintético, e a peneirada exige uma atenção que a gente não tem para gastar. O efeito mais profundo é de segunda ordem: para continuar legíveis às máquinas que nos distribuem, começamos a escrever como as máquinas escrevem. Otimizamos nossos ganchos. Arredondamos as arestas. Terminamos cada post com uma pergunta. Soamos, cada vez mais, como uma versão um pouco mais animada do LLM que faz crawl da gente.

Por que isto deveria interessar a quem mal usa rede social? Porque a textura da escrita online — e portanto a textura do pensamento online — se propaga. A cadência do post de LinkedIn invadiu o e-mail. A cadência do tuíte algorítmico invadiu o discurso. A cadência do resumo de IA invadiu a reunião. A gente absorve a suavização porque a suavização traz alcance, e a gente vive numa economia da atenção que chama alcance de “sucesso”. Quem escreve para ganhar a vida percebeu. Quem lê para ganhar a vida percebeu. Quem não faz nem uma coisa nem outra também percebeu, naquela ligeira estranheza plana que se infiltrou em cada assinatura de e-mail, em cada legenda de vídeo, em cada descrição de produto, em cada abstract acadêmico, em cada voz pública nas redes.

Os números devagar. O Press Gazette relatou que o tráfego global do Google para editores caiu cerca de um terço em 2025 — não porque os editores tenham piorado, mas porque os AI Overviews do Google passaram a responder consultas diretamente, e porque a web aberta de onde vinham as respostas foi soterrada por fazendas de conteúdo generativo. Um artigo na Nature de 2024, por Ilia Shumailov e colegas, introduziu o conceito de “model collapse” — o que acontece quando sistemas de IA são treinados recursivamente nos outputs de outros sistemas de IA. A síntese degenera. O sinal humano nos dados de treinamento virou recurso finito e em queda. As grandes plataformas correm para rotular proveniência — Google e C2PA, Adobe Content Credentials, watermarks — parte para proteger usuários, parte para proteger o próprio corpus futuro de treinamento. O esforço é sério e real. Também é tardio.

A versão mais forte do contra-argumento merece ser dita. A narrativa do dead internet às vezes é supervalorizada. Caroline Busta, fundadora da New Models, chamou as primeiras versões de “paranoid fantasy” mesmo admitindo que o tráfego bot e a integridade da web eram preocupações reais. A internet já mudou antes — newsgroups morreram, blogs morreram, Tumblr morreu — e os humanos simplesmente migraram. Estão migrando agora: servidores Discord, grupos no Signal, chats de grupo, newsletters pagas, bolsões de relação autenticada. A web está se redescentralizando em cantos privados como fazia no fim dos anos noventa, antes de as plataformas de massa engolirem tudo. Dessa perspectiva, o slop não é apocalipse; o slop é o deserto que empurra para a próxima migração. Estamos vivendo uma das grandes fragmentações da vida digital, e os sobreviventes serão os espaços em que um bot não consegue entrar porque o ingresso é uma relação prévia real.

Há muito desse argumento, e provavelmente é o que vai acontecer. Mas ele não nos absolve do que estamos fazendo no meio-tempo. Migração é privilégio. A versão Discord-e-Signal da internet está disponível para quem já tem rede. Os jovens, os que acabaram de chegar à cidade, os deslocados, os solitários — as pessoas para quem a internet deveria mais servir como conector — não têm relações prévias para se apoiar. Estão presas na web pública. Estão rolando o slop. Estão formando seu senso de como soa a escrita, como soa o humor, como soa a intimidade, a partir de um corpus que hoje talvez seja um terço sintético. Estamos treinando uma geração nas cadências do bot.

Aqui está o ponto que recebe menos atenção do que merece. “Soamos como bots” é slogan, mas é também descrição literal. Os ganchos. “Olha aquilo que ninguém está falando.” “Três coisas que aprendi.” “E é por isso que importa.” “E se eu te dissesse que.” Não são marcas de mau escritor; são marcas de que quem escreve — corretamente — aprendeu que o algoritmo o premia por isso. O algoritmo é hoje o leitor para quem se escreve. E o algoritmo tem forma, vocabulário, ideia de como uma frase deve parecer. Segui-lo, mesmo em parte, é o caminho para a distribuição. Segui-lo inteiramente é o caminho para se tornar indistinguível do LLM que escreve para o mesmo algoritmo. E segui-lo inteiramente é a trilha de menor resistência para qualquer um cuja carreira dependa de alcance.

A internet brasileira tinha, até há cinco anos, uma das culturas digitais mais inventivas do planeta — o “Twitter brasileiro” como categoria de criatividade reconhecida globalmente, a qualidade de uma timeline boa, o jeito coletivo de torcer um meme até virar três línguas em uma. Aquilo está minguando, e não é só por mudança de plataforma. É também porque a forma de fazer humor online ficou padronizada pelo que o algoritmo distribui. O grupo de WhatsApp ainda salva uma parte: ainda é nele que aparece a piada feita para sete pessoas que conhecem o contexto. O Twitter público virou uma versão polida demais de si mesmo. Esse contraste — WhatsApp vivo, X liso — é uma das melhores demonstrações empíricas do argumento desta página. O bot não consegue entrar no grupo de família. Por isso o grupo de família ainda soa humano.

O que fazer. Recuo, não — é solução de privilégio. A resposta mais dura é escrever coisas em público que um LLM não poderia ter escrito, mesmo que por isso saiam um pouco piores. Usar uma forma de frase que o algoritmo não reconhece. Deixar a digressão. Nomear um amigo específico em um café específico de um bairro específico de uma cidade em que você de fato mora. Escrever o post que vai ter menos alcance porque o algoritmo não acha um gancho ali. O resultado não salva a internet. Deixa apenas um pequeno arranhão na superfície lisa — um traço de mão livre sobre uma grade impressa. Multiplique por leitores que fazem o mesmo e o agregado é algo reconhecivelmente humano. A internet ainda tem gente. Encontrar a gente, hoje, é uma prática. E como toda prática, começa pela decisão de não ser, você mesmo, uma das coisas que serão confundidas com um bot.

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